Entre o guardar e o viver
Talvez não faltem mais coisas, mas sim faltem momentos para usar tudo o que já amamos.
Outro dia li uma frase de uma autoridade em moda que ficou ecoando em mim: “a sensação que eu tenho é que a gente não precisa de mais roupas para momentos. A gente precisa de mais momentos para usar as roupas que a gente já tem”. Fiquei pensando que essa ideia atravessa o armário e pousa, delicadamente, na casa inteira, pois a arte de viver bem talvez more nesse lugar onde usamos o que já é nosso.
Porque não são só as roupas que esperam. São os pratos guardados para uma ocasião especial, os talheres que brilham quietos na gaveta, as toalhas que quase nunca veem a luz do dia. A cristaleira, muitas vezes, vira um lugar de pausa, como aqui em casa notei isso recentemente, quando ela já foi e ainda poderia ser palco de celebração.
E se a gente invertesse essa lógica? O domingo à tarde agora é motivo suficiente para usar a louça bonita e um café simples exige aquela xícara especial. Um jantar comum, de repente, e um evento digno de detalhes, flores, bilhetes, carinho. Escrevendo assim parece até faltar tempo para tal, será mesmo?
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A coragem de criar momentos
Talvez não nos faltem coisas nem tempo. Talvez nos faltem momentos ou simplesmente a coragem de transformá-los. Anota aí: existe um exercício bonito em abrir os armários com outros olhos. Mudar as almofadas de lugar, trocar as colchas, acender uma luz diferente, comprar flores sem esperar visita. Dançar na sala sem motivo. Fazer da casa um espaço vivo, que respira com a gente.
Comprar menos, escolher melhor, cuidar do que já temos. Não por regra, mas por afeto. Porque uma casa que abraça não é aquela cheia de novidades, viu? É aquela cheia de histórias sendo vividas. Assim como um armário de roupas autêntico e com personalidade, pouco tem tendência, é muito mais sobre história, garimpo e compras assertivas.
No fim, fica a pergunta que me fiz esses dias: será que estamos usando tudo o que amamos ou estamos esperando demais por um momento que nunca chega? Talvez viver com leveza seja isso: parar de guardar a vida para depois e começar a usá-la agora, com tudo o que já está ao nosso alcance.
A verdade é que fomos, pouco a pouco, condicionados a acreditar que o novo traz consigo uma promessa de renovação. Estudos sobre comportamento do consumidor mostram que o cérebro associa a novidade a pequenas doses de prazer imediato, como uma espécie de recompensa rápida que logo se acaba, abrindo espaço para o desejo por algo novo outra vez. E assim seguimos, acumulando possibilidades que raramente se transformam em experiência.
Ressignificar é preciso
Mas existe um outro caminho, mais silencioso e mais profundo que eu particularmente amo viver, que é o de ressignificar. De olhar para o que já temos como quem encontra algo pela primeira vez. Um prato pode mudar de sentido quando muda o contexto, uma xícara pode ganhar história quando passa a ser usada e não apenas guardada.
Eu tiro por mim. Apaixonada por louças, sempre me vejo tentada a trazer uma peça nova, uma caneca diferente, um prato inesperado. Em viagens, já acomodei com cuidado esses pequenos tesouros em malas e mochilas, como quem guarda memórias frágeis, sabe? Mas, no meio da rotina, me pergunto: com que frequência estou, de fato, vivendo esses objetos? Quantas vezes escolho o especial no lugar do automático?
Talvez o convite seja esse: um pequeno desafio. Ficar alguns dias sem comprar nada para um determinado espaço da casa: o armário, a cozinha, a cristaleira. E, nesse intervalo, usar tudo. Misturar, reinventar, redescobrir. Criar novos momentos com o que já existe. E tudo isso nem é sobre ter menos ou mais, mas sim sobre viver e usar da melhor forma tudo o que nos cerca.
*Esta coluna reflete, exclusivamente, a opinião da autora