Quem foi Luciano Carneiro, o cearense que esteve na coroação da Rainha Elizabeth II

Enviado a trabalho pela revista brasileira O Cruzeiro em 1953, o jornalista e fotógrafo testemunhou os bastidores da cerimônia real

Escrito por
Antonio Laudenir laudenir.oliviera@svm.com.br
Bilioteca Nacional Revista o Cruzeiro junho de 1953
Legenda: O início de uma nova era na coroa britânica
Foto: Biblioteca Nacional Revista o Cruzeiro junho de 1953

A morte da Rainha Elizabeth II segue causando comoção e despertando a curiosidade do público em torno dessa figura histórica. Uma das formas de entender o legado deixado pela matriarca real é adentrando a memória em torno dela. Um dos pontos altos na biografia da monarca ocorreu em 1953.

Em junho daquele ano, na Abadia de Westminster, em Londres, foi realizada a Coroação de Elizabeth. E um cearense foi testemunha privilegiada da cerimônia realizada em chão britânico. Falamos do jornalista Luciano Carneiro (1926-1959).

Nascido em Fortaleza, este ícone da comunicação brasileira registrou a movimentação e imponência do evento nas páginas da Revista O Cruzeiro. A edição 35, lançada precisamente em 20 de junho, trouxe detalhes preciosos como a festa nas ruas de Londres e a presença do pequeno Charles, herdeiro da rainha, que tinha apenas quatro anos naquela ocasião.

A presença de Luciano Carneiro na Coroação foi resgatada pelo médico e apaixonado por história, João Flávio Nogueira. Por conta própria, ele realiza o canal de YouTube "História e Estória de Fortaleza, do Ceará e do Brasil". Nas redes sociais, o pesquisador reproduziu imagens de "O Cruzeiro" e contou um pouco da jornada do conterrâneo no jornalismo.

Hoje, muitos fortalezenses lembram deste homem da imprensa por conta do nome dado a uma movimentada Avenida da capital. Ele foi além. Este profissional marcou presença em conflitos mundiais, denunciou adversidades do Brasil, rodou o Mundo e morreu jovem, após um acidente aéreo. Afinal, quem foi este cearense cujo olhar afiado e corajoso conseguiu captar importantes acontecimentos do Século XX.

Como foi a Coroação?

Na descrição de seu canal, João Flávio Nogueira explica as razões de defender a memória local. "Acredito que o conhecimento do nosso passado seja fundamental para entendermos os problemas de hoje e os desafios do futuro". A partir desta reflexão, vale a pena adentrar os fatos da Coroação da inglesa, a partir das lentes e letras de Luciano Carneiro.

Bilioteca Nacional Revista o Cruzeiro junho de 1953 2
Legenda: Ruas lotadas para ver a nova rainha
Foto: Biblioteca Nacional Revista o Cruzeiro junho de 1953

Acessamos os arquivos da Biblioteca Nacional. A hemeroteca digital da instituição guarda e protege inúmeros documentos históricos, incluindo as edições de O Cruzeiro datadas de 1928 a 1985. Lá, encontramos a revista que revela os bastidores da Coroação de Elizabeth II. É com estas palavras que Luciano Carneiro inicia a reportagem "A Glória da Rainha Menina": 

Há muitas coisas por esse mundo afora que podem encher a alma de um repórter. Mas será difícil achar, de futuro, algo como a coroação de Elizabeth II"
Luciano Carneiro

A euforia dos britânicos pela ascensão da nova rainha despertou o interesse do nordestino. Em um dos relatos da publicação, Carneiro descreveu o caso de Mary, que chegou a suportar 18 horas de chão duro e o frio londrino para ver Elizabeth acenar da carruagem. 

Bilioteca Nacional Revista o Cruzeiro junho de 1953 2
Legenda: Descrição dos eventos em Londres
Foto: Biblioteca Nacional Revista o Cruzeiro junho de 1953

A reportagem não fala só dos felizes anônimos da multidão, mas detalha as presenças de vultos como Winston Churchill (1874-1965). "Era da rainha a festa, mas o rei da popularidade reconhecia-se em Churchill", descreveu. E continua. "Apresentou-se de Grande Almirante, usando bicórneo, inúmeras condecorações, estrela e cordão de ouro com medalhão de São Jorge da Ordem da Jarrateira" 

No palácio de Buckingham, contou Carneiro, Assis Chateaubriand (1892-1968) comparecia à recepção oferecida pela coroa aos representantes dos países estrangeiros. Aqui, acontece um fato pitoresco em torno do magnata brasileiro.

Bilioteca Nacional Revista o Cruzeiro junho de 1953 2
Legenda: Assis Chateaubriand (de cartola com detalhe em preto) marca presença
Foto: Biblioteca Nacional Revista o Cruzeiro junho de 1953

Chateaubriand mandou colocar faixas em português pelas vias onde Elizabeth passaria. "O Povo do Brasil Saúda a Rainha" e "Nossa Senhora Aparecida Guarde a Rainha" eram algumas das mensagens escritas. Em outro momento, Luciano Carneiro até brinca com a famosa "pontualidade britânica" e afirma que a cerimônia atrasou alguns consideráveis minutos. Sente o clima:

À hora histórica da Coroação, chovia pesado em Londres. Por isso, ao que parece, o préstito real, em vez de partir às 14:55, de volta de Westminster para Buckingham, só pode sair às 15:15 horas. Houve protestos (e isto é a Inglaterra!)" 
Luciano Carneiro

O desbravador cearense

A jornada de Luciano Carneiro marcou presença em lugares distintos do planeta. Segundo o site do Instituto Moreira Sales (IMS), o cearense documentou, em 1955, o trabalho do dr. Albert Schweitzer (1875-1965) na África. Registrou também a Revolução Cubana, com a entrada de Fidel Castro (1926-2016) e seus companheiros em Havana, em janeiro de 1959.

Escreveu diretamente de lugares como Japão, Rússia e Egito. No Brasil, realizou matérias sobre jangadeiros, posseiros, seca no Nordeste, cangaço e as lutas estudantis. Outro episódio marcante em sua biografia é o trabalho na Guerra da Coreia. Como tinha brevê de piloto e paraquedista, o cearense conseguiu se juntar ao Exército americano para saltar sobre as linhas inimigas.

Em 2018, Fortaleza recebeu a mostra “Luciano Carneiro: O Olho e o Mundo”, que reuniu cerca de 300 fotografias deste profissional. A curadoria foi assinada por Sergio Burgi, coordenador de Fotografia do IMS. O objetivo era difundir este talento ainda pouco conhecido na história da fotografia brasileira. Este acervo também foi reunido no livro "Luciano Carneiro – Fotojornalismo e reportagem (1942-1959)".

Registro de Luciano Carneiro e capa do livro lançado pelo Instituto Moreira Sales
Legenda: Imagem de Luciano Carneiro e capa do livro lançado pelo Instituto Moreira Sales
Foto: Reprodução site IMS - Acervo Jornal Estado de Minas/Revista O Cruzeiro

"Foi um dos jornalistas mais atuantes de seu tempo. Em uma curta carreira, interrompida por sua morte aos 33 anos em um acidente aéreo, logo se destacou entre os principais nomes de O Cruzeiro. Trabalhou na revista entre 1948 e 1959, inicialmente como repórter e, no ano seguinte, escrevendo e fotografando", descreveu o curador.

Filho de Antônio Magalhães Carneiro e Maria Carmélia Mota Carneiro, iniciou a vida de jornalista nos jornais "Correio do Ceará" e "O Unitário", ambas publicações dos Diários Associados. Começou a fotografar nessa fase (por volta de 1948) e passou a integrar a equipe da revista O Cruzeiro, no Rio de Janeiro, como repórter.

Luciano Carneiro morreu no dia 22 de dezembro de 1959, em um acidente de avião próximo ao Rio de Janeiro, quando retornava de um trabalho realizado em Brasília. O cearense que correu o mundo e observou fatos únicos da história tinha sido destacado para fotografar o primeiro baile de debutantes da nova capital, que estava às vésperas de ser inaugurada.

 

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