Pratinho em Fortaleza vai da esquina aos restaurantes sem perder a majestade no paladar cearense

Querido e versátil, ele é presença certa nas festas juninas e o carro-chefe de diferentes tipos de empreendimentos nesse período

Escrito por Diego Barbosa, diego.barbosa@svm.com.br

Verso
Legenda: No São João do Tauape, o Esquina do Pratinho da Sandra é point consolidado
Foto: Kid Júnior

Com baião, vatapá e farofa. Com arroz, salada e creme de galinha. Não importa a combinação: se tem pratinho, tem gente feliz. Quando chega junho, então, nem se fala. Ainda que a delícia não perca a preferência ao longo do ano, é mesmo nas festas de São João que a procura aumenta e a produção acelera.

A rota do pratinho em Fortaleza atravessa desde banquinhas na esquina e serviços por encomenda até grandes restaurantes, movimentando uma economia com cheiro, textura e sabor inconfundíveis. Conversamos com pessoas cuja atuação no mês junino multiplica o apreço por uma das marcas gastronômicas mais características de nossa terra.

Sandra Helena Cardoso, 49, é uma delas. Há sete anos a autônoma mantém um espaço próprio no bairro São João do Tauape destinado à comercialização de pratinhos. Inicialmente vendendo na frente de casa, logo passou a ocupar a esquina das ruas Via Férrea e Fiscal Vieira. Hoje, festeja a clientela fiel na Esquina do Pratinho da Sandra.

“Comecei a vender porque não trabalhava formalmente. Minha mãe foi para Belém do Pará e viu que lá eles vivem muito da venda de pratinho. Chegando aqui, me deu a ideia de começar algo parecido. Não parei mais”, conta, entre uma colherada e outra de comida. E não é apenas em junho que o sucesso acontece. Durante todo o ano, o público aprecia o quitute.

Legenda: Na Esquina do Pratinho da Sandra, você pode escolher entre o de R$10 (opção por uma mistura) e o de R$12 (opção por duas misturas)
Foto: Kid Júnior

Segundo Sandra, o diferencial do pratinho dela é a fartura de insumos. Além dos tradicionais arroz ou baião, farofa ou salada, vatapá ou creme de galinha, o cardápio inclui frango assado, carne do sol, picadinho com legumes, cupim no molho, linguiça acebolada, vatapá, fricassê, strogonoff, panqueca, creme de galinha, lasanha e macarronada.

Você pode escolher entre o de R$10 (opção por uma mistura) e o de R$12 (opção por duas misturas). De segunda a sábado, Sandra lhe aguarda de 20h à meia noite. “Por dia, tenho um lucro de R$200 – independentemente se for festa junina ou não. Sempre tem boa venda”, comemora ao observar o que conquistou com o serviço.

“Vender pratinho melhorou minha vida porque é uma renda fixa que tenho, além de estar trabalhando em casa – o que não impede de eu resolver alguma questão do dia a dia. Para mim, é muito bom”. Amanhã, quando a noite irromper, ela arregaça as mangas de novo e deixa tudo prontinho. Mais pratinhos no mundo. Fartura outra vez.

Delícia aprovada por famosos

Do São João do Tauape ao Mondubim. Do consumo presencial à entrega na casa do cliente. O Pratinho Delivery abriu as portas no começo da pandemia de Covid-19 e segue colhendo belos louros – não apenas entre anônimos, vale destacar, mas também entre conhecidos nomes. Artistas como Taty Girl, Solange Almeida, Márcia Fellipe, Ávine Vinny e Matheus Fernandes já experimentaram a delícia preparada pela equipe de Igor Garcia, 29.

“Começamos fazendo parceria com alguns artistas locais. A partir daí, outros foram acompanhando os stories de eventos sociais e começaram  a pedir. Já enviamos para quase todos os artistas de Fortaleza e, por isso, somos conhecidos também como ‘O Pratinho dos Famosos’”, explica o proprietário.

O prazer pela culinária está na veia da família de Igor. Impulsionou a criação e manutenção do negócio. A diversidade do cardápio é semelhante àquela encontrada na Esquina do Pratinho da Sandra, com algo a mais: no Pratinho Delivery, os clientes podem comprar até uma barca – semelhante às de sushi – na qual estão os insumos da maravilha cearense. 

Esta opção custa R$35 e serve até três pessoas. Os pratinhos tradicionais, por sua vez, estão disponíveis por R$11 e R$16, a depender do tamanho da embalagem. Além das alternativas salgadas, o empreendimento comercializa bolo de milho, pé de moleque e bolo de paçoquita, por exemplo. No total, cinco entregadores cruzam Fortaleza para atender os pedidos.

“Se a gente não tivesse essa ideia do delivery, teríamos passado por maus bocados. O Pratinho Delivery veio como uma bênção em meio à pandemia. Podemos trabalhar de casa, mantendo todos os cuidados, e, ao mesmo tempo, atingir uma demanda que só cresce”, celebra Igor. O funcionamento é de terça a sábado, das 18h às 23h; às quintas, sextas e sábados, também é servido almoço, das 11h às 14h.

Quem também faz a festa quando o assunto é pratinho é Valesca Fialho. Literalmente. Há quase uma década, a empresária cearense trabalha no ramo de serviço por encomenda, preparando os insumos do pratinho em grandes quantidades para eventos. Os clientes recebem as comidas prontas e montam, eles mesmos, o pratinho.

Carne do sol acebolada, vatapá (frango ou camarão), creme de galinha, paçoca, arroz e baião de dois são o carro-chefe. “Tem pessoas que pedem e vão retirar no local; às vezes, eu faço a entrega. Alguns também encomendam o serviço completo (com bebida, garçons etc.). Depende da necessidade de cada cliente”, calcula. 

Para uma festa com 50 pessoas servindo pratinho, por exemplo, cada um paga de R$15 a R$20 – sem incluir o restante do serviço. Apenas em junho, a renda de Valesca gira em torno de R$6 mil. “Este mês está bem cheio. Há dias com dois, três eventos. Depois do período parado, agora estamos trabalhando bem. E, nessa época, além dos eventos juninos, há os eventos normais, que não deixaram de ocorrer. Temos que considerar tudo”.

Nas grandes casas

Comprovando a veia democrática e grande versatilidade, o pratinho ultrapassa esses espaços e chega também aos restaurantes. Localizado na Praia de Iracema, o Mar de Rosas incluiu a delícia no cardápio desde o primeiro ano de funcionamento, em 2019. Na casa, apenas nas festas juninas ele é comercializado.

São duas versões: a tradicional, chamada Pratim do Sertão, com vatapá, carne de sol, baião de dois e farofa; e o Pratim do Mar, com vatapá, piabinha frita e arroz de sururu. O valor é de R$42 (450g). “Servimos numa travessa de barro, ele já vem todo montadinho. É individual bem servido, mas acho que serve bem duas pessoas”, opina Manu do Vale, proprietária do recanto.

No período mais severo da pandemia, os pratinhos foram enviados por delivery. Neste ano, Manu adianta que a opção estará disponível em breve. Por enquanto, tudo é servido apenas de forma presencial. “O pratinho traz coisas importantes no Ceará, como o baião de dois, a farofa… A expectativa de vendas é boa. Nos anos anteriores, quando começamos a compartilhar nas redes sociais, os amantes do pratinho se movimentaram. Estou otimista!”.

E pratinho vegano? Já pensou em experimentar? No Mercado Vida Sustentável, é possível. A opção está no cardápio há cerca de um ano, e se tornou prato permanente. A aposta surge como mais uma opção de comida regional, dentre outras que já podem ser conferidas no local – a exemplo de bobó de palmito, acarajé vegano e baião do Mercado.

Legenda: Pratinho vegano do Mercado Vida Sustentável é composto de baião do Mercado, vatapá vegano e farofa do Mercado, esta à base de sementes
Foto: Divulgação

O pratinho, de forma específica, é composto de baião do Mercado, vatapá vegano e farofa do Mercado, à base de sementes. Opção única, a R$35. “Para o vegano, esse pratinho é interessante porque não há nada de origem animal nele. É um diferencial comer algo que se adequa ao seu estilo de vida sem abrir mão do sabor. Todos os itens são feitos por nós”, sublinha Cláudia Fontes, integrante da casa. Inclusão.

Mas de onde vem o pratinho?

Há poucas referências sobre qual seria a origem exata do pratinho. As memórias recentes dão conta de que era somente uma forma de servir comidas típicas no período das festas juninas. Quem nos aloca nesse universo é Izakeline Ribeiro, jornalista especializada em Gastronomia, com pesquisa sobre essa delícia.

De acordo com ela, sendo o pratinho uma comida de rua, as pessoas costumam preparar os pratos em casa e levar as panelas cheias para as barracas em praças ou festas juninas, e até mesmo para a calçada. 

“Com o passar dos anos, as barracas passaram a não se desfazer com o término das festas. E a comida, antes típica do período, se tornou presente durante todo o ano, transformando o ‘pratinho’ em algo presente no cotidiano de Fortaleza e de outras cidades do Estado”.
Izakeline Ribeiro
Jornalista especializada em Gastronomia, com pesquisa sobre pratinho

Também não é possível datar ainda o instante em que ele ganhou o lugar de comida afetiva e deixou de ser preparado somente no período de festas juninas. No entanto, vale registrar que o quitute ganhou ainda mais espaço e reconhecimento com o advento de perfis que ressaltam a cultura cearense nas redes sociais. 

Antes visto apenas como parte de hábitos populares, o pratinho agora ganha destaque também nos meios de comunicação e na internet, especialmente nessa época de São João. “O pratinho é uma comida de rua comum em Fortaleza, servido em cumbucas de plástico com pratos típicos da culinária do sertão. A composição pode variar com arroz ou baião de dois, paçoca ou farofa, creme de galinha ou vatapá, alguma salada – como salpicão ou repolho refogado –  com os possíveis extras: carne de sol desfiada, calabresa acebolada, entre outros pratos típicos do sertão, como galinha caipira e carneiro guisado”.

Na Capital, as praças que reúnem outras opções de comidas acabaram ficando conhecidas como points do pratinho. A da Cidade 2000; Conjunto Polar, no bairro Vila Velha; praça da MRV, na Maraponga; e a praça Argentina Castelo Branco, no bairro de Fátima, são algumas das mais famosas. Além disso, neste período junino, confeitarias, padarias e restaurantes também produzem os próprios pratinhos, além de já estarem disponíveis também em aplicativos de entrega.

“O fato de Fortaleza ser uma metrópole onde as tradições do sertão, da serra e do litoral podem ser encontradas em abundância nos menus de restaurantes, nas feiras e mercados e até mesmo nos supermercados, pode dificultar a identificação de elementos dos hábitos alimentares próprios. Há possibilidade de que o pratinho seja capaz de representar esse diferencial, por caracterizar exatamente esse hábito alimentar de combinar comidas do sertão, da serra e do litoral. Ele só tem diminutivo no nome. Na verdade, sempre cabe nele muito mais do que a gente espera”, conclui a pesquisadora.


Serviço
Venda de pratinhos em Fortaleza

Esquina do Pratinho da Sandra
Rua Via Férrea, esquina com Rua Fiscal Vieira, São João do Tauape. Preços: R$10 e R$12. De segunda a sábado, das 20h à meia noite. Contato: (85) 98778-9365. Perfil nas redes sociais: @_pratinho.da.sandra_

Pratinho Delivery
De terça a sábado, das 18h às 23h. Almoço de quinta a sábado, das 11h às 14h. Preços dos pratinhos: R$11 e R$16. Barca com pratinho: R$35. Contato: (85)99129-5487. Perfil nas redes sociais: @pratinhodelivery_

Serviços de buffet, por Valesca Fialho
Por encomenda, incluindo produção de comidas para pratinho. Contato: (85) 98639-3520. Perfil nas redes sociais: @valescafialho

Mar de Rosas
R. dos Tabajaras, 542 - Praia de Iracema. Opções: Pratim do Sertão e Pratim do Mar, cada um a R$42 (450g). Contato: (85) 98606-3389. Perfil nas redes sociais: @nomarderosas

Mercado Vida Saudável
Avenida Padre Antônio Tomás, 292, Aldeota. Pratinho vegano a R$35 (opção única). Contato: (85) 98160-0292. Mais informações pelo site ou pelo perfil nas redes sociais