Polêmica com Felipe Neto questiona se Machado de Assis é para adolescentes

Youtuber Felipe Neto mobilizou as redes sociais no último fim de semana ao afirmar que “forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura”; profissionais cearenses do livro discutem a questão

Legenda: No Twitter, Machado de Assis foi citado pelo youtuber Felipe Neto, que comentou a maneira como a maioria das escolas aplica a literatura clássica brasileira como matéria
Foto: Divulgação

No último fim de semana, o cânone da literatura brasileira esteve no centro de acalorados debates e comentários nas redes sociais. A mobilização surgiu a partir de uma publicação feita no Twitter, no sábado (23), pelo youtuber Felipe Neto

Na postagem, ele afirmou: “Forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco”.

Na sequência, também comentou: “O fato de VOCÊ ser, ou ter sido, um adolescente fora da curva que ama romantismo e realismo brasileiro não significa nada perto do mar de jovens odiando livros por aí. E um dos motivos é justamente a forma como a maioria das escolas aplica a literatura como matéria”.

Não demorou para que a polêmica declaração gerasse um intenso burburinho, erguendo o muro entre os “prós” e os “contras” – até o fechamento desta edição, a publicação conta com 47,9 mil curtidas e 8 mil comentários. Escritores como Sérgio Rodrigues e Samir Machado de Machado, por exemplo, endossaram a opinião de Felipe Neto. 

Sérgio Rodrigues afirmou que há anos diz algo parecido. “Machado (de Assis) e, principalmente, (José de) Alencar impostos goela abaixo antes da hora pela escola ajudam, há décadas, a formar esses milhões de não leitores furiosos que temos no Brasil. É fácil bater no Felipe Neto. Debater um problema real seria mais produtivo”, destacou o autor, vencedor do 12° Grande Prémio Portugal Telecom de Literatura pelo livro “O drible” (2013).

Por sua vez, Tati Nefertari – coordenadora da Biblioteca Comunitária Assata Shakur, localizada em São Paulo, espaço para compartilhamento de múltiplas narrativas africanas na literatura – argumentou: “Machado de Assis é um dos maiores escritores do Brasil, é fundamental pra gente entender a literatura brasileira e também a literatura negra aqui produzida. Dizer que ele não é para adolescentes é um ERRO enorme. Há várias maneiras de se trabalhar um autor fundamental como ele”. Para ilustrar o argumento, junto ao texto ela postou fotos de algumas adaptações em histórias em quadrinhos das obras do Bruxo do Cosme Velho.

Mas, afinal, livros de Machado de Assis e outros escritores clássicos brasileiros são ou não são para adolescentes? O Verso conversou com cearenses a fim de endossar o debate.

“Dar a ler”

Natural de Quixeramobim, o escritor Bruno Paulino situa que, para início de conversa, é importante salientar que nunca se pode desconfiar ou duvidar do poder de uma obra clássica. “O clássico é um clássico justamente porque é um livro que nunca deixa de dizer o que tem a dizer. Assim, é inegável que Machado de Assis e outros autores canônicos brasileiros têm muito a nos comunicar ainda hoje”, considera.

Também atuando como professor de Ensino Médio na E.E.M.T.I. Coronel Humberto Bezerra, na cidade natal, Bruno comenta a forma como encara a leitura entre jovens, e especificamente na sala de aula. Segundo ele, reverbera em seu ofício a ideia do pensador francês Daniel Pennac, autor do livro “Como um romance”. 

“Nessa obra, Daniel Pennac chega a uma conclusão muito interessante. Ele levanta os 10 direitos inalienáveis do leitor e diz que o primeiro deles é o direito de não ler, não gostar ou rejeitar um livro. Na verdade, ele diz que não existe receita para se formar um leitor. A única receita para fazer isso e tornar a leitura prazerosa é: dar a ler”, destaca.

Desta feita, a atuação do profissional é pautada em conceder aos estudantes a oportunidade de conhecer leituras das mais variadas, do clássico ao contemporâneo. Assim agindo, Bruno cumpre aquilo que considera como a missão mais relevante do professor de Língua Portuguesa e Literatura hoje: deixar que, a partir das obras apresentadas, os leitores em formação se encontrem. 

“Até porque acredito que o livro e o leitor vão se encontrar em determinado momento. O tema da obra vai chamar a atenção, ou às vezes a capa, uma frase, o enredo… Reiterando: não há receita, exceto dar a ler”, pontua.

Legenda: O escritor, poeta e professor Bruno Paulino compartilha da ideia do pensador francês Daniel Pennac: "A única receita para se formar um leitor é dar a ler"
Foto: Tarcísio Filho

Experiências de leitura

O romance “Dom Casmurro”, um dos mais aclamados da vasta obra de Machado de Assis, já protagonizou vários bons momentos durante as aulas de Bruno Paulino. Algumas características do livro – a exemplo de capítulos curtos, diálogo do narrador com o leitor e o tema da primeira parte, focado no romance entre Capitu e Bentinho – são, na visão do professor, propícias para convocar a atenção dos jovens leitores.

“A trama, esse mistério se Capitu traiu ou não Bentinho, acaba envolvendo a turma. Aí você pode trabalhar isso a partir de debates, que é geralmente o que eu faço, em grupos. Esse ponto do romance não chega a ser a questão mais importante do livro, mas é uma estratégia para que os estudantes leiam”, sugere.

Na visão do profissional, Felipe Neto fez questionamentos que há muito são trabalhados nas instituições de ensino: como formar leitores no seio escolar? É preciso levar os clássicos para as aulas ou trabalhar apenas com best-sellers já ajuda nesse longo e desafiador caminho?

“Geralmente, os alunos já têm acesso a best-sellers fora da escola, então é dever da instituição levar a eles aquilo que provavelmente não terão acesso, instigando outro tipo de leitura”, aponta. “Outra reflexão que o Felipe Neto levanta é sobre a relação entre o prazer e a leitura. Nesse sentido, é bem importante lembrar que todo prazer exige certo sacrifício, sofrimento, uma pequena dose de dor para que, de fato, seja um prazer virtuoso, gozoso”.

 
Assim, para o professor, a leitura é essa atividade prazerosa que exige sacrifício, sobretudo se tratando de um clássico, tendo em vista fatores como linguagem, temáticas e estrutura narrativa. “Ler um clássico é prazeroso justamente porque exige trabalho e, muitas vezes, certa dor. Daí vem o prazer de conseguir lê-lo: para perceber suas sutilezas, nuances, sua essência e reflexões”.

Um hábito se constrói aos poucos

Mediadora de leitura na Biblioteca Comunitária Sorriso da Criança, localizada no bairro Presidente Kennedy, Janaína Gomes amplia a discussão ao sublinhar que os clássicos literários são voltados para públicos de qualquer idade. 

Nesse sentido, dois pontos são relevantes a se considerar: o esforço gradual para que esse tipo de obra seja incluso no panorama de leituras do indivíduo, fazendo-o ampliar vocabulário, criticidade e empoderamento; e o respeito para aqueles que não se sentem atraídos por esse tipo de conteúdo.

“A formação leitora é muito importante tanto para a criança, nos primeiros anos de vida, quanto na adolescência. E o hábito de leitura vai se construindo aos poucos. Você não vai forçar um estudante da sexta ou da sétima série a ler Machado de Assis. É preciso primeiro cativar a criança ou jovem pelo que eles gostam de ler. Quando vão pegando gosto pelos autores que mais apreciam, naturalmente aperfeiçoam o olhar”, dimensiona.

Para ilustrar a questão, ela cita um clube de leitura que mantinha com alguns jovens. Nos primeiros encontros, levando em conta que os adolescentes escolhiam as obras que deveriam ser lidas por todos, os títulos selecionados eram mais alinhados aos gostos naturais de qualquer leitor de pouca idade. Na terceira reunião do clube, porém, os próprios jovens optaram por uma obra de Machado de Assis para ler.

Legenda: Janaína Gomes é mediadora na Biblioteca Comunitária Sorriso da Criança, no bairro Presidente Kennedy: "Quando jovens e crianças vão pegando gosto pelos autores que mais apreciam, naturalmente aperfeiçoam o olhar"
Foto: JL Rosa

“Fiquei super feliz por eles terem tido a autonomia de escolher, fazendo com que trabalhássemos o livro durante um bom tempo”, festeja. “Vejo que, nesse sentido, o papel do profissional de educação é muito importante. Já cheguei a ver reportagens em que os professores trabalhavam autores clássicos no nono ano e os alunos amavam. Isso se deve muito à didática do formador, priorizando a organização de um planejamento para trabalhar aquele livro de uma forma leve e que você possa dialogar aos poucos com o estudante”.

E completa: “Assim, não podemos dizer que os adolescentes não podem ter contato com as obras de Machado de Assis. Na verdade, a gente tem que mostrar os lados possíveis para ele se aperfeiçoar e conhecer”.

Início nos gibis

Tanto Bruno Paulino quanto Janaína Gomes também situam a relevância das histórias em quadrinhos no processo de despertar para a leitura. Assim como a maioria das pessoas, ambos deram os primeiros passos nas letras ao entrar em contato com gibis da Turma da Mônica, no caso de Janaína, e do personagem Tex Willer, cowboy do faroeste italiano, no caso de Bruno.

“Minha mãe não tinha muita condição financeira, mas passava uns homens na porta de casa vendendo livros. Lembro que tinha um que vinha até com uma caixinha de música e a minha irmã, sempre que podia, comprava gibis para mim. Foi o meu primeiro acesso à leitura. Depois, comecei a trabalhar em bibliotecas, o que ampliou muito a minha visão. Até hoje, porém, me deparo lendo livros infantis”, confessa Janaína.

Ao que Bruno emenda: “Minha formação como leitor se deu por meio dos quadrinhos, mas, já aos 15 anos, me impus o desafio de ler ‘Os Sertões’, de Euclides da Cunha, porque é uma história que tem relevância cultural na minha cidade, haja vista a presença de Antônio Conselheiro na obra. E é um livro que eu nunca terminei de ler, porque, na verdade, um clássico é assim, a gente nunca termina de lê-lo porque também ele nunca termina de nos dizer algo”.

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