Mulheres conferem novo olhar sobre cidades em livro digital

Mais recente lançamento da Aliás Editora, disponível gratuitamente para download, “As Cidades e As Memórias” reúne criações de 18 artistas cearenses e de várias partes do Brasil

Legenda: Textos, fotografias e uma ilustração dimensionam a perspectiva das artistas sobre seus lugares de afeto
Foto: Joyce Sousa

Nestes (infindáveis) dias de reclusão e espera, lembrar de Crateús tem dado novo fôlego a Liziane Menezes. Tem lhe trazido paz. Apesar de não estar lá neste momento, é para esse município, a 351 quilômetros de Fortaleza, que a professora – mestre em literatura pela Universidade Federal do Ceará e autodescrita como “a garota das cidades” – retorna com a mente, de mãos dadas a um sem número de vivências e recordações.

“É minha cidade natal, um lugar de início, como se eu recorresse a ele porque lá encontro um amor que me acolhe, o da minha família”, confessa. Essa percepção, embora sempre guardada no íntimo, agora extrapola para as páginas da mais recente publicação da Aliás Editora, casa cearense cujo foco é viabilizar criações de mulheres (cis e trans) nas conexões produtivas do livro e da literatura.

A saudade de Crateús por parte de Liziane Menezes ganha as páginas da obra
Foto: Liziane Menezes

Em “As Cidades e As Memórias”, disponível gratuitamente para download no site da editora, o público tem oportunidade de imergir nas percepções de 18 artistas sobre os lugares que carregam parte de suas histórias, ou até mesmo trajetórias inteiras. Gestado integralmente durante o período de isolamento social, o livro digital faz parte de um projeto maior, denominado “As Cidades Visíveis”, previsto para ter cinco volumes.

Conforme o próprio título sugere, este segundo número da coleção – o primeiro foi “As Cidades e Os Desejos” – contempla essencialmente os vestígios memorialísticos das integrantes da coletânea, cearenses e de outras partes do Brasil. Todas foram selecionadas por uma cuidadosa curadoria, composta pela atriz Jéssica Teixeira, a produtora cultural Taís Bichara, a articuladora social Ritinha, a professora Tuyra Maria, a escritora Priscila Reinaldo, a leitora Renata Rocha e a escritora Kah Dantas.

Liziane Menezes, do início desta matéria, colabora com a obra por meio de uma fotografia do lugar em que nasceu, diferentemente da opção que fez para o livro de estreia do projeto. Naquele, criou um texto contemplando Fortaleza a partir de uma imagética um tanto melancólica dos lugares alencarinos. “Desta vez, resolvi mandar uma foto da minha cidade natal, infelizmente da última vez que viajei pra lá antes da pandemia”, diz.

Legenda: A professora Liziane Menezes acredita que definir uma cidade é algo vasto, o que fortalece o caráter da publicação
Foto: Divulgação

Apesar de não se considerar profissional no ofício da fotografia, ela acredita que essa arte capta um recorte de vida oportuno para que haja o desbravamento de possibilidades. Quanto à temática que atravessa a publicação, Liziane é enfática:

“Definir uma cidade é algo vasto, por isso é importante essa produção da Aliás. Ela traz essas múltiplas significações. Para mim, cidade é povo e solidão. Sinto-me parte desse lugar quando sei que as pessoas que mais amo fazem parte dela. É de amor que a cidade é feita”.

No entanto, pondera que há também um outro lado abrangendo a urbe, uma espécie de solidão contemplativa que emerge quando está nos momentos mais íntimos consigo e apura melhor os sentidos para observar ao redor. “Percebo que a cidade, ao mesmo tempo que ocupada, também consegue ser só”.

Minúcias

Publisher da Aliás Editora, Anna K Lima explica que a proposta para a série de obras nasceu a partir de uma inquietação das integrantes do coletivo quanto ao livro “As Cidades Invisíveis”, do escritor Italo Calvino (1923-1985). “Temos um carinho enorme por essa obra e a Jéssica Gabrielle Lima, uma das componentes da equipe, se deu conta de que o protagonista chega às cidades e elas têm nome de mulher, mas o protagonista não é mulher. E nós ficamos nos perguntando em que momentos da literatura essas mulheres aparecem”, situa.

Segundo ela, “As Cidades e As Memórias” chega exatamente para abranger essa perspectiva, mergulhando em vários gêneros literários e linguagens artísticas de modo a fazer com que escritoras e artistas mulheres se debrucem sobre seus afetos e realidades, seja no miolo ou nas bordas dos conglomerados urbanos. Mediante o revirar de páginas, cada minúcia dessa fica bastante clara. Composto de poesias, contos e crônicas, o livro é convite à imersão.

Legenda: A artista Suzane Dias traduz o interesse por ruínas, casas e narrativas neste impactante registro
Foto: Suzane Dias

Uma ilustração e fotografias, feito a de Liziane Menezes, também integram o material. Graduada em Letras-Português pela Universidade Estadual do Ceará e em Arquitetura e Urbanismo pela Estácio, Suzane Dias, por exemplo, compatibiliza o interesse por ruínas, casas, arte urbana e processos criativos de narrativas numa imagem que impacta e toca. Que cidade habita naquele lar-escombro de seu registro?

Por sua vez, na criação imagética da paraibana Rayan Ferreira, residente no sertão central do Ceará, há um jogo entre fotografia e poesia. Nos fios e na estrutura de um poste, sentenças desfilam de modo a afirmar, de um jeito único, que “apesar de nós, nosso amor não resolve nada”.

“Quando falamos em cidades, mais e mais debates são necessários porque a gente não fala sobre Fortaleza, por exemplo, e sim sobre ‘as’ Fortalezas. Enfim chegamos ao lugar de conversa do mundo em que nos damos conta dessa diversidade imensa de todas as coisas”, salienta Anna K.

Tratando-se de um recorte local, a editora acredita que foi bastante importante um evento como a Bienal Internacional do Livro do Ceará, no ano passado, ter também se apropriado da temática urbana como forma de relacioná-la com uma pluralidade de fazeres e existências.

“Foi relevante, muito pelo contexto de ter assumido, embora com todos os seus percalços, um núcleo de literaturas e periferias. Para mim, alguns dos mais arrebatadores momentos do evento aconteceram naquele espaço. Cada vez mais, a gente precisa conversar sobre de que lugares nós falamos”.

E as mulheres de “As Cidades e As Memórias” falam de vários. Do interior de Estados, da saudade de uma estação de trem, de uma rua ou de uma cidade que pode até mesmo ser imaginada, compondo uma memória construída.

“Precisamos falar sobre isso porque, enquanto comunidade, se continuarmos entendendo que há apenas dicotomias, o A ou o B, o feio ou bonito, não vamos conseguir sair desse perímetro, ultrapassando os limites dos territórios”, reforça Anna K, acrescentando que os próximos títulos da série devem sair a cada um ou dois anos e que há a possibilidade da versão física dos títulos.

Cotidianos

O senso de multiplicidade tão mencionado por Anna acompanha a professora e pesquisadora baiana Bruna Portella. Na crônica escrita para a obra – embora haja dificuldade por parte da autora de classificar de maneira inequívoca a qual gênero o texto pertence – ela contempla três cidades. Isso porque se baseou em memórias pessoais da infância, adolescência e vida adulta para tecer as linhas. 

“A minha família é do interior da Bahia, da caatinga, mas meus pais viveram em Salvador por um tempo e de lá migraram pro interior, mas um interior litorâneo. A Bahia é enorme e nos acostumamos a pensar apenas a partir de Salvador, que tem uma cultura muito próxima do Recôncavo, mas há uma infinidade de particularidades nos seus interiores”, detalha. 

Legenda: A fotografia-poema de Rayan Ferreira, paraibana residindo no sertão central cearense, evoca múltiplas inquietações a partir de um recorte íntimo e urbano
Foto: Rayan Ferreira

Exceto no que se refere ao âmbito acadêmico, Bruna não escreve pensando na leitura posterior. Contudo, acredita que há uma possível reflexão surgida a partir do texto de sua autoria sobre a delicadeza dos símbolos não-ditos, algo que o período de quarentena tem mostrado bem.

“As pessoas andam emocionadas quando vislumbram a imagem de uma mesa de plástico amarelo berrante porque isso evoca o encontro, a amizade. A ausência dessa personagem tão presente, que é a cidade, fez a gente se atentar aos seus detalhes e, sobretudo, sentir uma saudade danada. Escrever e ler sobre é um jeito de lidar com esse sentimento, revisitar memórias”, sublinha.

Legenda: O texto da professora e pesquisadora baiana Bruna Portella emerge uma reflexão sobre como as pessoas andam emocionadas quando vislumbram a imagem de uma mesa de plástico amarelo berrante, tendo em vista ser esse espaço-objeto símbolo de encontro, amizade.
Foto: Divulgação

Atualmente morando no Rio de Janeiro, após residir em Berlim, por exemplo, Bruna se deu conta recentemente de que todo o mundo não passa de uma cidade pequena, o que a faz acreditar que a urbe significa encontro com o outro. Não à toa, o desejo para que, quem for ler o livro, abrace a mesma sensação.

“Me surpreendi com os outros textos e fotos selecionados. A mistura de linguagens é uma delícia, o projeto gráfico consegue apresentar isso de forma muito instigante. A obra é uma oportunidade de conhecer o que essas mulheres espalhadas pelo Brasil estão pensando e sentindo”, conclui.

As Cidades e As Memórias
Várias autoras

Aliás Editora
2020, 96 páginas
Disponível gratuitamente no site da Aliás Editora

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