Médico Sulivan Mota é homenageado com o Troféu Sereia de Ouro

O cientista Fernando de Mendonça, a desembargadora Iracema do Vale e o artista Espedito Seleiro também recebem a comenda do Sistema Verdes Mares, na sexta-feira (27), no Theatro José de Alencar

Escrito por Redação ,
Legenda: Com olhar atento para as crianças, o médico Sulivan Mota transmite aos pacientes a esperança de um futuro melhor
Foto: FOTO: THIAGO GADELHA

Sulivan Mota devia ter dez anos quando andava com uma maletinha cheia de curativos e injeções para aplicar em quem precisasse. Desde pequeno, ele era visto como a pessoa que cuidava da saúde da família, e não fazia isso por sugestão direta de ninguém. A mãe, Laura Bastos Mota, dedicava-se ao lar e aos seis filhos; o pai, Valdetário Pinheiro Mota, atuava como Juiz de Direito. Era inegável, porém, a inclinação do patriarca para a medicina, atividade que só não exerceu pela ausência de um curso no Ceará na época de sua formação.

"Isso pode ter me levado. Não me lembro. Mas meu pai não direcionou nem a mim nem aos outros filhos a nenhuma profissão", lembra o presidente do Instituto da Primeira Infância (Iprede), às vésperas de completar 70 anos.

O futuro médico cresceria entre cidades. A vida itinerante o levaria de Uruburetama para Lavras da Mangabeira aos três anos, e de lá para Juazeiro do Norte, aos sete. Desse município, aliás, ele recorda como se fosse sua terra natal. Mas nem por isso a gratidão pelos outros lugares é menor. "Como eu estudo neurociência, sei que a memória existe desde a parte fetal. Eu devo ter recebido muita coisa boa lá em Uruburetama. E de Lavras eu tenho imagem nítida dos meus colegas da primeiríssima infância, meus vizinhos", diz.

Dos amigos dessa fase no Cariri, não menos do que meia dúzia seguiu a carreira médica. A coincidência profissional, porém, nunca foi motivo de conversas do grupo. No caso de Sulivan, a mudança para Fortaleza, aos 11 anos de idade, tornou-se decisiva para essa trajetória. Com um ritmo intenso de estudos, incentivado pelos pais, começou a trilhar seu percurso quase instintivamente.

Na própria escola, eu já falava. Eu só me lembro de dizer que ia ser médico. Por influência do meu pai, a gente sempre tinha um olhar para o outro. Sempre, sempre. Meu pai era uma autoridade, mas era de uma humildade impressionante. Pra mim, ele foi uma grande lição. E hoje eu o vejo transcender nos meus irmãos", analisa o médico.

Da mãe, Sulivan destaca a bondade. O olhar de cuidado e zelo de dona Laura é uma das coisas que descreve com saudosismo: "Todos nós tínhamos muito amor, mas a expressão maior era por meio dela".

A reunião desses sentimentos ajudou a definir a personalidade e a atuação profissional do médico da família. O primeiro lampejo para trabalhar com um público mais novo veio ainda na adolescência, quando visitava sistemas prisionais com o pai. Nessas ocasiões, auxiliava os jovens em conflito com a lei nos processos de ressocialização.

Ao chegar à faculdade, tinha toda uma bagagem de atuação social no currículo, e os projetos de extensão do curso lhe permitiram desenvolver-se ainda mais sob essa perspectiva.

Legenda: O médico Sulivan Mota tem trajetória dedicada à infância
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Escolhas

Antes de decidir pela pediatria, Sulivan dedicou-se à área de doenças infecciosas com pacientes adultos. Essa inclinação, no entanto, durou pouco tempo. Em diálogo com outro projeto da universidade, aproximou-se naturalmente das crianças. "Mas quando as pessoas diziam que eu ia ser pediatra - incluindo minha esposa, a psicóloga Sonia Maria Cantídio Mota, namorada na época, e o meu amigo Henry Campos, ex-reitor da UFC - eu ficava chateado, não gostava. Mas não deu outra. Terminei pediatra", reflete, atualmente grato por essa escolha.

Hoje, eu tenho um agradecimento intenso a Deus de ter me dado essa oportunidade de ver o ser bem no início da formação do capital humano, dos vínculos, ou seja, na formação de uma outra sociedade. Eu digo sempre: quem trabalha com criança, vive a esperança. Eu vivo numa esperança imensa", referencia-se numa postura otimista de si.

"É muito difícil eu ser pessimista. Mesmo quando eu tenho alguma intenção e as coisas acontecem contrárias, eu refaço meu pensamento, invisto toda a esperança naquela situação nova. Acho que isso tem contribuído para o sucesso daquilo que eu tenho feito", avalia.

Legenda: Desde o período como estudante na Universidade Federal do Ceará, Sulivan Mota tinha inclinação para a pediatria
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Realizações

E não foram poucas as conquistas de Sulivan. Uma das primeiras contribuições que deu após os sete anos que passou longe do Ceará, especializando-se no Rio de Janeiro, foi a criação do Ambulatório Integrado de Pediatria. Na década de 1980, superar as dificuldades desse departamento da universidade era urgente, especialmente num tempo em que a infância não tinha o mesmo cuidado da atualidade.

"A criança era simplesmente alguém que ainda ia crescer, se desenvolver e se tornar uma pessoa de valor por ser adulto. Hoje, nós percebemos que todo capital humano está na criança. Ela é a porta do futuro e, embora ela seja chamada de hoje, é o amanhã. O investimento nela é agora para se fazer futuro", defende.

O ambulatório foi feito num prédio semiabandonado. Sulivan lembra que o lugar tinha uma relação real com a sociedade, e não metafórica. E foi neste sentido que ele e seus amigos inspiraram-se em experiências como a dos líderes de quarteirão, desenvolvida pela UFC no início do curso de Medicina.

"Naquele momento, nasceu o que chamamos hoje de Agente Comunitário de Saúde e que existe em todos os municípios do Brasil. Todos, sem exceção, quase seis mil", enumera Sulivan. "São essas realizações que para mim são o bastante", identifica. A cada degrau, porém, o profissional sempre avistava um horizonte maior. E essa tendência ampliou a escala dos novos projetos. Depois do Ambulatório Integrado, participou da fundação e da edificação da Unidade Neonatal da UFC e de sua primeira UTI neonatal. As duas iniciativas foram de fundamental importância para reduzir a mortalidade infantil no Ceará.

Legenda: Na presidência do Iprede há 13 anos, Sulivan Mota transformou o instituto no maior programa de extensão da UFC, além de um centro de pesquisa para o mundo
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"A partir daí, a gente começou a salvar crianças. Mas vimos que salvar não era suficiente. E a qualidade de vida? Nós estávamos salvando de qualquer jeito, com paralisia cerebral, identificando síndromes depois. Ficava uma criança sem inclusão, escondida. Aí foi quando nós criamos o Núcleo de Tratamento e Estimulação Precoce, o Nutep", contextualiza o médico.

O mesmo princípio de humanidade guiou-o na fundação do primeiro Banco de Leite Humano do Norte e Nordeste. "Posso lhe dizer que todas as realizações não foram feitas por eu ter mais coragem do que os outros, por ser mais ousado, por ser mais empreendedor. Eu tenho pensado muito nisso e acho que, na verdade, eu sempre respondi às necessidades", afirma com a mesma humildade herdada do pai.

Iprede

Há 13 anos, Sulivan assumiu a presidência do Instituto da Primeira Infância (Iprede), ao qual encontra-se vinculado até hoje. As visitas iniciais à instituição estão associadas à atuação dele como professor do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Aproveitava para fazer aulas práticas após a teoria ministrada aos estudantes na sala de aula.

Nesse processo, voluntariar-se foi uma ação natural, e aproximar-se da diretoria, uma consequência quase automática. Quando, finalmente, assumiu a gestão do Iprede, enfrentou grandes desafios com o Instituto, tanto no aspecto financeiro quanto no estrutural. Mas, por meio de algumas parcerias com antigos pacientes, conseguiu transpor todas as barreiras.

Aquilo que você faz pelo outro não acaba no outro. Pode ter certeza, o universo vai retornar algo pra você. No meu caso, é essa casa hoje", diz.

Com Sulivan na presidência, o Iprede deixou de ser um instituto somente focado em recuperar o peso das crianças desnutridas para investir também nas pesquisas em torno da primeira infância. Transformou-se no maior Programa de Extensão da UFC, em articulação com outras universidades do mundo. "Com esse conhecimento de neurociência, nós passamos a aplicar tecnologias sociais que trabalham os cérebros das crianças. Começamos a estudar junto à Harvard, trouxemos Quebec, e identificamos o nascedouro da violência. Mas é aquilo que eu disse, um degrau e você vê o horizonte mais longe. Essa criança vem de onde? Da miséria, todas. Sendo da miséria, não adianta você trabalhar o cérebro e a criança continuar na miséria".

Legenda: O olhar de Sulivan Mota para as crianças e as mães que buscam ajuda no Iprede é sempre atento. Ele atribui a pessoas como essas todas as conquistas de sua trajetória
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Em parceria com a Dinamarca, o Instituto desenvolveu assim uma tecnologia para formar vínculos, e é ela que confere ao Iprede atualmente um status internacional. Isso porque, junto à criança, a organização passou também a atender a mãe: acolhendo-a, profissionalizando-a. Ao olhar para todas essas conquistas, Sulivan alimenta apenas uma certeza: "temos um mundo pela frente".

A visão de futuro do médico explica todas as honrarias que recebeu até hoje, a exemplo da Medalha Boticário Ferreira, do título de Cidadão Fortalezense, do Mérito Rodolpho Teóphilo pelo Governo do Estado do Ceará, e da Comenda do Mérito Médico pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

Contemplado, agora, com o Sereia de Ouro, entende a homenagem de uma só forma: "Ela não é personalizada. Ela não é Sulivan Mota. É a minha trajetória. E uma trajetória não se faz só. Então, o troféu tem que ser dividido com as pessoas que ajudaram a construí-la. Se não é para elas, é em função delas".

> SAIBA MAIS: VALOROSO CONHECIMENTO

Criado em 1971 pelo chanceler Edson Queiroz e dona Yolanda Queiroz, o Troféu Sereia de Ouro é uma das mais tradicionais comendas do Ceará. Tem como objetivo homenagear pessoas que se destacaram em diferentes setores de atuação, contribuindo para o desenvolvimento do Estado.

É concedido, anualmente, pelo Sistema Verdes Mares, integrante do Grupo Edson Queiroz, em solenidade especial, realizada no Theatro José de Alencar. A honraria já foi entregue a 192 personalidades até então, brilhantes em atividades públicas e privadas, e que seguem inspirando gerações.

Nesta 49ª edição, além do médico Sulivan Mota, serão agraciados com o Troféu Sereia de Ouro o cientista Fernando de Mendonça, a desembargadora Iracema do Vale e o artista Espedito Seleiro.

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