Jovens do bairro Jangurussu criam música com instrumentos produzidos a partir de sucata

Iniciativa faz parte de uma das ações da sétima edição do Festival Concreto, levando arte e possibilidades para o público participante

Legenda: Todas as quartas e sextas-feiras, quando o sol se despede no céu, crianças e jovens do Jangurussu se reúnem para mergulhar na música
Foto: Natinho Rodrigues

Cicero Mario, o Cicinho, é filho do bairro Jangurussu, em Fortaleza. Foi nesse chão que ele cresceu e desenvolveu o gosto pela arte a partir de um estreito contato com a música. Hoje, aos 30 anos, é baixista e percussionista da banda Parahyba e Cia. Bate Palmas, agremiação surgida na comunidade em que reside, e também trabalha com criação de grupos percussivos – tanto da cena alternativa quanto da convencional – no interior do Ceará.

Tanta bagagem e disposição para disseminar o gosto pelo som fez o músico aceitar um convite singular vindo da equipe da sétima edição do Festival Internacional de Arte Urbana - Festival Concreto: estar à frente da formação de uma banda capaz de criar música com instrumentos produzidos a partir de sucata. 

“É um projeto de percussão que incentiva a reciclagem, transformando ferros velhos em instrumentos musicais”, detalha Cicinho a respeito do grupo “Arte no Bloco”.

“Esse nome, inclusive, foi dado por tudo acontecer em um residencial dividido por blocos. O trabalho é executado usando a percussão com instrumentos alternativos, envolvendo jovens do Residencial José Euclides, na região do Jangurussu”.

Num total de 15 pessoas, eles se reúnem todas as quartas e sextas-feiras, em frente ao Centro Tecnológico do bairro, quando o sol já se despede no firmamento, para se encontrar, trocar ideias e ensaiar. Estão se preparando há pouco mais de um mês para a apresentação que vai acontecer na semana em que se realizará o Festival Concreto, entre os dias 20 e 28 de novembro.

Apesar de ainda não terem uma decisão fechada quanto ao repertório que será tocado, Cicinho adianta que a turma vem demonstrando muita dedicação para mergulhar na arte. A euforia toma conta das reuniões. “Em cada ensaio, eles trazem a vontade e a alegria de estar aprendendo algo novo. O objetivo, assim, é expandir o projeto para que possa atender a mais crianças e jovens”, situa.

Legenda: O olhar atento não nega: em cada ensaio, é testemunhada, nos participantes, a vontade de aprender
Foto: Natinho Rodrigues

Movimento

Artista visual e curador do Concreto, Narcélio Grud explica que a empreitada nasceu a partir dos encontros da equipe do Festival junto à turma do Suricate Seboso, projeto humorístico com notoriedade nacional.

“Surgiu a ideia da criação da Zona Franca de Arte e Cultura Urbana no Jangurussu, onde iniciamos a pintura de alguns murais no residencial José Euclides para irmos nos aproximando e abrir o diálogo com a comunidade. No decorrer da feitura dos murais nessa pré-produção do Festival e de início de implantação da Zona Franca, muitas crianças se aproximaram da gente e percebemos o interesse delas no que estávamos fazendo, abrindo para pensarmos atividades que pudessem atender diretamente a elas”, explica.

Narcélio conta que, em edições passadas do evento, algumas atividades já foram realizadas com crianças, ligadas à pintura. Contudo, no posto de artista, ele desenvolve, há alguns anos, uma pesquisa na construção de esculturas e estruturas sonoras. Por um período, a sucata foi um objeto de estudo. 

“Assim, desenvolvi uma série de esculturas e instrumentos de sucata que foram expostos e depois ficaram guardados no meu acervo. Daí nasceu a proposta de resgatar esses instrumentos e levar até essas crianças para que pudéssemos desenvolver um grupo percussivo. Buscamos um músico na comunidade e encontramos o Cicinho, que topou entrar conosco nessa empreitada”, completa.

Legenda: A proposta inicial é apresentar às crianças e jovens ritmos diversos da nossa cultura, além de outros, dos modernos aos ancestrais
Foto: Natinho Rodrigues

Os instrumentos já chegaram prontos. Num primeiro instante, os objetos passaram apenas a ser estudados, no que toca à maneira como foram construídos; depois, vem a etapa de iniciar a confecção deles pelo grupo. “A proposta inicial é apresentar às crianças e jovens ritmos diversos da nossa cultura, além de outros, dos modernos aos ancestrais, começando de coisas básicas para irmos evoluindo, tanto no desempenho musical como na inclusão de outros instrumentos, não apenas percussivos”.

Expansão

Narcélio comenta que ainda é cedo para falar em frutos. Há que se plantar, regar e adubar as sementes para que sejam fortes o suficiente para gerar bons caminhos. Porém, o Festival Concreto pretende realizar uma série de ações no intuito de construir molas propulsoras para que a própria comunidade do Jangurussu se desenvolva, se integre e dê continuidade ao que a ela interessar.

“Estamos buscando abrir um leque de vivências e experiências que possibilitem esse desenvolver individual e coletivo das pessoas. Esse é o plantio”, sintetiza o curador.

“Na periferia, o condensamento de pessoas juntas é maior e podemos sentir que, na desassistência existente no lugar, a vontade de vencer e a alegria de viver das pessoas são incríveis. Não existe carência e, sim, muito afeto. E é nessa liga que tudo faz sentido”.

Quanto a esta edição do Festival Concreto, em meio à pandemia de Covid-19, o artista diz que a proposta é “se humanizar mais”. Dentre as iniciativas, estão uma midiateca móvel, seminário virtual e lançamento do segundo livro do evento.

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