Durante o regime militar, o filme "Iracema, uma transa amazônica" foi censurado e, dessa forma, o público no País ficou 6 anos sem ter acesso à obra, uma crítica forte à exploração da terra e dos nativos da Amazônia. Dirigido por Jorge Bodansky e Orlando Senna, o longa-metragem foi finalizado em 1974, mas até 1980, enquanto esteve proibido no Brasil, foi exibido poucas vezes, somente pelo circuito de cinema autoral, e ganhou prêmios em festivais mundo afora.
Liberado para exibição no Festival de Cinema de Brasília em 80, o longa ganhou o prêmio de melhor filme e virou referência no debate sobre a questão ambiental. Agora, a última edição da Mostra Fabulações no Real, da Escola Porto Iracema das Artes, promove uma exibição de "Iracema", seguida de bate papo sobre a obra, com a dupla de diretores e o renomado documentarista João Moreira Salles. A programação online acontece às 18h desta terça (8), pelo Facebook e You Tube do Porto Iracema; e terá ainda a mediação do crítico de cinema Carlos Alberto Mattos, além da participação da curadora da mostra, a pesquisadora Kamilla Medeiros.
Segundo Kamilla, "Iracema, uma transa amazônica" foi escolhido para encerrar a mostra por sua relevância histórica. A curadora observa também como o longa atualizou questões de linguagem cinematográfica, sendo uma ficção que se baseia bastante na realidade. Para ela, o filme é um olhar sobre "tudo que está à margem, literalmente (da construção da rodovia Transamazônica), as pessoas e a natureza que estão ali postas no jogo político. Como a mostra começou em setembro com um filme recente (Partida, Caco Ciocler, 2019), nossa intenção foi fazer uma volta no tempo, e desaguar nessa obra de 74", detalha.
A curadora identifica que, com as restrições de circulação da pandemia, o cenário audiovisual - a exemplo de diversas áreas - esteve repleto da realização de "lives". Dessa forma, ela pensou na Mostra Fabulações no Real para levar ao público discussões que há tempos já são comuns na crítica e no meio acadêmico. "Queríamos falar dessas fronteiras entre documentário e ficção. Trazer essa conversa para mais pessoas. E (no caso do encerramento), não é todo dia que você junta Bodansky, Orlando e João Moreira para debater sobre um filme tão importante pra filmografia brasileira", sinaliza.
Filme
Na tela, o espectador se depara com uma realidade incômoda e complexa para as comunidades da Amazônia e o meio ambiente onde estão inseridas. O diretor Orlando Senna descreve o movimento do personagem "Tião Brasil Grande" (Paulo César Pereio), um explorador ilegal de madeiras "nobres" e um dos eixos de desenvolvimento da trama.
"O personagem é um predador em várias extensões dessa palavra, tanto ambientais como humanas. Ele transporta meninas prostituídas de Belém para os confins da floresta e as deixa lá, entregues à própria sorte", descreve o diretor. Mais que um personagem, ele explica, Tião seria uma metáfora do regime sob o qual o Brasil vivia. Os indícios estão em sei sobrenome, "Brasil Grande", e na mensagem do parachoque "Ame-o ou Deixe-o", dois slogans da propaganda oficial da época.