Débora Falabella vive mulher em meio a crises de ansiedade em "Depois a Louca Sou Eu"

Débora Falabella traz para o cinema a história de Dani, uma mulher em busca de lidar com suas próprias sombras e acende a discussão sobre saúde mental. Em entrevista, a atriz comenta sua visão sobre o tema

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Eu não aguento mais ser essa pessoa que eu sou. Essa é uma das frases ditas por Dani, personagem protagonista de “Depois a Louca Sou Eu”. Afinal, quem nunca se sentiu assim? No longa, que estreia hoje nos cinemas e canais de streamings, Débora Falabella dá vida à escritora que sofre com crises de pânico e ansiedade. E a identificação com a personagem é fácil de acontecer, tanto de se reconhecer nela como de perceber alguém próximo que possua as mesmas características emocionais. 

O filme é uma adaptação do livro homônimo escrito por Tati Bernardi, no qual a autora relata, inclusive de modo bem humorado, as crises pelas quais passa e já passou. 

“Sempre adorei os textos da Tati, acho que ela tem escrita despudorada em relação a ela mesma e ao outro e isso me interessa muito. De expor suas fragilidades pro mundo, ela faz disso o trabalho dela, de se colocar no meio das histórias. Acho isso muito corajoso. E acho que pra falar desse tema da saúde mental, acho importante falar dessa forma, sem filtro e sem pudor”, diz Débora em um papo por telefone. 

Assista a um teaser do filme: 

Em meio às crises, a personagem se vê angustiada de ter que mudar de cidade para trabalhar, ficar presa em um trânsito por muito tempo, seguir em uma viagem para agradar o namorado e os amigos dele, entre várias situações do cotidiano que, para Dani, não são assim tão simples de encarar. 

Por mais que se interesse por essa forma de ver o mundo e saiba que muita gente irá se identificar com a personagem, bem como ela própria, Débora também enxerga diferenças entre sua forma de ver o mundo e a de Dani. 

“Acho que cada um tem sua maneira de lidar com suas fragilidades. Ela tem essa de se expor, e eu tenho essa de me preservar. A Dani tem uma questão da ansiedade de quando ela vai trabalhar com mudanças de rotina, ela se sente um pouco ansiosa. E eu gosto disso. Essas coisas que me deixam fora do lugar comum da profissão eu gosto muito. E a Dani acho que ela se assusta um pouco”, revela. 

Ouça entrevista com a atriz no podcast 'Diz, Mulher': 

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Pandemia

Ansiedade, depressão, crises de pânico e outras questões de saúde mental tem sido tema central de discussões por conta de todas as mudanças que a sociedade vem enfrentando durante a pandemia

Apesar de ter sido gravado ante desse período, o filme teve a estreia adiada por conta da crise sanitária e ganhou spin-offs em que a personagem falava sobre o isolamento e as tensões do momento atual. 

“Se alguém não está passando por alguma crise, não está entendo nada, tá alienado. A gente precisa ter consciência do que está acontecendo, porque o mundo está muito acelerado, a gente tá vivendo um momento tristíssimo. Então, é normal ansiedade, é normal sentir isso”, reflete. 

Na tela do cinema, porém, o retrato é da vida como era antes. Ainda assim, as dores de Dani permeiam o cotidiano de muitas mulheres, nos mais variados contextos. 

Feminino

Mesmo a ansiedade sendo uma questão comum a todos os gêneros, algumas situações e sentimentos compartilhados pela personagem são muito próprios do universo feminino. Sejam inseguranças em relacionamentos até a síndrome de impostora no mercado de trabalho. 

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“O filme mostra angústias que são extremamente femininas nesse sentido. Mas ele tem uma coisa bonita que é mostrar uma mulher que consegue avançar, que vai superando. Ela tem uma liberdade de falar sobre sexo, uma mulher que não tem problemas de se relacionar, ela é livre”, ressalta Débora sobre a personagem. 

Dirigido por Julia Rezende, o longa teve uma participação massiva de mulheres em sua concepção. E isso, para Débora, faz diferença na forma como a história é retratada.

“Tínhamos uma equipe a maioria de mulheres, todo mundo se identificava muito com o filme. O filme é desenhado a partir de um livro escrito por uma mulher, é dirigido por uma mulher. E a história da Dani passa pela relação com o namorado, as questões com a mãe, a mulher no trabalho... Isso dito sob o ponto de vista de uma mulher é muito importante”. 

Exposição

Em dado momento, Dani conquista seus anseios profissionais, inclusive publicar um livro autoral. Com isso, porém, chegam outros gatilhos de ansiedade como eventos com muitas pessoas e entrevistas para a televisão. 

Apesar do glamour envolvendo ações como essa, estar em locais assim, de muita exposição, podem ser muito desconfortáveis. Com isso, a personagem fica às voltas de ter que lidar com tudo aquilo que desejou e nem sempre se sai bem nas situações. 

Débora compartilha do desconforto da protagonista em algumas situações.

As pessoas esperam que o artista seja artista o tempo inteiro. A gente acaba tendo que criar mecanismos pra gente também ter espaço de relaxamento. Isso pra mim, particularmente, é algo muito difícil, eu aprendi a lidar com isso com o tempo. Eu em um set, com uma personagem, posso ir para lugares absurdos, não tenho problema nenhum. Mas quando tem essa outra parte, que a profissão também cobra, pra mim é uma dificuldade. Sou uma pessoa tímida. Ter que me expor não é confortável”, compartilha a atriz. 

E, mesmo essa exposição pessoal sendo uma das inevitáveis abas da profissão, Débora não se cobra.

“A gente não tem que ser o tempo inteiro sensacional, interessante, ficar sempre a vontade. Com o tempo você vai aprendendo a lidar com tudo”, diz.
 

Terapia

Nas horas em que a angústia aperta, as válvulas de escape são as mais variadas para cada pessoa. Dani, no filme, procura as mais diversas formas de terapia e também toma vários tipos de medicações. Em meio a todo esse processo, ela questiona causas e efeitos de cada tentativa de se compreender e lidar com o mundo. 

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Legenda: Débora Falabella é Dani em "Depois a Louca Sou Eu"

O acompanhamento psicológico foi algo que surgiu tardiamente na vida de Débora.

“Eu não fiz terapia na adolescência, só busquei atendimento já adulta. O trabalho, de certa forma, acaba sendo uma válvula de escape, mas a terapia é que me ajuda bastante hoje. Me entender, me investigar, para mim é muito importante. Ainda hoje tem que ache que só faz terapia quem tem problema, mas acho que todo mundo deveria se questionar”, diz. 

Envolvido pelos questionamentos particulares da personagem, o público passa a questionar também a si mesmo. E é essa a mensagem que Débora espera que seja passada com o trabalho: a de que ninguém está sozinho

“O que eu mais queria é que as pessoas se sentissem identificadas. É tão bom um trabalho, um filme, em que você sente identificação. Que você sente que não está sozinha em suas questões, nessa solidão, que acha que é diferente de todo mundo. Tem gente que sente isso por muitos anos até procurar ajuda”, reflete a atriz. 

Se ali, no começo do texto, a protagonista se angustia por ser quem é, no decorrer do longa ela passa a se compreender e se acolher em suas características. “Eu não vou deixar quem eu sou, sabotar quem eu tenho que ser”, diz Dani. Afinal, não deveria ser sempre assim? 

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