Conheça histórias de vidas transformadas por meio do teatro
As narrativas que vemos sobre o tablado são apenas a face visível de algo maior: o poder transformador das Artes Cênicas, linguagem cujas vivências abriram novas possibilidades para estudantes de curso da Cia Teatral Acontece
“Posso te dar um abraço?”, Dhaphinne Onuma pergunta a Paulo Henrique Castro quando o vê chorar. Ele tem o rosto envolto por tinta, o corpo em tecido preto. Está caracterizado para entrar em cena e, ainda que quase irreconhecível sob os paramentos, a fala e o olhar não disfarçam a tristeza. Perdeu a irmã faz pouco tempo. A presença dela ainda ecoa.
“Foi muito pesado”, recorda, antes de expressar o pranto e contar o processo que levou ao falecimento da querida parente. “Estava às vésperas de apresentar um espetáculo e, quando cheguei em casa, estava essa morte”. Quase esmoreceu. Mas não desistiu. O teatro, segundo ele, o abraçou. E abraço é sempre bom porque contorna a gente e dissipa a dor.
Ao prestar ajuda ao colega ainda em luto, Dhaphinne repete movimento que também fizeram com ela, de enlaçar com os braços quando precisou superar desafios. E foram muitos, a atriz lembra bem. Recentemente, pôs no mundo Júlia, neste momento com apenas um mês de vida. Pouco antes, separou-se do marido, já com duas crianças pequenas sob sua guarda. No meio desse furacão, somaram-se outras questões, coisas que iam soterrando sonhos e energias pouco a pouco. Mas a vivência no teatro estava lá, quase a sussurrar no ouvido e reverberar em alta voz: “É possível”.
Paulo Henrique e Dhaphinne integram parcela de vozes que se somam a outras a fim de atestar o poder transformador das Artes Cênicas. Porque, a bem da verdade, aquilo que vemos no tablado é apenas uma das muitas faces assumidas por essa linguagem artística. Além das expressões de drama e comédia, há mais: aquelas que se escondem nos ensaios, nas dinâmicas de grupo, na preparação para uma peça. No acolhimento e amizade. Na vontade de doação e quebrar barreiras.
Descobertas
Aconteceu ainda no alvorecer da juventude. Aos 18 anos, Paulo dava os primeiros passos no fazer teatral. Hoje, aos 53, ele participa de um grupo que encena a Paixão de Cristo e, a convite, também integra uma das turmas do Curso de Iniciação Teatral Acontece (Cita), realizado pela companhia de mesmo nome, sediada no bairro Monte Castelo, em Fortaleza.
Neste momento em específico, vivencia uma fase frenética: está se preparando para dar vida a uma mariposa na montagem “Muiraquitã”. Inspirada no folclore brasileiro, a peça é um dos trabalhos a serem apresentados como finalização das atividades do Cita neste ano, em cartaz na sede da Cia Acontece somente na próxima sexta-feira (29), às 18h30, após curta temporada na casa.
“Fizemos intensa preparação com professores a partir de aprimoramento de vocais, corpo… Isso só veio aperfeiçoar a minha vida e a de todos os envolvidos”, destaca o ator e promoter.
“Eu tive muitos deslizes neste ano, e o teatro me ajudou a perceber que essa arte não significa só abrir as cortinas e receber aplausos. Também tem histórias de vida muito boas passando por aqui. Formamos uma só família ao nos dedicarmos a um espetáculo”.
A fala madura acerca do ofício reflete a farta experiência no ramo. Perguntamos, então, se rodeado por jovens – a maioria dos estudantes do curso tem entre 20 e 30 anos – há algo que o paralisa. “De jeito nenhum. Eu passo uma segurança de quem já tem mais vivência e, ao mesmo tempo, todo dia aprendo com eles. Já tenho costume de trabalhar com jovens devido a projetos sociais que participo; no curso, não foi muito diferente. A gente vai se unindo”, observa.
Nesse sentido, assegura que, mesmo quando a luz apaga e as cortinas se fecham, essa união permanece. Cuidar, ali, é ato contínuo. Cada um traz as limitações do lugar de onde saíram e as ressignificam no contato com o outro e com a arte. É como, diariamente, tenta superar a morte da irmã.
“Gosto sempre de achar que estou aprendendo mais ainda, de que nada está acabado, e percebo isso neles também. Somos um pote, que precisamos encher a cada momento de uso. O pote não é velho nem novo, ele apenas está ali. E eu me sinto renovado no palco porque a experiência de estar com outras pessoas em prol de algo comum é sempre válida e bela”.
Continuidade
Dhaphinne, por sua vez, sempre achou que o teatro se adequava a ela, e vice-versa. “Gosto de aparecer”, confessa, legitimando o fato de que a timidez nunca foi problema para atuar no ramo. Mas, conforme foi crescendo, outras experiências a afastaram do fazer artístico. Um relacionamento amoroso defeituoso, por exemplo.
“Eu tinha me perdido de mim com o pai das crianças. Queria tanto agradar que acabei ficando confusa, fora da minha própria identidade. ‘Quem sou eu?’, me perguntava o tempo todo. E sempre sentia que precisava me resgatar”.
Até abraçar essa percepção, enfrentou depressão e crise de ansiedade. Vivenciou dias difíceis, em que cada minuto parecia abortar as possibilidades de ser ela de novo.
“Então ingressei no curso de teatro porque sabia que lá podia extravasar, me redescobrir como pessoa e aprender muito. Me separei ainda durante o curso e nunca pretendi parar de fazê-lo, exatamente porque sabia que o teatro ia me dar esse amparo”.
Ao descrever a cena chegando à companhia no primeiro dia de curso, evoca emoção. Traz à memória o abraço. “Eles me envolveram de um jeito que me fez desligar do mundo”, diz.
“Mas continuei tendo dificuldades de frequentar as aulas. Por estar com a barriga crescendo, já não fazia certos movimentos, e chegou um momento em que não podia ir mais a pé. Além disso, o horário da escola do meu filho mudou e tive que me adequar”.
Ainda assim, após todo o procedimento de parto e, agora, amamentando, ela retorna à casa para vivenciar uma das personagens da peça “Pela Estrada Afora”, também marcada para ser encenada no dia 29, às 19h. O trabalho é inspirado no clássico conto de Chapeuzinho Vermelho e discorre sobre autoconhecimento, perseverança e determinação.
“Uma das coisas que essa vivência no palco me ensinou foi sobre possibilidades. Nós podemos fazer tudo. Estamos tão acostumados à nossa vida cotidiana que, quando passamos a viver outra realidade na peça, aprendemos muito sobre nós mesmos. É como se, ali, interpretando alguém diferente, eu dissesse a mim mesma, ‘eu não sou essa pessoa, sei muito bem quem sou’”.
Abertura
Estudante do Ensino Médio numa escola pública da Capital, Eduarda Rodrigues, 16 anos, também tem história para contar a respeito do contato com as Artes Cênicas. Sempre foi interessada nessa linguagem. Ao zapear pelas redes sociais, descobriu o curso da Cia Acontece, se inscreveu e, agora, está cada vez mais perto de encarnar, junto a Paulo Henrique Castro, uma das personagens de “Muiraquitã”.
Na relação de benefícios adquiridos fruto dessa imersão, a superação da timidez emerge como a principal. “Ficou a lição para mim de que eu tenho que me jogar. Hoje, vivendo essa experiência, vejo que oportunidades aparecerão e a questão é não negar. É ir”, assegura. Ao mesmo tempo, sendo a mais jovem da turma, também destaca a segurança que recebe dos outros atores mais experientes para continuar na área.
“Quero fazer Psicologia, mas continuar estudando teatro porque ele é vivo, é naquele instante. Se errar, me ensinaram que é fazer ‘carão’ e passar por cima, porque só quem sabe do seu texto é você. Um tipo de ensinamento, entre muitos, que vou levar para a minha vida”.
Ator, dramaturgo e idealizador da Cia Acontece, Almeida Júnior explica que a metodologia adotada no curso obedece ao princípio de estar sempre próximo ao aluno, o que justifica o sentimento de pertença por parte de cada um.
Segundo ele, “não estamos à frente do aluno, mas ao lado dele, trazendo esse clima de companheirismo e amizade. É muito interessante essa questão porque já tivemos casos aqui – inclusive nessas turmas de agora – em que uma das alunas disse que, antes de entrar no curso, tentou se matar várias vezes. Depois do acolhimento, não pensa mais nisso”.
Coletivo
Almeida Júnior destaca ainda o fato de agregar às aulas pessoas que foram recusadas em outros cursos, deixando a porta sempre aberta para o novo.
“Os espetáculos que apresentamos são fruto de um trabalho realmente coletivo. Construímos a dramaturgia, pensamos o cenário, o figurino, enfim, todos participam dos processos. Incluir mais gente nisso é importante e nos dá a possibilidade de acompanhar as evoluções pessoais dos estudantes”.
Professor da companhia e diretor de um dos espetáculos, Felício da Silva sublinha um aspecto relevante a se considerar quando dessa face unificadora das Artes Cênicas.
“Claro que o teatro não é terapêutico, digamos assim, mas ele ajuda, sim, a como se expressar melhor, onde colocar a mão, olhar no olho do outro… Isso tudo vai fazer a diferença dessas pessoas lá fora”.
Faz sentido. E, de certa forma, entra em sintonia com o pensamento de Jean Barrault (1910-1994), uma das lendas da arte no tablado francês, quando certa vez escreveu: “O teatro é o primeiro soro que o homem inventou para se proteger da angústia”.
Serviço
Espetáculos “Muiraquitã” e “Pela Estrada Afora”, da Cia Teatral Acontece
Na sexta-feira (29), às 18h30 e 19h, respectivamente, na sede Cia Teatral Acontece (R. João Tomé, 640 - Monte Castelo). Gratuito.