Facção CV alvo de operação no Rio é a que domina mais áreas no Ceará

SSPDS diz que houve aumento de 86,6% nas prisões ou apreensões de membros de facções.

Escrito por
Emanoela Campelo de Melo e Messias Borges seguranca@svm.com.br
muro com pichacoes da faccao comando vermelho.
Legenda: O Comando Vermelho é o grupo que prevalece em quase 80% dos territórios cearenses.
Foto: Arquivo

Tráfico de drogas, homicídios, ataques a provedores de internet, expulsões de famílias das próprias residências, envolvimento com 'jogos de azar' e uma estreita ligação com políticos. O Comando Vermelho (CV), facção carioca alvo da megaoperação no Rio de Janeiro na última terça-feira (28), avança no Ceará.

Em setembro, o Diário do Nordeste publicou reportagem com base em um relatório da Polícia Civil do Ceará (PCCE) que aponta que a organização criminosa tem superado as rivais e "muito em breve assumirá o controle total de Fortaleza/CE e dos principais municípios do Estado do Ceará".

Já nesta semana, a reportagem apurou junto a uma fonte da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) que o Comando Vermelho é o grupo que prevalece em quase 80% dos territórios cearenses.

O coronel reformado da Polícia Militar do Ceará (PMCE), Hideraldo Bellini, que já atuou como oficial da Inteligência e também como comandante de batalhões da PM em áreas conflagradas pelas facções em Fortaleza e na Região Metropolitana, alerta que: "temos mais de 100 cearenses no Rio de Janeiro guardados pelo Comando Vermelho. Com certeza a maioria vai migrar de volta para Fortaleza e o Governo precisa estar preparado, compartilhar informações".

"A Inteligência tem que fornecer aos comandantes dos batalhões as estatísticas de maior incidência de crime. Essas áreas vagas não permitem vácuo. Ou ocupa o Estado ou ocupa a organização criminosa. O CV avançou muito com o fim da GDE. A GDE cedeu ao TCP para disputar o território restante. As Forças de Segurança podem combater por meio da Integração, com as prefeituras ajudando. É quebrar a mobilidade do crime, estar nas áreas vulneráveis para afastar a criminalidade da população"
Hideraldo Bellini

ORDENS PARA ATAQUES

As principais lideranças do grupo, mesmo aquelas naturais do Ceará, seguem escondidas no Rio, conforme dito publicamente pelas próprias autoridades que trabalham diretamente para combater o crime organizado. 

É de lá que partem ordens para ataques bárbaros no Ceará, como a morte de um policial militar no Pirambu, que teve uma faca cravada na nuca. Ou a chacina ocorrida em um campo Society na Barra do Ceará.  Os dois crimes ocorreram neste ano de 2025.

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Sobre a expansão do CV, a SSPDS-CE diz que "os investimentos realizados pelo Governo do Ceará, combinados às mudanças no direcionamento das estratégias de investigação e inteligência, têm gerado avanços no enfrentamento à criminalidade. Entre esses avanços, está o fortalecimento do diálogo institucional, tanto com outros estados da federação quanto com órgãos do Governo Federal, como elemento central para ampliar a troca de informações, a cooperação operacional e a eficácia das prisões qualificadas, garantindo respostas mais eficazes às ações delituosas e reforçando o compromisso da SSPDS-CE com a proteção da população cearense".

"Entre os resultados, destaca-se o aumento de 86,6% nas prisões ou apreensões qualificadas de pessoas por integrar organizações criminosas. Ao todo, foram presas 1.851 pessoas, em flagrante ou por mandado, entre janeiro e setembro deste ano no Ceará. Considerando o mesmo recorte, no ano passado houve 992 capturas"
SSPDS-CE

(Veja nota da SSPDS na íntegra ao fim da matéria)

CEARENSES MORTOS EM MEGAOPERAÇÃO

Pelo menos quatro cearenses estão entre os mortos da megaoperação policial no Rio de Janeiro, nos complexos do Alemão e da Penha, segundo informações recebidas por autoridades cearenses. O número total de mortos já ultrapassou 120 - incluindo quatro policiais.

A reportagem apurou, com fontes que investigam o crime organizado no Ceará, que os cearenses encontrados mortos no Rio são integrantes da facção criminosa carioca Comando Vermelho (CV), que atuavam principalmente nas regiões do Pirambu e do Carlito Pamplona, em Fortaleza.

Autoridades cearenses receberam informações da Polícia do Rio de Janeiro sobre a morte de quatro integrantes do CV no Ceará:

  • Leilson Sousa da Silva, o 'Lelê';
  • Francisco Teixeira Parente, o 'Mongol';
  • Luan Carlos Marcolino de Alcânta, o 'Tubarão';
  • Josigledson de Freitas Silva, o 'Gleissim' ou 'Traquino'.

Carlos Mateus da Silva Alencar, o 'Skidum' ou 'Fiel', de 30 anos, número 1 do CV no Pirambu e um dos foragidos mais procurados pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), estava na região onde aconteceu a operação, mas não há informações confirmadas se ele é um dos mortos.

As fotos mostram três criminosos que eram procurados pela Polícia do Ceará e que foram mortos em uma megaoperação policial no Rio de Janeiro.
Legenda: 'Skidum', 'Lelê' e 'Tubarão' estavam na região onde aconteceu a megaoperação. Os dois últimos foram confirmados como mortos para autoridades cearenses.
Foto: Reprodução.

A SSPDS descreve 'Skidum', no site de Mais Procurados, como "chefe de organização criminosa com atuação no bairro Pirambu, em Fortaleza. Responde a homicídios, tráfico de drogas e por integrar organização criminosa".

Os cearenses mortos na megaoperação policial no Rio de Janeiro atuavam diretamente com 'Skidum' no tráfico de drogas e nas outras ações do Comando Vermelho no bairro Pirambu, em Fortaleza.

"Aqui (no Ceará) as comunidades mais carentes não são verticalizadas. E isso é um fator primordial de vantagem para o crime. Aqui não chegamos a esse ponto porque a nossa geografia é horizontal, mas o Governo tem que estar atento, a Inteligência tem que estar atenta"
Hideraldo Bellini

DOMÍNIO EM DIVERSOS SETORES

Segundo relatório da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), o Comando Vermelho "está levando vantagem devido a seu nível de organização, o fluxo de armas de fogo de grosso calibre e as grandes quantidades de drogas que chegam ao Estado por diferentes canais, com suas principais lideranças apresentando-se intocáveis nas Comunidades do Rio de Janeiro/RJ, como a Rocinha".

O relatório policial acrescenta que os membros da facção carioca "já estão inseridos na política; nos serviços de internet; aplicativos de transporte de passageiros; setor de combustíveis; golpes virtuais; jogos regulamentados (Bets) e clandestinos; bebidas e cigarros falsificados; além dos serviços prestados dentro e fora dos portos e aeroportos".

A investigação dos órgãos cearenses sobre as lideranças que fugiram para o Rio revelou que o Comando Vermelho interferiu nas eleições municipais de Santa Quitéria, no Interior do Ceará. O grupo criminoso teria comprado votos para o candidato eleito - e depois cassado - Braguinha (PSB), com dinheiro e drogas, e teria ameaçado candidatos rivais.

O CV também foi o responsável pela série de ataques a provedores de internet, ocorrida principalmente entre março e abril deste ano, em Fortaleza, Região Metropolitana e Interior do Estado. A facção promoveu empresas parceiras e extorquiu empresários do ramo.

A organização também se prepara para controlar as áreas dos dois portos cearenses, para exportar drogas para os Estados Unidos e para a Europa.

Segundo o documento da Delegacia Especializada, o CV "já domina a região do Porto do Pecém, em São Gonçalo do Amarante/CE, e agora quer dominar a área em que está inserido o Porto do Mucuripe, no grande Vicente Pinzon, em Fortaleza/CE".

O interesse da facção vislumba "não só a expansão dos 'negócios' ilícitos dos integrantes da ORCRIM no Estado, mas também a nível nacional, devido a localização estratégica dos portos cearenses com a Europa e os Estados Unidos", afirma a Draco.

Print de relatório mostra mapas do Pecém e da região do Vicente Pinzón e quais facções criminosas atuam em cada região
Legenda: Polícia Civil trabalha para evitar o crescimento da facção carioca Comando Vermelho no Ceará
Foto: Reprodução

A Polícia Civil do Ceará disse anteriormente ao Diário do Nordeste que "os relatórios técnicos produzidos pelos setores de inteligência e/ou de investigação, servem para subsidiar ações policiais contra alvos específicos e, também, contra grupos criminosos. Esses documentos têm como objetivo apresentar subsídios à autoridade policial, bem como, posteriormente, aos integrantes do Poder Judiciário e do Ministério Público, da importância da expedição de mandados de prisão, de busca e apreensão, além do bloqueio de bens móveis, imóveis e outros ativos oriundos de atividades criminosas".

VEJA NOTA DA SSPDS NA ÍNTEGRA:

"As estratégias, amparadas por informações levantadas por meio da inteligência policial, do Disque-Denúncia 181 e pelos indicadores da Supesp, também resultaram em prisões realizadas em outros estados, graças à articulação institucional, que resultou em ofensivas como a Operação Nordeste Integrado, realizada em agosto de 2025. A mobilização envolveu 5.903 agentes de segurança pública, entre policiais civis, militares, bombeiros e demais profissionais dos estados de Pernambuco, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Ao longo dos dois dias nos oito estados que participaram da operação, foram efetuadas 320 prisões, cumpridos 443 mandados judiciais (sendo 186 de prisão, 10 mandados de busca e apreensão de menores e 247 de busca e apreensão), além da apreensão de 87 armas (16 brancas e 71 de fogo), 40 veículos, 180 celulares e uma expressiva quantidade de entorpecentes.

No âmbito federal, o diálogo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e com a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) tem permitido estruturar parcerias estratégicas e o compartilhamento de dados e protocolos de investigação em nível nacional. Destaca-se a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (Ficco-CE), que apresenta resultados importantes para a desarticulação de grupos criminosos interestaduais.  Considerando todas as formas de cooperação interestadual e federal com a SSPDS do Ceará, em todo o ano de 2024, foram realizadas 187 prisões em outros estados. Somente de janeiro até 22 de outubro deste ano já foram realizadas 203 prisões interestaduais.

As estratégias, amparadas por informações levantadas por meio da inteligência, Disque-Denúncia 181 e por indicadores da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), colocam o Ceará em uma posição de destaque no combate à atuação de grupos criminosos em setores da economia. Ao tomar conhecimento da situação, as Forças de Segurança do Estado desenvolveram um protocolo de atuação em alinhamento com outros entes do poder Judiciário, Ministério Público e setor privado, que resultaram em 80 capturas, até o momento, de pessoas suspeitas de relação com crimes contra provedores de internet, ocorridos em março de 2025. Entre os alvos, estão donos de provedores clandestinos, suspeitos de executar os ataques  e mandantes de crimes de ameaça e outros.

Já para desarticular a estrutura operacional de grupos criminosos que dependem do armamento para impor domínio territorial, promover disputas entre facções e praticar delitos patrimoniais e homicídios, foram apreendidas 5.328 armas de fogo no período de janeiro a setembro deste ano, sendo cerca de 20 armas de fogo apreendidas por dia, em todo o estado. Em comparação com o mesmo período de 2024, foram 451 armas a mais apreendidas. Nos nove primeiros meses do ano passado, 4.877 armas foram apreendidas, o que significa um aumento de 9,2% neste ano. Os dados foram extraídos pela Supesp. A integração das forças cearenses com outros órgãos tem permitido identificar rotas de tráfico de armas, interceptar carregamentos e prender suspeitos ligados a redes criminosas interestaduais, reforçando a política de enfrentamento articulado à criminalidade. Além disso, o governador do Ceará, Elmano de Freitas, assinou a reestruturação de todas as Forças de Segurança estaduais. Entre as mudanças, foi criada uma delegacia especializada em armas de fogo, munições e explosivos (Desarme). A unidade especializada fortalece o combate ao tráfico de armas, munições e explosivos, focando no rastreio e nas rotas de entrada e circulação desses materiais ilícitos no Ceará.

As ações de enfrentamento aos grupos criminosos se fortalecem, cada vez mais, com a interiorização de unidades especializadas da PCCE, por meio da instalação de Delegacias de Combate às Ações Criminosas Organizadas (Draco) no Interior Sul e no Interior Norte, coordenadas pelo Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO). Essa ampliação permite respostas mais rápidas e estratégicas, atingindo diretamente os núcleos de comando e logística dessas organizações. Outra medida importante de enfrentamento é o enfraquecimento financeiro das facções, por meio do Departamento de Recuperação de Ativos (DRA) da PCCE. Entre janeiro e setembro de 2025, foram solicitados bloqueios judiciais que somam mais de R$ 148 milhões em ativos, incluindo imóveis, veículos, dinheiro em espécie e valores em contas bancárias, todos identificados como de origem criminosa. Essa estratégia de descapitalização visa atingir o cerne econômico das organizações, reduzindo sua capacidade de financiar atividades ilícitas e de manter estruturas de poder e influência dentro e fora do sistema prisional.

Por fim, a SSPDS-CE reforça que a população pode contribuir com as investigações repassando informações que auxiliem os trabalhos policiais. As informações podem ser direcionadas para o número 181, o Disque-Denúncia da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), ou para o (85) 3101-0181, que é o número de WhatsApp, pelo qual podem ser feitas denúncias via mensagem, áudio, vídeo e fotografia ou ainda via “e-denúncia”, o site do serviço 181, por meio do endereço eletrônico: https://disquedenuncia181.sspds.ce.gov.br/. O sigilo e o anonimato são garantidos"

 

 

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