Filhos de Bolsonaro criticam Moraes após prisão de pai: 'perseguição'
Filhos afirmam haver abuso e motivação política. "Se o meu pai morrer lá dentro, a culpa é sua", diz Flávio para Moraes.
Três dos quatro filhos políticos do ex-presidente Jair Bolsonaro usaram as redes sociais para reagir sobre a prisão preventiva do pai — levado para sede da Polícia Federal, em Brasília, neste sábado (22).
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez live, enquanto o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) publicaram textos na rede social "X" em crítica a decisão do ministro Alexandre de Moraes. O vereador Jair Renan (PL-SC) ainda não se pronunciou sobre o caso.
Nas primeiras horas da manhã de hoje, Jair Bolsonaro teve a prisão domiciliar convertida em preventiva, por ordem de Alexandre de Moraes. Segundo decisão do ministro, a prisão foi determinada após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) convocar uma vigília em frente ao condomínio do ex-presidente, na noite de sexta-feira (21).
O ex-presidente foi detido pela Polícia Federal em casa, por volta das 6h, e levado para Superintendência da PF em Brasília. Na decisão, Moraes apontou “risco elevado de fuga”. Segundo ele, o Centro de Monitoração Integrada do Distrito Federal comunicou ao STF a violação da tornozeleira eletrônica do ex-presidente às 0h08 deste sábado.
Flávio contestou investigação e fez ataques ao ministro
Logo no início de live no YouTube, Flávio declarou que “o Brasil acordou triste por mais esse capítulo tenebroso da destruição da nossa democracia”, classificando o pai como “um homem inocente, honesto, que fez o melhor pelo seu país”.
Segundo ele, a prisão teria motivação política: “Está estampado, tá evidenciado (…) que a perseguição, que o processo sempre foi político, que não tem absolutamente nada de jurídico”.
O senador centrou parte da transmissão em críticas ao entendimento de Moraes de que a convocação realizada por ele para uma vigília religiosa poderia ser usada como cobertura para uma tentativa de fuga do ex-presidente, que cumpre prisão domiciliar.
Flávio leu trechos da decisão afirmando que, nela, o ministro interpretaria sua referência bíblica ao “Senhor dos Exércitos” como metáfora para mobilização militar. Ele contestou a leitura: “Não tem nenhuma alusão aqui a convocar o exército ou forças militares, ou forças policiais para qualquer tipo de manifestação que não seja pacífica e religiosa".
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O senador chamou de “absurda” a hipótese de que a vigília facilitasse a fuga. “Se é que é verdade que houve algum problema com a tornozeleira à meia-noite e oito de hoje… e a vigília que convoquei foi para as 19h. Tem algum sentido manipular a tornozeleira e esperar 19 horas para depois tentar fugir?”.
Segundo ele, o ex-presidente vive sob vigilância constante: “Policiais na porta da casa dele 24 horas por dia, câmeras de segurança apontadas para a rua 24 horas por dia (…) inspeção todos os dias dentro da casa".
Acusações de “perseguição política” e críticas ao STF
Flávio Bolsonaro reiterou diversas vezes que considera o processo contra o pai fraudulento. “Esse processo forjado, esse jogo de cartas marcadas (…) todo mundo sabe, inclusive eles, que o Bolsonaro não fez absolutamente nada de errado".
O senador também acusou o STF de atuar politicamente e de promover “perseguição religiosa”, mencionando outros casos: “Quando Alexandre de Moraes toma uma decisão como essa, criminalizando uma vigília, um ato religioso ecumênico, é mais uma prova de perseguição religiosa, como ele já fez com o pastor Silas Malafaia".
Durante a transmissão, ele afirmou que Moraes estaria “tentando calar” a direita brasileira: “Não vão silenciar esse movimento, não vão calar esse movimento (…) Pode continuar vindo com covardias".
Acusações contra Moraes e alerta sobre saúde de Bolsonaro
Em diversos momentos, Flávio responsabilizou o ministro por eventuais danos à saúde do pai: “Se acontecer alguma coisa com o meu pai, Alexandre de Moraes, a culpa é sua. Se o meu pai morrer lá dentro, a culpa é sua".
Ele disse que Bolsonaro estaria debilitado e que relatórios médicos teriam sido ignorados. “A saúde dele está debilitada. Foi apresentado um relatório médico para você, que foi ignorado".
Apesar da prisão, Flávio manteve o chamado para o ato religioso marcado para as 19h deste sábado: “Vai ser ali em frente àquele trevo no Jardim Botânico (…) Vamos orar por esse país".
Ele afirmou que a mobilização é pacífica e que não aceitará proibições: “É nosso direito orar, rezar, nos mobilizarmos para defender aquilo que a gente acredita".
Nos momentos finais, Flávio leu trechos bíblicos, como Provérbios 26:27 — “O que faz uma cova nela cairá” —, e encerrou com uma longa oração pedindo proteção ao país, às pessoas que considera perseguidas e especialmente ao pai.
'O objetivo de Alexandre de Moraes é bem simples: matar meu pai', diz Eduardo Bolsonaro
Em texto publicado no X, Eduardo Bolsonaro adotou um tom ainda mais crítico do que o irmão. O deputado classificou a prisão do pai como uma ação deliberada para eliminá-lo fisicamente e comparou Moraes ao autor do atentado contra Bolsonaro em 2018.
Não é medida cautelar, prisão preventiva ou qualquer outro termo que os serviçais do regime utilizam para suavizar essa abominação. Precisamos ter a coragem de dizer exatamente o que está acontecendo: Moraes está tentando terminar o trabalho que Adélio Bispo começou. É uma tentativa de assassinato, nada menos do que isso
Eduardo também acusou o ministro de ter responsabilidade pela morte de Cleverson José dos Santos — o “Clezão”, apoiador de Bolsonaro falecido na prisão — afirmando: “Ele matou o Clezão da mesma forma e saiu impune. Precisamos entender que Alexandre de Moraes é um psicopata; aquele assassinato serviu para testar os métodos de execução que estão disponíveis para ele".
O deputado disse ainda que o ministro atuaria como instrumento de um “regime de exceção”: “Qualquer regime de exceção visa eliminar fisicamente seus dissidentes; Alexandre de Moraes apenas segue a cartilha de todo tirano psicopata que veio antes dele”.
Críticas ao regime de vigilância e defesa da vigília religiosa
Eduardo reforçou o argumento de que não haveria possibilidade de fuga e chamou de “absurda” a justificativa que associou a convocação da vigília religiosa a uma estratégia de obstrução das medidas cautelares:
“
.”Ninguém normal pode dizer que um idoso, sequestrado em sua residência, cercado por dezenas de capangas da gestapo alexandrina, com a saúde totalmente debilitada (…) possa fugir. Ninguém normal pode chamar uma vigília de oração de reunião ilícita que compromete a ordem pública. Esses são argumentos que apenas um psicopata pode usar ou aceitar
Assim como Flávio, Eduardo atribuiu a motivação da decisão judicial a uma suposta intenção de impedir manifestações populares.
Em outro trecho de texto, o deputado afirmou: “O objetivo de Alexandre de Moraes é bem simples: matar meu pai. Terminar o serviço que a esquerda já tentou".
Eduardo comparou o ministro ao agressor do pai em 2018, dizendo: “A diferença entre Alexandre e Adélio é apenas dos meios disponíveis para cometer o assassinato. São dois pistoleiros de aluguel, a serviço de criminosos que sequestraram o poder no Brasil".
Ao final da publicação, Eduardo convocou apoiadores à resistência: “Nada disso irá nos fazer recuar ou desistir. O martírio do meu pai só irá acender a chama da justiça em nossos corações (…) Que o medo e a covardia não sejam os conselheiros de vocês. Que os omissos e complacentes acordem e se levantem contra a iniquidade".
Carlos Bolsonaro fala em 'orquestração do sistema'
O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) também se pronunciou no "X", com uma análise política repleta de elementos conspiratórios e críticas à elite política e ao governo Lula.
Segundo ele: “Na leitura de muitos, toda essa orquestra foi montada para conduzir Jair Bolsonaro ao ponto que o sistema considera o limite aceitável. Primeiro tentaram empurrá-lo para uma prisão domiciliar (…) Como não obtiveram êxito, avançaram para a fase extrema do plano: forçá-lo a uma prisão ainda mais humilhante".
O vereador também afirmou que Lula estaria enfraquecido politicamente e que teria perdido apoio interno por não priorizar a retirada de sanções dos EUA contra um “determinado senhor”.
Carlos sustenta=ou ainda que haveria uma articulação para construir uma “direita permitida”, menos ameaçadora às elites: “O objetivo agora é fabricar uma ‘direita permitida’, alguém capaz de acomodar interesses (…) sem representar uma ameaça real aos esquemas espúrios".