Mesmo com o avanço da vacinação, por que a economia brasileira não deslancha?

Apesar de a atividade econômica voltar a engatinhar, expectativas de mercado e inflação jogam para trás as perspectivas para uma retomada

Legenda: A indústria tem sido afetada por falta de materiais e aumento nos custos
Foto: Fabiane de Paula/ SVM

Quando tudo teve de fechar por razões sanitárias, a esperança de dias melhores para a economia brasileira vinha na reabertura das portas de comércios e serviços — algo que dependia em grande parte de uma vacinação que sequer tinha data. 

Hoje o país avança na imunização da população e, aos poucos, indústria, comércio e serviços ensaiam uma volta à normalidade. Mas, apesar das portas abertas, outros fatores tornam o cenário não tão otimista

Apesar de o mercado ainda apostar em um crescimento do PIB neste ano, as projeções têm piorado. No último boletim Focus, divulgado na última sexta-feira (8), era projetado um crescimento de 5,04% mas, há cinco semanas o índice era de 5,14%. 

A confiança do consumidor segue a mesma trajetória de queda. Em setembro, o índice medido pela Fundação Getulio Vargas (FGV) recuou 6,5 pontos frente ao mês anterior e chegou em 75,3 pontos, o menor patamar desde abril. 

Ao mesmo tempo, as projeções de inflação têm disparado. Há cinco semanas, se esperava a inflação em 7,58% ao fim de 2021; no último boletim Focus, o número subiu para 8,59% — bem acima dos 3,75% planejados pelo Conselho Monetário Nacional. 

Por que a economia não deslancha? 

A reabertura das atividades é um ponto que ajuda a recuperação econômica, mas outros fatores trabalham em sentido contrário nesse cabo de guerra.  

“Um forte crescimento mundial ajudaria o Brasil, e a previsão está baixa por causa da Ásia e dos Estados Unidos, que tiveram uma piora. Os números foram revistos para baixo porque teve mais inflação”, destaca a pesquisadora do FGV Ibre, Marina Garrido. 

Esse fenômeno que reduz o poder de compra dos consumidores ocorre em escala global, em grande parte pela falta de insumos para produção na indústria. No Brasil, o problema se agrava em razão do dólar, que potencializa qualquer aumento de custos internacional no mercado local. 

A alta do dólar é influenciada por outra questão presente no cenário local: a incerteza, tanto econômica quanto política.  

“Inflação traz instabilidade econômica e a situação política também, não tem muito horizonte de termos uma eleição tranquila no próximo ano. O mercado é muito sensível, por isso projeta cenários cada vez menos promissores”, explica o conselheiro do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon-CE), Fran Bezerra.  

Ao mesmo tempo, o desemprego diminui as perspectivas de uma maior movimentação da economia. Marina acrescenta que, por mais que mais vagas estejam surgindo, os salários não conseguem acompanhar a inflação para manter o poder de compra.  

Crescimento desigual 

A economia como um todo também não parece deslanchar devido ao crescimento desigual entre os setores e as regiões do país.  

“No primeiro trimestre o que mais levou a economia a crescer foi indústria e no segundo os serviços. Mesmo que com a mobilidade aumentando, como está sendo desigual, acaba que na média não fica tão alta. Tem alta de alguns setores, mas se olhar o agregado tem sido muito afetado”, diz Marina Garrido. 

O doutor em economia e professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jair do Amaral Filho, ressalta que como os impactos da pandemia foram desiguais entre os setores, não há como esperar uma volta à normalidade de forma homogênea.  

É preciso compreender que a pandemia causou um grande desequilíbrio e dessincronização nas cadeias de valores internacionais e no mercado global. A normalização disso não será nem automática nem imediata
Jair do Amaral Filho
doutor em economia e professor titular da UFC

A vacinação e a reabertura dos estabelecimentos por si só ajudam o setor de serviços, que corresponde à maior parte da economia brasileira. Mas, mesmo com as pessoas de volta às ruas, indústria e comércio são afetados por questões que fogem ao simples abrir das portas. 

A questão energética tem impacto direto nos setores primários da economia, aumentando os custos de produção. Problemas logísticos também afetam a chegada de insumos às fábricas e de produtos ao consumidor final. 

 “Por mais que a vacinação volte, se você não consegue produzir produtos, não consegue vender”, resume Marina. 

O que é necessário para a economia deslanchar? 

Segundo Jair do Amaral, a economia precisa de um nível menor de incertezas para conseguir caminhar melhor. Para ele, o governo deve avançar com reformas administrativas para melhorar a imagem do país perante os agentes econômicos. 

Fran Bezerra adiciona que o país deve sinalizar ao mercado a inflação atual como um fenômeno episódico, ligado ao aumento de custos em razão da pandemia, e não algo mais estrutural. Para ele, é necessário que o governo atue ativamente no resgate da economia. 

“O governo costuma colocar tudo para o mercado resolver, não coloca nenhuma política de crescimento clara. Não tem nenhuma política setorial ou industrial mais relevante, mecanismos fiscais. A capacidade do governo em investir está muito pequena e a gente sabe pela experiência histórica que quando se instala uma crise, se o governo não dá o primeiro passo de retomada de investimentos o investidor jamais vai fazer”, cita. 

Para além do que pode ser feito, a retomada também depende de sorte. É necessário que chova para que, com a resolução da questão hídrica, os custos energéticos consigam baixar. 

Marina Garrido analisa que as perspectivas não são tão otimistas para a indústria e para o comércio ainda neste ano, mas que o setor de serviços tem espaço ainda para crescer com a demanda reprimida da pandemia. Uma melhora mais concreta de todo o cenário econômico só é esperada para o segundo trimestre de 2022. 

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