Mesmo com juros mais altos e dificuldade de crédito, microempreendedores projetam 2022 positivo

Apesar do fechamento de portas devido à pandemia, o Ceará acumula saldo positivo de empresas em 2021. Alta de juros e dificuldade para crédito podem ser empecilhos

Escrito por Heloisa Vasconcelos, heloisa.vasconcelos@svm.com.br

Negócios
Legenda: 97% dos novos negócios neste ano são micro e pequenas empresas
Foto: Agência Brasil

A pandemia trouxe um cenário difícil para as micro e pequenas empresas, mas, mesmo sem uma previsão de fim da crise sanitária, as perspectivas são positivas para 2022. Maioria absoluta dentre as empresas do Estado, os menores empreendimentos devem continuar tendo papel central para a geração de emprego no ano que vem. 

Mesmo com o fechamento de portas de pouco mais de 20 mil empresas, segundo pesquisa do Sebrae, o surgimento de novos negócios deixa o saldo positivo. Dados da Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec) contabilizam 94.621 novos empreendimentos no Estado entre janeiro e outubro deste ano, 97% deles sendo micro e pequenas empresas.  

Para o diretor técnico do Sebrae, Alci Porto, 2022 deve ser um ano de maior expansão. Porém, a alta dos juros, a chegada da carência de empréstimos tomados em 2020 e a dificuldade para obtenção de crédito podem ser desafios. 

A pandemia para as micro e pequenas empresas 

O presidente da Confederação Nacional das Micro e Pequenas Empresas e Empreendedores Individuais (Conampe), Ercílio Santinoni, relembra que os pequenos negócios foram um dos principais afetados quando o fechamento das portas foi necessário por razões sanitárias. 

Sem reserva para viver vários meses sem receita, muitas empresas encontraram dificuldades para arcar com fornecedores, tributos e aluguel e acabaram encerrando as atividades de forma definitiva. Nesse momento, o acesso ao crédito foi importante para a saúde dos pequenos negócios. 

“Se nós pegarmos todo o período, até não foi tão desastroso quanto a gente previu na hora que começou a fechar todas as empresas. Se falava que metade das empresas ia falir e fechar, e na verdade perdemos próximo a 20% das empresas, que eram as que já estavam com dificuldades de se manter no mercado”, ressalta, tomando como base dados nacionais. 

Para isso, foi necessário mudar a forma de fazer negócio, sendo a adoção de tecnologia algo praticamente mandatório para continuar tendo receita sem atividades presenciais.  

Tem um panorama de empresas surgentes muito maior do que no passado, temos mais de 600 mil empresas já registradas no estado do Ceará e um mercado que se expandiu com o uso de ferramentas digitais. Aqueles que resistiram e não tentaram se aprimorar tiveram dificuldade de se manter no mercado
Alci Porto
diretor técnico do Sebrae

O isolamento social também trouxe um ponto positivo para as empresas no que diz respeito à competitividade. “Antes sempre tinham a concorrência de mercados mais distantes. A proximidade foi fundamental para fomentar principalmente o mercado de alimentação”, pontua o diretor técnico do Sebrae. 

Perspectivas positivas 

A demanda reprimida no atual momento de arrefecimento da pandemia traz otimismo, principalmente para os setores que mais foram afetados pela pandemia, como eventos e turismo. 

O presidente da Federação das Associações de Micro e Pequenas Empresas do Estado do Ceará (Fampec-CE), Edivaldo Nunes, considera que haverá uma expansão no número de pequenos negócios no Estado. 

“O setor de turismo, eventos, tem muitas inovações na forma de atender o seu cliente. Outras atividades de apoio como Tecnologia da Informação também, vamos ter um boom de segmentos dessa cadeia. Consequentemente, isso vai oferecer espaço à micro e pequena empresa”, prevê. 

Ercílio Santiorini também tem boas expectativas para a economia no ano que vem. Ele espera um “crescimento nunca visto” no ramo de pequenos negócios.

De acordo com dados de setembro da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), as novas microempresas são atualmente responsáveis pela geração de 61.010 empregos. A expansão de novos negócios deve ser importante na empregabilidade em 2022. 

“Em 2022 vamos continuar tendo expansão das empresas, temos milhares de jovens que vão acessar o mercado e vão migrar para serem empreendedores”, projeta Alci. 

Desafios 

Alguns pontos preocupam a concretização das perspectivas. Mesmo sem ser possível vislumbrar um fim da pandemia, as carências de empréstimos tomados por meio do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) começa a se aproximar. 

“Setores de eventos, turismo e restaurantes ainda têm em muitos estados limitações para faturar no nível que faturavam antes da pandemia. Vão ter empréstimos vencendo e faturamentos ainda não alcançando o patamar necessário”. 

O panorama econômico de alta na taxa de juros também pode frear o surgimento de novas empresas devido ao maior custo para obtenção de crédito. De acordo com o último boletim Focus, a Selic deve fechar 2021 em 9,25% e atingir 11,25% em 2022.