Indústria cearense enfrenta dificuldades com avanço da Ômicron; veja situação por setor

Representantes de diversos setores industriais relatam problemas no começo deste ano

Escrito por Lívia Carvalho, livia.carvalho@svm.com.br

Negócios
Legenda: Setor têxtil ainda sente impacto dos outros anos de pandemia
Foto: Divulgação

Ainda em recuperação pelos efeitos da pandemia, os setores industriais vivenciam um novo momento como a falta de alguns insumos. Com o aumento do número de casos de Covid-19, impulsionados pelo alto contágio da Ômicron em todo mundo, alguns serviços acabam sendo afetados pelo grande número de funcionários afastados.  

No Ceará, com transmissão comunitária da nova variante, já na semana passada companhias cearenses relataram ao Diário do Nordeste ter pelo menos metade dos funcionários afastados nos últimos 30 dias.  

A situação é similar ao redor do mundo e, de acordo com o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Ricardo Cavalcante, a cadeia global de suprimentos, no entanto, já sente o impacto da variante Ômicron do coronavírus.  

“O crescente risco de escassez de matérias-primas e/ou o aumento no preço dos insumos tendem a provocar revisões nas estratégias de indústrias com fornecedores no exterior, gerando movimentos de antecipação de compras e reforço em estoques”. 

Setor têxtil  

Um dos setores mais afetados com a pandemia é a indústria têxtil, que ainda amarga a queda no número de pedidos e de demandas geradas pela falta de capital e o endividamento da parcela que mais compra: a classe média.  

O vice-presidente financeiro do Sindicato da Indústria de Fiação e Tecelagem em Geral no Estado do Ceará (Sinditêxtil-CE), Rafael Cabral, aponta haver um problema na entrega de materiais importados na empresa que comanda.  

Não havia normalizado ainda e agora fez foi piorar. Os custos subiram muito, vem desde a primeira onda da pandemia e seguiram, havia uma expectativa de que as coisas se normalizassem no meio do ano, mas desse jeito, não vai acontecer”. 
Rafael Cabral
vice-presidente financeiro do Sinditêxtil

Já Mardones Freitas, dono de uma empresa de confecção de roupas infantis, afirma que a situação está escassa e com os preços muito caros. “No geral, a gente está tentando desovar muita coisa do ano passado e ainda estamos enfrentando dificuldades com a falta de materiais”. 

Indústria calçadista 

Para a indústria calçadista, o momento é de cautela, conforme o presidente do Sindicato da Indústria de Calçados de Fortaleza (Sindcalf), Jaime Bellicanta, já que a movimentação de pedidos está bem aquém da normalidade.  

As indústrias pararam praticamente um ano e meio por causa da pandemia, é uma engrenagem e essa corrente parou, então a retomada é um pouco lenta. O industrial está apreensivo em fazer estoques porque não sabe se vai vender ou não”. 
Jaime Bellicanta
presidente do Sindcalf

Bellicanta pontua que o maior problema com insumos tem sido no próprio mercado interno com a falta de papelão, pois há uma procura muito grande, e as entregas têm demorado mais que o normal.  

O presidente do Sindicato das Indústrias de Calçados e Vestuários de Juazeiro do Norte e Região (Sindindústria), Abelito Sampaio, acrescenta que a preocupação no momento é com a nova onda e uma possível interrupção de atividade pela falta de funcionários.  

"Os insumos das indústrias do interior do estado, a maior parte vem pelo meio rodoviário, ainda não houve nenhum atraso, mas estamos vendo muita reclamação de funcionários das empresas entrando com atestado, aí uma possível falta de insumo porque tem afetado os transportes", pondera.  

Legenda: Indústria calçadista sofre com retração do mercado
Foto: Elizangela Santos

Altos custos na siderurgia  

Outro setor que vem enfrentando dificuldades é a siderurgia, embora a expectativa seja melhor que nas primeiras ondas pela menor gravidade da variante. Segundo o presidente Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânica e de Material Elétrico no Estado do Ceará (Simec), Sampaio Filho, cerca de 25% a 30% dos empregados da indústria estão afastados.  

Por isso, a expectativa para as próximas semanas é que a proliferação da variante diminua, possibilitando “uma volta a uma nova normalidade atendendo os requisitos básicos preconizados pelas autoridades de saúde”. 

Com relação aos estoques, Sampaio afirma que os altos custos impedem que esses sejam constituídos. “Os custos elevados dos insumos e a retração natural de mercado no início do ano, impedem que se façam estoques porque a escassez de capital de giro é uma realidade para todos, indistintamente”.  

Mercado internacional impacta o setor químico  

Situação semelhante vive o setor químico. Desde outubro do ano passado, os insumos para a produção de mercadorias vêm sofrendo com os aumentos.  

Conforme Paulo César Gurgel, presidente do Sindicato das Indústrias Químicas Farmacêuticas e da Destilação e Refinação de Petróleo no Estado do Ceará (Sindquímica), a principal matéria-prima do shampoo e sabonete teve alta de 25% e de cremes em torno de 35%.  

A tendência é de mais aumento e escassez. Está existindo uma falta de matéria-prima no mercado internacional, a China andou fechando várias indústrias, portos, gerando um problema de abastecimento e alta de preços”.  
Paulo César Gurgel
presidente do Sindquímica

Assuntos Relacionados


Mario Mesquita

Comércio exterior do Nordeste

Mario Mesquita
26 de Maio de 2022