Em carta, economistas criticam condução do combate à pandemia e defendem vacinação

Documento destaca os impactos da crise sanitária no emprego e na atividade econômica do País como um todo

Vacina contra a Covid-19 sendo aplicado em uma pessoa em Fortaleza
Legenda: Na carta aberta, 222 economistas criticam o ritmo de vacinação e destacam que o surgimento de variantes torna a situação ainda mais urgente
Foto: Thiago Gadelha

Em uma carta aberta à sociedade divulgada hoje (22), economistas brasileiros defendem a vacinação como vetor de saída para a crise provocada pela pandemia do coronavírus e criticam a condução do combate à pandemia pelo Governo Federal, enumerando os impactos do problema sanitário no aprofundamento das desigualdades econômicas e sociais. Assinam o documento 500 economistas e banqueiros de todo o País, entre eles o secretário do Planejamento e Gestão da Secretária do Desenvolvimento Econômico do Estado (Sedet), Flávio Ataliba.

"Sabemos que a saída definitiva da crise requer a vacinação em massa da população. Infelizmente, estamos atrasados. Em torno de 5% da população recebeu ao menos uma dose de vacina, o que nos coloca na 45ª posição no ranking mundial de doses aplicadas por habitante. O ritmo de vacinação no País é insuficiente para vacinar os grupos prioritários do Plano Nacional de Imunização (PNI) no 1º semestre de 2021, o que amplia o horizonte de vacinação para toda a população para meados de 2022. As consequências são inomináveis", pontuam os profissionais na carta aberta.

Medidas enumeradas como essenciais no combate à pandemia

  1. Acelerar o ritmo da vacinação;
  2. Incentivar o uso de máscaras tanto com distribuição gratuita, quanto com orientação educativa;
  3. Implementar medidas de distanciamento social no âmbito local com coordenação nacional;
  4. Criar mecanismos de coordenação do combate à pandemia em âmbito nacional.

O documento destaca os números da atividade econômica e do mercado de trabalho - esses últimos os piores da série histórica com desemprego alcançando uma taxa de 14%, lembrando ainda que o cenário "fez com que muitos trabalhadores deixassem de procurar emprego", sendo retratada com a saída de 5,5 milhões da força de trabalho entre dezembro do ano passado e fevereiro deste ano, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

"Esta recessão, assim como suas consequências sociais nefastas, foi causada pela pandemia e não será superada enquanto a pandemia não for controlada por uma atuação competente do governo federal. Este subutiliza ou utiliza mal os recursos de que dispõe, inclusive por ignorar ou negligenciar a evidência científica no desenho das ações para lidar com a pandemia", enfatizam os economistas no documento.

Os profissionais ponderam na carta que o ritmo de vacinação - desde 8 de março, foram aplicadas em média 177 mil doses por dia - não acompanha o ritmo de surgimento de novas cepas no País e que essas variantes tornam o processo imunizatório ainda mais urgente. "A disseminação em larga escala do vírus, além de magnificar o número de doentes e mortos, aumenta a probabilidade de surgirem novas variantes com potencial de diminuir a eficácia das vacinas atuais".

Vacinas

De acordo com o documento, "vacinas são relativamente baratas face ao custo que a pandemia impõe à sociedade". O texto pontua que os recursos para compras de vacinas somam R$ 22 bilhões, "uma pequena fração dos R$ 327 bilhões desembolsados nos programas de auxílio emergencial e manutenção do emprego no ano de 2020. "Vacinas têm um benefício privado e social elevado, e um custo total comparativamente baixo".

"Poderíamos estar em melhor situação, o Brasil tem infraestrutura para isso. Em 1992, conseguimos vacinar 48 milhões de crianças contra o sarampo em apenas um mês. Na campanha contra a Covid-19, se estivéssemos vacinando tão rápido quanto a Turquia, teríamos alcançado uma proporção da população duas vezes maior, e se tanto quanto o Chile, dez vezes maior", apontam os economistas na carta

"A falta de vacinas é o principal gargalo. Impressiona a negligência com as aquisições, dado que, desde o início da pandemia, foram desembolsados R$ 528,3 bilhões em medidas de combate à pandemia, incluindo os custos adicionais de saúde e gastos para mitigação da deteriorada situação econômica", destaca o texto.

'Falso dilema'

Um dos pontos defendidos pelo documento é que "a controvérsia em torno dos impactos econômicos do distanciamento social reflete o falso dilema entre salvar vidas e garantir o sustento da população vulnerável". "Dados preliminares de óbitos e desempenho econômico sugerem que os países com pior desempenho econômico tiveram mais óbitos de Covid-19".

Por fim, os profissionais afirmam que o País está no limiar de uma fase explosiva da pandemia. Portanto, pontuam que "é fundamental que a partir de agora as políticas públicas sejam alicerçadas em dados, informações confiáveis e evidência científica".

"Não há mais tempo para perder em debates estéreis e notícias falsas. Precisamos nos guiar pelas experiências bem-sucedidas, por ações de baixo custo e alto impacto, por iniciativas que possam reverter de fato a situação sem precedentes que o País vive", arremata o documento. A carta foi tema de live no canal do economista Flávio Ataliba realizada na tarde desta segunda-feira (22). Participaram da transmissão seis economistas que também assinam o documento.

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