Com pandemia, PIB do Ceará encolhe 3,56% em 2020; pior resultado em 4 anos

Apenas a agropecuária encerrou o ano com resultados positivos, apresentando alta de 10,31% no ano

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Legenda: A indústria foi o setor com as maiores perdas, com retração de 7,11% no Ceará
Foto: Rayane Oliveira

Sob forte influência dos impactos da pandemia, o Produto Interno Bruto (PIB) do Ceará encerrou o ano de 2020 com queda de 3,56%, anunciou o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará na tarde desta terça-feira (23).

Esta foi a pior retração da economia cearense desde 2016, quando o PIB recuou 4,08%. Ainda assim, o resultado foi levemente melhor que o apresentado pelo Brasil (queda de 4,1%). Em valores correntes, o PIB do Ceará em 2020 foi de R$ 168,2 bilhões.

Avanço no 2º semestre

O analista do Ipece, Nicolino Trompieri, aponta que houve uma recuperação econômica mais forte que a esperada no segundo semestre do ano, de forma que o fechamento de 2020 se mostrou menos dramático que o previsto inicialmente. Em junho, o instituto estimava uma retração de 4,92% no Estado.

No último trimestre, o PIB cearense sofreu leve recuo de 0,17% em relação a igual período de 2019, mas avançou 1,37% ante o trimestre imediatamente anterior, que já havia crescido 17,05% na comparação com o segundo trimestre do ano, o mais impactado pela pandemia.

"Nós tivemos um bom crescimento no quarto trimestre após os efeitos mais fortes da pandemia. No terceiro trimestre, também tivemos um crescimento, mas por conta da baixa base de comparação. Com a reabertura gradual e responsável, o segundo semestre pôde ter reaquecimento da economia. Esse processo foi beneficiado pelos investimentos públicos. Em 2020, o Ceará obteve novamente o maior percentual de investimento da RCL, motor que ajudou bastante retomada do crescimento. Ainda assim, não conseguiu reverter todos os efeitos", avalia Trompieri.

Agro cresce 10%

Entre os setores produtivos, apenas a agropecuária fechou o ano passado no azul, com crescimento de 10,31%, variação impulsionada pelo baixo impacto das medidas restritivas, tendo em vista que o setor é considerado essencial, e pelo registro de chuvas acima da média no ano.

A analista do Ipece, Cristina Lima, detalha que as condições climáticas em 2020 favoreceram bastante a agricultura no Ceará, em especial as de sequeiro, que são mais dependentes das chuvas. As culturas de milho e feijão foram as de maior destaque, com crescimento de 50% e 13%, respectivamente. O milho alcançou a maior colheita desde 2011, ano anterior às secas mais recentes.

"Já a mandioca teve um leve recuo por conta da área plantada. Os produtores passaram a produzir mais milho e feijão, e a mandioca acabou tendo leve queda. Entre as hortaliças, o tomate é o item com mais evidência, tendo 11,9%. Já entre as frutas, também tivemos ótimos desempenhos para o maracujá (31%), coco (34%), mamão (26%) e melancia (17%)", aponta.

Indústria registra maior impacto

A indústria foi o setor com as maiores perdas, com retração de 7,11% no Ceará. Dentro desse segmento, a atividade da construção civil foi a única a se manter positiva em 0,63% sob influência do baixo patamar da taxa básica de juros, a Selic, que movimentou o mercado imobiliário.

Witalo Paiva, analista do Ipece, ressalta que, apesar de modesta, a alta da construção civil precisar ser comemorada em meio a um cenário de baixa generalizada.

"Nós tivemos a retomada do mercado imobiliário, do comércio dos bens de construção por conta das reformas feitas nos lares. O aquecimento da atividade aconteceu motivado pela baixa da Selic, pela formação de poupança pelas famílias por conta do isolamento, e essa mudança de hábito motivou as reformas", explica.

Sobre a indústria da transformação, a mais significativa para o setor no Estado, ele indica uma queda de 6,98% no ano em função das fortes medidas restritivas no segundo semestre de 2020, que impediu boa parte das atividades de funcionarem.

Serviços reagem de forma mais rápida

Já o setor de serviços, que representa 76,74% da economia local, sofreu queda de 3,6% em 2020. Por conta da demanda reprimida e da característica natural de rápida recuperação, o setor reagiu bem no segundo semestre do ano passado, reduzindo as perdas acumuladas.

Alexsandre Cavalcante, analista do Ipece, ressalta que o comércio avançou 6,72% no terceiro trimestre e 4,05% no quarto, chegando a quase voltar à normalidade em dezembro. Ainda assim, encerrou o ano com recuo de 3,38%.

Ainda apresentaram retrações no quarto trimestre alojamento e alimentação (-11,05%), outros serviços (-2,95%), transportes (-2,35%), administração pública (-2,10%) e intermediação financeira (-0,03%).

Previsão para 2021

O Ipece ainda atualizou a previsão para o PIB do Ceará em 2021 para 3,55%, uma redução de 0,15 ponto percentual em relação à estimativa inicial divulgada em dezembro (3,70%). Ainda assim, a variação esperada é maior que o crescimento econômico previsto para o Brasil, que está em 3,23% conforme o Boletim Focus divulgado em 12 de março pelo Banco Central (BC).

Paiva ressalta que, mesmo com uma segunda onda de contaminação e novas medidas restritivas, os impactos devem ser menores, tendo em vista que as decisões estaduais estão sendo adaptadas de acordo com a experiência passada. "Nesse lockdown, por exemplo, a indústria ficou de fora, afetam mais comércio e serviços. Mas a gente acredita que a vacinação possa avançar de forma mais rápida e que até superemos essa estimativa de 3,55%", afirma.

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Diário do Nordeste e Thiago Resende e Washington Luiz/Folhapress 17 de Junho de 2021