Busca por preços mais baixos faz número de atacarejos subir; redes apostam em alternativas

Supermercados têm percebido a tendência de crescimento e criam marcas voltadas para o público

Escrito por Heloisa Vasconcelos, heloisa.vasconcelos@svm.com.br

Negócios
Legenda: Os atacarejos têm atraído o consumidor pela possibilidade de preços mais baixos
Foto: Fabiane de Paula

A busca por preços mais baixos alavancou os atacarejos no Nordeste. De acordo com dados da NielsenIQ, a região já possui 291 lojas desse modelo, um crescimento de 13% em comparação ao número registrado no ano passado. 

Com estruturas que exigem um menor número de funcionários, os atacarejos possuem um custo de operação menor comparado a supermercados, o que se reflete no preço oferecido ao consumidor.  

No Ceará, supermercados têm expandido operação para marcas que contemplam um público que demanda preços mais baixos, seja por meio do atacado ou por lojas de descontos. 

Para o gerente de atendimento ao varejo da NielsenIQ, Daniel Asp Souza, a expansão de redes supermercadistas locais para o atacado é um fenômeno percebido, sobretudo, no Ceará.  

“As redes que eram originais de supermercados vem abrindo lojas de atacado. Porque o consumidor percebe que tem um custo menor então vale a pena fazer uma grande compra mensal”, analisa. 

Segundo ele, o movimento de crescimento dos atacarejos deve continuar aquecido enquanto houver pressão inflacionária e uma população com queda no poder de compra. 

Crescimento do atacarejo 

Daniel Asp afirma que os atacarejos começaram a crescer por volta de 2015, com o Nordeste e São Paulo puxando o movimento. A inflação atual tem intensificado a busca por esse tipo de negócio por parte do consumidor, o que leva a abertura de mais lojas. 

Ele avalia que os negócios cearenses estão atentos a esse movimento, o que leva os supermercados a entrarem no segmento. 

“Frangolândia e Lagoa abriram Cash&Carry (nome também dado ao atacarejo), tem uma série de lojistas fazendo isso. O supermercado tem um problema um pouco de identidade, como está em uma região de m² mais caro, tem um custo mais alto, então não consegue praticar preços de atacarejo. O que acontece é lojas tentando tirar o máximo de serviço possível para melhorar os preços”, elenca. 

Antes, os atacarejos eram mais afastados dos centros urbanos por serem mais voltados ao atendimento a estabelecimentos. O economista Alex Araújo considera que essa distância deve diminuir aos poucos no objetivo de se aproximar do consumidor.  

Asp pondera que a ida de atacarejos para o centro da cidade é dificultada por questão de custos, mas a que a fusão de redes pode colaborar para levar esses negócios para mais próximo. 

Pelo preço do m² ser mais caro, é uma variável que ajuda a inviabilizar o modelo. Mas quando pega esse movimento do Carrefour comprando lojas do Big já instaladas, por exemplo, pegar lojas grandes e transformar em Atacadão faz sentido. Agora uma abertura de lojas em regiões mais centrais é mais difícil até pela escassez de imóveis
Daniel Asp Souza
gerente de atendimento ao varejo da NielsenIQ

Segundo Alex, a tendência de crescimento deve seguir por um prazo mais longo, tanto pela situação econômica e inflacionária como pela comodidade que aos poucos o atacarejo ganha. 

“Está gerando uma reconfiguração em ondas, atacado vira atacarejo, supermercado vira loja de conveniência e a loja de conveniência busca estar muito mais próxima do consumidor, por exemplo, dentro dos condomínios”, diz. 

Na análise de Asp, essa tendência é ligada diretamente ao cenário macroeconômico. 

“Eu suponho que enquanto nós tivermos uma inflação intensa, com uma população com alta taxa de desemprego, é um canal que tende a crescer. À medida que tem um consumidor com mais renda, eles buscam mais comodidade. Isso vai estar muito relacionado ao ambiente macroeconômico”, explica. 

Como estão os supermercados 

Conforme o secretário executivo da Associação Cearense de Supermercados (Acesu), Antônio Sales, o setor supermercadista está atento ao movimento do atacado e de adapta para manter a concorrência. 

O varejo não vê como uma coisa positiva porque as margens nesse mercado de alimentos são muito baixas. As lojas de varejo envolvem muita mão de obra, tem um retorno para a sociedade de empregos, o que o atacarejo não tem [no mesmo grau]. Mas é a lei da concorrência, é bom para o mercado porque as margens ficam menores. Mas a gente não vê positivamente, para o consumidor é somente o preço
Antônio Sales
secretário executivo da Acesu

Hoje, a Acesu conta com 325 empresas associadas, totalizando 530 lojas. O número de supermercados no Ceará deve ser ainda maior, já que nem todos os estabelecimentos notificam a associação. 

Foto: Fabiane de Paula

Antônio destaca que o varejo não deixou de crescer, mesmo com o aumento das lojas focadas em atacado. Ele aponta que os empresários buscam alternativas para manterem os preços competitivos, com compras coletivas entre redes e promoções em dias específicos. 

“Mais de 100 supermercados abriram no ano passado, tinha sido mais de 100 no ano anterior. É um mercado que cresce muito, tem muito investimento. De lojas que já existem abrindo novas lojas e novos nomes”, coloca. 

Espaço para todos 

Enquanto o atacarejo se mostra como uma opção econômica, os supermercados seguem oferecendo comodidade para o cliente. Alex Araújo percebe que não há exatamente uma tendência de transformação dos supermercados em lojas Cash & Carry, mas que ambas devem coexistir, dando poder de escolha ao consumidor. 

O consumidor hoje tem mais alternativas, principalmente nesse momento de inflação elevada. Para o consumidor isso é bom porque tem uma oferta maior que traz para ele algumas vantagens. A tendência é que essa competição, que é saudável para o sistema, permaneça
Alex Araújo
economista

Daniel Asp compara os atacarejos aos hipermercados, que tinham papel de abastecimento nos períodos de hiperinflação, mas aos poucos perderam espaço. Segundo ele, o mesmo não deve acontecer com os supermercados. 

“Não é um risco porque as próprias redes estão liderando esse movimento de expansão, se fossem outras redes poderia ser uma ameaça. Mas os supermercados perceberam que para oferecer o melhor preço, precisam de um modelo de loja que tenha um custo mais baixo”, analisa. 

Supermercados buscam alternativas para oferecer preços mais baixos

Redes supermercadistas já estabelecidas têm buscado formas de oferecer preços competitivos, seja abrindo bandeiras de atacarejo ou outras marcas voltadas para descontos.

O Supermercado Lagoa lançou a bandeira de atacarejo Atacadão Lag em 2019 e já possui 3 lojas, localizadas em Iguatu, Maracanaú e Fortaleza, no bairro Modubim. Em nota, a assessoria não dispensou a opção de tornar lojas do Supermercado Lagoa em atacarejo.

"Estamos sempre fazendo estudos e avaliando o mercado e poderemos migrar alguma outra loja para atacarejo conforme a demanda dos clientes", aponta.

O Super Frangolândia também apostou no atacarejo para oferecer preços mais baixos, criando a marca Mega Atacadista, com uma loja na Messejana. De acordo com a assessoria, nenhuma loja do Frangolândia migrará para o modelo e há previsão de abertura de outra loja do Mega Atacadista no primeiro semestre de 2023.

Ainda sem nenhuma loja no atacarejo, o Centerbox também pretende ampliar a operação para esse segmento. A gerente de marketing do supermercado, Edilene Cavalcante, adiantou que a empresa abrirá um atacarejo chamado Gerardo's. A primeira loja está prevista para setembro, no bairro Granja Lisboa. 

O Mercadinhos São Luiz optou por criar uma rede de descontos, o Mercadão São Luiz. O modelo surgiu inicialmente no Crato, em 2016, e hoje já são duas lojas em Fortaleza, uma na Avenida Engenheiro Alberto Sá (unidade Dunas) e outra no Presidente Kennedy, instalada em um shopping center. A unidade Dunas migrou do modelo convencional de supermercado para a loja de descontos.

"Não existe uma tendência de migração, existe uma tendência de expandir a marca Mercadão. Transformamos a loja das Dunas porque é uma região competitiva para o mercadinho, estamos ofertando ao cliente dois modelos de negócio", destaca o CEO do Mercadinhos São Luiz, Severino Neto.

Segundo ele, a terceira loja do Mercadão em Fortaleza será lançada no segundo semestre de 2023, na região do Seis Bocas. "Para esse ano essa loja está prevista e estamos com planos de expansão bem agressivo, de duas a três lojas por ano", aponta.

O Pinheiro também abriu recentemente uma marca de descontos. A primeira loja do Pinheiro Ofertão foi inaugurada na última quarta-feira (29) em Quixeramobim.

Até o final de 2022, a empresa completará às 20 operações, com as inaugurações de mais uma nova loja em Aracati/CE, no dia 5/7; no bairro Porto das Dunas (Aquiraz/CE) e em Maranguape/CE, gerando no total da rede mais de 2.800 empregos diretos. 

 

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