Alimentos pressionam inflação e induzem maior endividamento na Capital

Em Fortaleza, consumidores utilizaram o crédito sobretudo para pagar despesas de alimentação (46,1%) em setembro. Enquanto isso, prévia da inflação oficial divulgada pelo IBGE mostra alta de 1,26% nesses produtos

Legenda: Além do arroz, itens como o tomate, cebola e o óleo de soja apresentaram significativa alta
Foto: Fabiane de Paula

Os itens de alimentação já protagonizam há alguns anos as compras à prazo feitas pelo consumidor de Fortaleza, mas a constatação, presente nas pesquisas da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Ceará (Fecomércio-CE) ganha outro tom quando colocada diante de outra importante estatística: os preços dos alimentos encareceram em 2020, pressionando a inflação de Fortaleza.

Divulgada ontem (23) com os dados de setembro, a Pesquisa de Endividamento do Consumidor mostra que, em Fortaleza, o consumidor utilizou o crédito, sobretudo, para adquirir itens de alimentação (46,1%). A prévia da inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), cujos resultados foram também divulgados ontem, mas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta uma alta de 1,26% nos preços do grupo Alimentação e Bebidas em Fortaleza.

O economista e professor do curso de Economia da Universidade de Fortaleza (Unifor), Allisson Martins, contextualiza que a inflação afeta negativamente a atividade econômica, pressionando os custos dos empresários e o orçamento das famílias, resultando na perda do poder de compra. "Os dados recentes de inflação preocupam, pois a dinâmica recente da elevação de preços se concentram fundamentalmente no grupo de itens de 'Alimentação e Bebidas', sobretudo por ser o de maior peso da cesta de produtos", ressalta.

Ele destaca os expressivos aumentos de produtos importantes para a alimentação do cearense. Além do arroz, ele pontua que itens como o tomate, cebola e o óleo de soja também apresentam significativa alta nos preços em 2020. "O cenário adverso do mercado de trabalho, o fluxo da renda afetada pela pandemia e a inflação, sobretudo de alimentos e bebidas, devem, infelizmente, elevar o aumento do nível endividamento das famílias", lamenta o economista.

O presidente do Instituto Brasileiro dos Executivos de Finanças no Ceará (Ibef-CE), Luiz Antônio Trotta Miranda, avalia que inflação nos últimos meses é fruto de um descompasso entre oferta e demanda. "A demanda está aumentando e a indústria não está respondendo com tanta velocidade. Isso gera uma pressão inflacionária. O que temos visto no setor de alimentos é muito ruim, principalmente para a camada de renda mais baixa", detalha.

Ele associa a alta nos preços dos alimentos à pressão cambial, que favorece as exportações e tem levado os produtores de alimentos a optarem pelo mercado externo. "O mercado internacional está demandando muitos produtos. Obviamente, os produtores que já vinham trabalhando com uma margem baixa enxergam nisso uma recomposição da margem de lucro", explica o presidente do Ibef-CE.

Trotta corrobora que os produtos que protagonizam a alta nos preços dos alimentos são itens de difícil substituição e que com o desemprego amplificado pela pandemia e consequente perda de renda, as famílias normalmente acabam recorrendo ao crédito. "Temos visto mais pessoas sem emprego e perda de renda, além da redução do auxílio emergencial para R$ 300. Isso leva essas famílias, que já estavam com o orçamento bastante comprometido, a entrar em uma situação orçamentária doméstica ainda mais complicado, então eu diria que é preciso ter muito cuidado", alerta o presidente do Ibef-CE.

Para Martins, a instabilidade do momento dificulta uma projeção de como a inflação deve se comportar nos próximos meses. "O cenário é bastante desafiador, principalmente pelo comportamento volátil do câmbio, questões relacionadas a sazonalidade (entressafra), diminuição de área plantada, entre outros fatores macro e microeconômicos".

Juros altos

Trotta lembra ainda que, ao comprar alimentação no crédito - um produto que não é durável e que precisa ser reposto periodicamente -, as famílias ficam expostas às maiores taxas de juros praticadas. "Hoje, as famílias compram alimentos de forma parcelada, utilizam cartão ou crédito especial e a gente tem que lembrar que essas duas ferramentas possuem os juros mais altos do mercado. Isso também é muito preocupante e corrói o orçamento doméstico".

A diretora institucional da Fecomércio-CE, Cláudia Brilhante, endossa que as pessoas continuam cometendo o erro de adquirir alimentação com o cartão de crédito e que a dívida se torna uma bola de neve, o que acarreta em juros altíssimos. "As pessoas fazem supermercado com cartão de crédito. Aí elas compram no mínimo quatro vezes ao mês. Quando o mês termina, aquele gasto se junta às outras compras que o consumidor fez. Ele não consegue quitar a fatura, paga o valor mínimo e os juros são altíssimos. Se torna uma bola de neve que só vai crescendo", diz.

Ela orienta que o consumidor troque o hábito de ir três a quatro vezes por mês ao supermercado pelo hábito de ir uma vez a cada dois dias, porém sempre pagando à vista. "Vai comprar só dois quilos de feijão, dois quilos de arroz, mas que ele compre no dinheiro e evite fazer as compras no supermercado com cartão de crédito. Assim ele vai poder deixar o cartão de crédito apenas para aquelas compras maiores, com parcelas maiores, mas que caibam no orçamento", explica Cláudia.

Compras por impulso

A diretora institucional da Fecomércio-CE também reforça sobre o risco das compras por impulso. "É preciso se perguntar se a compra que eu vou fazer agora é uma necessidade ou um desejo. Se for uma necessidade, é importante ver a melhor maneira para não ficar endividado. Se for um desejo, é melhor deixar para comprar lá pra frente. Então é um trabalho totalmente interior", aponta.

Esse descontrole financeiro, aliado aos impactos provocados pela pandemia, contribuiu para que o endividamento de Fortaleza chegasse a 72,2% em setembro deste ano. O dado está 12,1 pontos percentuais acima do endividamento registrado em Fortaleza no mês de setembro de 2019 (60,1%), mas veio 2,1 pontos percentuais abaixo do mês anterior, agosto, quando a taxa era de 74,3%.

Boa parte dos consumidores possui dívidas longas. De acordo com a pesquisa, 37,3% estão comprometidos por um período de três meses a um ano e 36,5% possuem dívidas que comprometerão a renda por mais de um ano. Outros 26,3% responderam que possuem dívidas que comprometem a renda familiar pelos próximos três meses. O valor médio das dívidas da população de Fortaleza é R$ 1.555.

O porcentual de consumidores com dívidas em atraso subiu de 22,4% em agosto para 25,3% em setembro. Já o comprometimento da renda familiar caiu de 40% para 38% no período. A inadimplência, que é quando o atraso ultrapassa 90 dias, cresceu pelo segundo mês consecutivo. Em julho deste ano, a taxa estava em 9,3%. Cresceu para 10,5% em agosto e avançou novamente para 12,1% neste mês.

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