Alexandre Schwartsman: 'economia brasileira ainda vai sofrer muito em 2022'

Convidado do Diálogo Econômico, o ex-diretor do Banco Central comentou as perspectivas para o cenário econômico nacional e avaliou a atuação do BC no controle da pressão inflacionária

Escrito por Samuel Quintela, samuel.quintela@svm.com.br

Negócios
alexandre schwartsman
Legenda: Alexandre Schwartsman avalia que o BC demorou a atuar para controlar a pressão inflacionária
Foto: Claudio Belli/Valor

Apesar das sinalizações de recuperação econômica, o Brasil não deverá ter um ano tranquilo em 2022, com o País, considerando vários fatores e incluindo as eleições presidenciais, podendo registrar um encolhimento do Produto Interno Bruto (PIB).

A perspectiva foi apresentada pelo economista e ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central Alexandre Schwartsman, em entrevista exclusiva ao Sistema Verdes Mares.

Perguntado sobre o atual ministro da Economia, Schwarstman não poupou críticas, afirmando que Paulo Guedes poderia ser classificado como pior titular da Pasta "na história da República". O economista, no entanto, ponderou bastante a atuação do Banco Central durante períodos da crise gerada pelo novo coronavírus. 

Alexandre afirmou que o BC demorou a atuar para controlar a pressão inflacionária, mas que era uma decisão difícil, considerando o cenário econômico. 

O ex-diretor do Banco Central ainda discutiu, durante o Diálogo Econômico dessa semana, as expectativas relacionada à postura esperada para os candidatos à presidência no pleito de 2022. 

Confira a entrevista completa:

CONSIDERANDO A INFLAÇÃO NO PAÍS ATUALMENTE, QUE AVALIAÇÃO O SENHOR FAZ DO CENÁRIO NACIONAL? ESTAMOS EM UM MOMENTO MUITO COMPLICADO OU NÃO HÁ TANTOS PROBLEMAS EM COMPARAÇÃO COM O QUE SE TEM OBSERVADO NO RESTO DO MUNDO?

O comentário do Fábio Faria no Twitter foi de um cretinismo a toda prova. A inflação brasileira pouco mais do dobrou e em outros lugares chegou a triplicar. Só que em outros lugares ela estava baixinha e continuou baixa, então como se dizer que quem tinha 0,1% e foi pra 0,3% está pior quem tinha 5% e hoje tem 10% de inflação. Obviamente que tem 5% era pior antes e continua pior. É um exemplo de falta de honestidade no debate. 

Mas nossa inflação está complicada, é uma das mais altas do mundo e se tem alguns casos muito complicados, como Argentina e Venezuela, mas quem está olhando essa faixa de dois dígitos temos um problema que é complicado e o próprio Banco Central reconhece que é complicado. Obviamente eles não compartilham da opinião do ministro da comunicação, só que o Roberto Campos Neto entende um pouquinho mais do problema. E eu tenho certa dificuldade de entender sobre o que o ministro das comunicações entende.

SOBRE A ATUAÇÃO DO BANCO CENTRAL PARA CONTROLAR A INFLAÇÃO, O SENHOR CONCORDA COM AS ESTRATÉGIAS UTILIZADAS RECENTEMENTE, CONSIDERANDO AS ÚLTIMAS ATUALIZAÇÕES DA TAXA DE JUROS? SERIA POSSÍVEL AGIR DE OUTRAS FORMAS?

A gente tem um problema do lado das contas públicas, mas isso não é domínio do Banco Central, ele não determina o que acontece com o volume de gastos. Isso é algo do Ministério da Economia. Eu acho que, sim, o Banco Central está agindo de forma correta.

Há uma discussão do Banco Central ter entrado atrasado no jogo em retrospecto, e me parece que ele entrou, de fato, atrasado, mas eu teria entrado atrasado também porque compartilho da mesma visão.

O erro que eles cometeram, eu cometeria também, até porque não era uma decisão tranquila, mas de lá para cá o Branco Central tem feito a coisa certa. 

Acho que há uma visão equivocada de que o Banco Central, aumentando os juros, não vai ter nenhum impacto sobre a alta da gasolina, mas isso já aconteceu. Nenhum aumento da taxa de juros tem a possibilidade de mudar a inflação que já aconteceu.

O Banco Central não está lutando contra os choques que já aconteceram, ele está lutando contra a perpetuação desses choques, que é a inflação de 2022. E aí, eu acredito que uma política monetária é bastante eficaz. Seria mais eficaz se tivesse um programa de reformas, se estivéssemos controlando gastos, mas 'como não tem tu, vai tu mesmo'.

EM RELAÇÃO A 2022, CONSIDERANDO ATÉ AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS. PODEMOS TER UM ANO DE RECUPERAÇÃO OU SERÁ UM PERÍODO COMPLEXO PARA A ECONOMIA? 

Eu acho que a economia brasileira vai sofrer muito em 2022. A gente já tem cenários indicando isso, temos observando os indicadores de atividade perdendo força e o efeito do juro se materializa com mais vigor em 2022. É um ano que a gente contempla uma possibilidade concreta de encolhimento da economia brasileira.

Não será comparável ao que vimos em 2020, que foi um encolhimento grande, mas podemos ter uma queda de 0,5% do PIB e talvez piore um pouco dependendo de como for a turbulência política. 

Não temos um ano de recuperação pela frente. Temos um ano de tentar colocar a casa inflacionária em ordem depois do descontrole de 2021.

O QUE PODERIA SER FEITO PARA CONTROLAR ESSA SITUAÇÃO? O PAÍS TEM DISCUTIDO MUITO A QUESTÃO DAS REFORMAS, MAS O LEGISLATIVO TEM APRESENTADO RESISTÊNCIA EM APROVAR MUDANÇAS SISTEMÁTICAS EM ANOS ELEITORAIS. MAS AS REFORMAS SÃO UMA PARTE DA SOLUÇÃO? 

As reformas têm efeitos que só vão se materializar alguns anos na frente. Não quer dizer que não possa ajudar agora porque se você está fazendo essas mudanças, estamos sinalizando algo para o futuro que acaba moderando as expectativas e de que o país está resolvendo seus problemas.

Mas acho que vai ser muito difícil que qualquer reforma de peso seja aprovada em 2022 então, a gente vai ter de esperar o resultado da eleição e se as pessoas que estão engajadas agora no processo tem ou não comprometimento com algum grau de reforma para melhorar as coisas para frente.

Se algum candidato parecer muito engajado nas reformas e, ao mesmo tempo, tenha chance eleitoral, isso pode ajudar. Mas, se não houver, podemos passar por problemas. 

O EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL ARMÍNIO FRAGA COMENTOU RECENTEMENTE QUE TER CANDIDATOS DISCUTINDO ABERTAMENTE ESSES PONTOS DA ECONOMIA SERIA IMPORTANTE PARA O DEBATE ECONÔMICO NO PAÍS EM 2022. O SENHOR CONCORDA COM A AFIRMAÇÃO? 

Falar todo mundo fala. Há um histórico do que cada um fez em cada momento e isso pesa. Mas certamente a transparência no que diz respeito ao programa eleitoral é importante.

Chega de estelionato eleitoral. A gente cansou de ver pessoas eleitas com um discurso para depois dar um triplo mortal carpado para adotar um outro tipo de política. Então a transparência é importante, assim como o histórico de cada um. 

QUAL A AVALIAÇÃO DO SENHOR SOBRE O DESEMPENHO DO MINISTRO PAULO GUEDES, CONSIDERANDO OS ÚLTIMOS RESULTADOS DO PRODUTO INTERNO BRUTO E O RECENTE ATRITO COM O FMI, QUE ANUNCIOU UMA SAÍDA DO PAÍS? O MERCADO TINHA MUITAS EXPECTATIVAS EM RELAÇÃO AO NOME DELE, MAS AS COISAS PARECEM TER MUDADO. 

Ao meu favor eu posso dizer que nunca comprei o nome do Paulo Guedes, sempre achei que o sujeito era um vendedor de terreno na lua e o comportamento dele como ministro só reforça essa noção. Foi um péssimo ministro.

Ele perdeu a chance de fazer a reforma tributária, não por uma questão técnica, mas basicamente por ego. A briga dele com o Fundo Monetário Internacional também é uma retaliação ao fato de que o Ilan Goldfajn, que está indo para o cargo mais alto que um brasileiro já teve na hierarquia do FMI, sendo presidente do hemisfério ocidental, fez críticas, como eu também faço, à condução de política econômica. 

Ele tem uma dificuldade muito grande de conviver com o contraditório. O ministro Paulo Guedes só ouve uma pessoa, que é o próprio ministro Paulo Guedes. Quem vai conversar com ele vai para um monólogo, não é um diálogo, em que ele se auto elogia constantemente.

E se ele não prestar atenção nas críticas vai ser difícil corrigir o rumo, e o resultado está aí, temos um país que, pelos indicadores do Banco Central, tem uma economia encolhendo e uma inflação alta e problemas sérios que a gente não tratou. 

A avaliação dele é muito ruim. Ele consegue ser pior que o Guido Mantega, que tinha sido o pior ministro da Fazenda da história da República. Quem vai à sala do conselho monetário nacional vê os retratos de todos os ministros da Fazenda e você e se pergunta "como a gente sobreviveu?" porque tem muita gente muito ruim e o Paulo Guedes consegue ser o pior de todos que estão naquela sala. 

O SENHOR CONCORDA COM A AVALIAÇÃO DE QUE O BRASIL VIVEU UM CENÁRIO DE ESTAGFLAÇÃO NOS ÚLTIMOS ANOS? E CONSIDERANDO A SITUAÇÃO DO PAÍS, ACREDITA QUE PODEMOS ENTRAR EM UM CENÁRIO DE CONVULSÃO SOCIAL OU UMA CRISE MAIOR SE OS INDICADORES CONTINUAREM PIORANDO?

A gente passou por isso em 2013 já, e desde lá existe uma insatisfação no País que não conseguimos compreender a extensão. Se o País vai passar por uma convulsão social, eu não tenho elementos para dizer. Mas o Chile não tinha uma economia que ia mal quando passou por isso. Eles tinham uma economia que ia bem, mas que não tratou que assuntos que precisavam ser tocados. O risco está sempre presente, mas qual será o catalisador eu não faço ideia. 

Sobre a estagflação, eu acho que de certa forma vamos ver isso na segunda metade desse ano, em um caso clássico, porque a economia parou de crescer e vimos uma inflação que acelerou.

Aí, sim, isso é resultado do descolamento das expectativas da inflação em relação à meta. Sobre o ano passado é difícil dizer o que aquilo era. Houve uma recessão, mas a inflação, no primeiro momento, despencou e só subiu no final do ano por uma questão que parecia ser pontual e foi livro-texto. A economia despencou e vimos vários índices de inflação registrando inflação negativa. O que está saindo disso é a segunda metade desse ano.