Mototaxistas de Fortaleza relatam impactos de aplicativos: “fazia 20 corridas por dia, hoje nem 10”

Viagens mais baratas em motos por app causam debandada de clientes, mas mototáxis se adaptam para sobreviver à queda na demanda; Ceará foi 1º do Brasil a usar o "táxi" sobre duas rodas

Escrito por Theyse Viana, theyse.viana@svm.com.br

Ceará
Ponto de mototáxi na Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza
Legenda: Mototaxista Gilmar Tavares posa no ponto onde atua há 2 décadas, na Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza
Foto: Thiago Gadelha

A comodidade de pegar o celular, abrir um aplicativo, inserir endereços e ter uma moto à disposição em 2 ou 3 minutos é boa, mas tem gerado impactos profundos na vida de quem trabalha com o transporte há décadas – como os mototaxistas de Fortaleza.

Mesmo com todas as mudanças na mobilidade da capital, Gilmar Tavares, 58, mototaxista há 25 anos, ainda elege “a parte financeira” como a principal transformação da profissão, dos anos 1990, quando foi regularizada, para cá. Ele estima que, nos últimos meses, o faturamento caiu pela metade.

Legenda: Gilmar Tavares, 58, é mototaxista há 25 anos e aponta impacto financeiro como o principal, desde a chegada de aplicativos de transporte
Foto: Thiago Gadelha

“Depois do Uber Moto, caíram muito, nossas corridas. A dificuldade financeira tá pra todo mundo, então as pessoas preferem o mais barato”, reconhece ele. “Eu fazia umas 20 corridas por dia, hoje faço umas 10. E é pra ser feliz”, brinca.

Muitas dessas 10 viagens restantes não levam passageiros na garupa, mas documentos e encomendas de “clientes fiéis, fixos”, cujo laço antigo com os mototaxistas permanece atado pela confiança.

Pra nós, o trânsito quanto pior, melhor. As pessoas vivem em função do relógio, apressadas. E a moto se sobressai. Se o trânsito fluísse bem, a gente perderia vantagem. A moto é a saída.
Gilmar Tavares
Mototaxista há 25 anos

Gilmar aposta que a resistência de alguns passageiros e clientes a migrar para corridas por aplicativo – e, por efeito, possibilitar que mototáxis continuem atuando – é a profissionalização do serviço. “Pra ser mototáxi, precisamos fazer 3 cursos, cumprir várias regras”, complementa.

Para se cadastrar como Uber Moto, é necessário ter 21 anos de idade ou mais e possuir carteira de habilitação de categoria “A” há pelo menos 2 anos, com a observação de que o piloto exerce atividade remunerada (EAR).

Para ser mototaxista em Fortaleza, os critérios são os mesmos, mas acrescentam a exigência de um curso para transporte de passageiros, do uso de colete padrão e de veículo que cumpra uma lista de exigências, segundo informou a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor).

2.182
mototaxistas estão cadastrados junto à Etufor. Em 2019, antes da pandemia, eram 2.209, 27 a mais.

“O sol nasceu pra todos”

No melhor estilo “se não pode com o inimigo, una-se a ele”, Renato Pereira, 38, largou o colete amarelo, estacionou os 17 anos como mototaxista e se cadastrou no app de corridas por moto. Desinstalou após exatos 20 minutos e 1 corrida.

Legenda: Renato, mototaxista há 17 anos, se cadastrou no app de corridas por moto e desinstalou após 1 corrida
Foto: Thiago Gadelha

“Peguei uma corrida da Praça do Coração de Jesus pra Barra do Ceará. Cheguei lá, deu R$ 8,60, e a mulher ainda pediu o troco. Tirando os 25% da Uber, sobraria o que? De mototáxi, daria R$ 15. Fiquei foi indignado”, desabafa.

Em contato com a reportagem, a Uber informou que “a taxa retida pela empresa varia de acordo com as circunstâncias, como horário de pico e demanda, mas que o parceiro sempre fica com a maior parte”. 

Não foi a primeira vez que Renato tentou se afastar do ponto de mototáxis numa das esquinas da Praça do Ferreira, no Centro. Chegou a passar 5 anos distante, como motorista na Siderúrgica do Pecém. Mas voltou, como se o destino sempre o devolvesse.

Eu sempre volto, porque essa profissão eu acho boa, faço por amor. Não é pelo dinheiro, que é muito pouco. Gosto de andar de moto, de conversar com as pessoas.
Renato Pereira
Mototaxista há 17 anos

Conversa vai e vem, arranjou “amizades, uma mulher, dois filhos e uma casa”. Na garupa da moto amarela, Renato conheceu a atual esposa, 13 anos atrás. É por isso que, embora a demanda caia, ele se abastece de esperança. “Vai melhorar, porque o brasileiro tem o pé firme”, sorri.

Até a concorrência, aliás, ele vê de forma positiva e empática. “O sol nasceu pra todos. Não adianta criticar os caras, eles precisam trabalhar. Muitos passageiros procuram preço menor, diminuiu nossa procura, mas estamos estáveis. Eles também sentem muito, porque o preço deles é muito baixo”, comenta.

“O futuro é a moto”

Legenda: Márcio Carneiro, que transporta passageiros na garupa da moto amarela há 26 dos 47 anos de vida
Foto: Thiago Gadelha

Para concorrer com o “preço baixo”, o mototaxista Márcio Carneiro, que exerce a profissão há 26 dos 47 anos de vida, congelou os valores cobrados. “A mesma diária de anos atrás eu faço agora. Mas o dinheiro tá desvalorizado, né?”, observa.

De lá para cá, o piloto falante, que já foi até Brasília para reivindicar melhorias para a categoria, assistiu a vários colegas deixarem a profissão – principalmente na pandemia. “Foram pra outras profissões, se aposentaram, venderam a moto e vaga…”, lista.

Tem que vir novas gerações pra suprir a demanda de mobilidade pública. E esse pessoal de aplicativo faz isso, né?
Márcio Carneiro
Mototaxista há 26 anos

No auge da pandemia, principalmente nos períodos de isolamento social rígido, o que “salvou” a categoria foi o auxílio emergencial. Não que Márcio tenha recebido o benefício, mas transportava diversos beneficiários das filas da Caixa Econômica para suas casas.

No ponto de mototáxis onde fica, o cantor de banda de forró nas horas vagas tinha a companhia de até 20 colegas. “Hoje em dia, encostam 5, no máximo 7 motos”, relata. Os preços das motos por app, para ele, são os que mais levam a clientela.

Da Praça do Ferreira à Praça da Imprensa, uma corrida na garupa de Márcio custaria R$ 20. Com alguma pechincha, ele daria um desconto, faria a R$ 15. A mesma viagem por aplicativo custaria, em média, R$ 7. De carro, os mesmos R$ 15 cobrados por Márcio.

Legenda: Pontos de mototáxi vazios são imagem frequente em Fortaleza, com exceção do Centro da cidade
Foto: Thiago Gadelha

Apesar de tudo, ele é enfático e profético: daqui a 5 anos, as motos vão dominar as ruas de Fortaleza. “Os carros vão precisar ficar em casa, nem toda placa vai poder circular. Porque a cidade não cresce, mas os carros sim. O futuro é a moto. Nossa mobilidade é fora de série.”

Ceará foi pioneiro em mototáxis no Brasil

Foto: Cid Barbosa
Foto: Arquivo/Diário do Nordeste
Legenda: Mototaxistas no Centro de Fortaleza em julho de 1996
Foto: André Lima
Foto: Arquivo/Diário do Nordeste
Legenda: Mototaxistas no Centro de Fortaleza em julho de 1996
Foto: André Lima
Foto: Arquivo/Diário do Nordeste

A primeira cidade do Brasil a instalar um sistema de transporte de passageiros utilizando motocicletas foi Crateús, no oeste cearense, a cerca de 350 km de Fortaleza. Já a capital cearense foi a primeira brasileira a regulamentar a atividade.

Por outro lado, foi Sobral que despontou como o primeiro município do País a regulamentar o mototáxi, em setembro de 1996, como o Diário do Nordeste noticiou. A tarifa única para o transporte na cidade, que contava com cerca de 452 veículos, era de R$ 1.

Em Fortaleza, a permissão por lei – promulgada pela Câmara Municipal – só veio em março de 1997, após oposição da Prefeitura e muitos conflitos entre a categoria e os taxistas, que relatavam uma redução de até 25% no faturamento. De moto, as corridas custavam cerca de R$ 3 fixos.