Estudos vão analisar presença de quatro vírus nos esgotos de Fortaleza

Análises já detectam o coronavírus nos despejos, ultimamente em alta concentração. Resultados devem orientar políticas públicas de prevenção

Escrito por Nícolas Paulino, nicolas.paulino@svm.com.br

Ceará
Legenda: Praia de Iracema é um dos pontos de monitoramento do esgoto em Fortaleza.
Foto: Nilton Alves

O trabalho de monitoramento da rede de esgoto de Fortaleza deve incluir a análise de mais três vírus causadores de doenças, além do Sars-Cov-2, agente da Covid-19. Adenovírus, influenza e poliomielite também entrarão no radar dos pesquisadores até o fim deste ano.

O coronavírus já é monitorado há cerca de um ano e meio através de um projeto da Universidade Federal do Ceará (UFC) com financiamento da Funcap e apoio da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP-CE).

Segundo os pesquisadores, as análises a partir da rede de esgoto permitem, a partir de um número reduzido de amostras, gerar uma ideia do comportamento geral da população e a evolução dos agentes transmissíveis.

José Xavier Neto, cientista chefe de saúde do Ceará, explica que o projeto está na fase de ajustes para que as operações iniciem ainda no segundo semestre.

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pontos amostrais são monitorados em Fortaleza: três estações de tratamento da Cagece no Conjunto Ceará, José Walter e Av. Leste-Oeste; cinco estações elevatórias de esgoto; canal da Av. Eduardo Girão e o Interceptor Oceânico, na Praia de Iracema.

André Bezerra, professor do Laboratório de Saneamento Ambiental (Labosan-UFC) e responsável pelo monitoramento, destaca que as análises têm menor custo e são relevantes pelo baixo índice de testagem brasileiro.

Os resultados do monitoramento são compartilhados com o Comitê Estadual de Enfrentamento à Pandemia do Coronavírus, que decide as principais linhas de ação para combater a disseminação da doença. 

José Xavier Neto afirma que, a partir da detecção de concentração máxima do agente patogênico nas análises em determinada área, a infecção leva aproximadamente 20 dias para se disseminar em outras regiões.

Prevenção de doenças

No caso do coronavírus, o cientista explica que há duas semanas a Capital está no “nível vermelho”, o mais alto de concentração viral nos esgotos. A tendência, segundo ele, é que na próxima semana o valor ainda deva ser grande.

Neste mês, amostras de esgotos detectaram o vírus que causa a poliomielite em alta concentração na rede de Londres. No Reino Unido, o agente patogênico era classificado como erradicado desde 2003. Os resultados devem orientar órgãos de saúde para evitar que o vírus volte a se alastrar.

Passo a passo do monitoramento

  • Coletas são realizadas semanalmente nos 10 pontos amostrais;
  • As amostras são enviadas para o Labosan, na UFC, onde é feita a filtração e a pré-concentração;
  • Membranas com o material resultante são enviadas para o Laboratório de Ecologia Microbiana e Molecular, que faz a extração de DNA e a análise molecular;
  • Os valores de concentração viral constam num mapa com distribuição no espaço e no tempo;
  • O mapa subsidia decisões do Comitê Estadual de Enfrentamento à Pandemia do Coronavírus.