De “bolas de fogo” a meteoritos: no Dia do Asteroide, relembre fenômenos vistos no céu do Ceará

Caso mais recente ocorreu em 2020, em Baturité, onde a população sentiu efeitos da queda de uma rocha espacial

Escrito por Theyse Viana, theyse.viana@svm.com.br

Ceará
Meteoro que cruzou o céu dos estados do Ceará, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco, em maio de 2021
Legenda: Meteoro que cruzou o céu dos estados do Ceará, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco, em maio de 2021
Foto: Marcelo Zurita / BRAMON / climaaovivo.com.br

A imensidão do Universo encanta a muitos que estão na Terra – o Ceará, por exemplo, coleciona episódios em que luzes e objetos vistos no céu despertaram a curiosidade da população. Hoje, Dia do Asteroide, o Diário do Nordeste relembra alguns desses episódios.

Antes, porém, é importante saber: observar e conhecer esses fenômenos deve ir além da curiosidade, como alerta Ednardo Rodrigues, professor de Astronomia e colaborador da Seara da Ciência da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Todos os dias a Terra é bombardeada por asteroides, mas se desintegram na atmosfera. É preciso monitorar esses objetos com antecipação, pra desenvolvermos tecnologias pra impedir o impacto, desviar, se necessário. A gente vem despertando a humanidade pra isso.
Ednardo Rodrigues
Professor de Astronomia

O Dia do Asteroide, então, como explica o professor, surgiu desde um episódio ocorrido na Sibéria, e se consolidou no sentido de promover a divulgação científica e incentivar estudos sobre o assunto – já que, segundo Ednardo, a colisão de uma rocha espacial maior com a Terra é possibilidade concreta.

“Em 1908, na Sibéria, um asteroide de 40 metros devastou uma área do tamanho de uma região metropolitana. Em 2003, houve outro evento, cuja onda de choque quebrou janelas. Aqui no Ceará, em 2020, houve uma onda de choque bastante expressiva na Serra de Baturité”, relembra o professor de Astronomia.

Asteroide, meteoro ou meteorito?

Sim, há diferença entre os três, como simplfica uma publicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG):

  • Asteroide: pedaço de rocha orbitando o sol; difere dos meteoros pelo tamanho e distância da superfície;
  • Meteoro: quanto asteroides colidem entre si, pedaços se soltam e, ao entrarem na atmosfera da Terra, incendeiam - formando os meteoros;
  • Meteoritos: fragmentos de meteoros que se desintegram e caem na superfície terreste.

“Bomba do Iraque” no céu do Ceará

Um dos episódios mais “famosos” que riscaram o céu cearense, recobra Ednardo, foi a queda de um meteorito de 15 a 20cm no município de Campos Sales, no sul do Estado. O professor analisa que “possivelmente, era um asteroide, maior que 1 metro, mas se desintegrou”.

O fenômeno ocorreu em fevereiro de 1991, como registrado em reportagem do Diário do Nordeste no dia 13 daquele mês, resgatada pela equipe de pesquisa do Sistema Verdes Mares.

“A pedra de cor preta, pesando 3kg, foi encontrada no sítio Poço Redondo, depois de provocar uma grande explosão que foi ouvida num raio de 50km”.

“O agricultor Ademar Antonio da Silva estava deitado e foi acordado pela explosão. Correndo para o quintal, olhou para cima e viu uma bola de fogo no espaço, que se dividiu em vários pontos luminosos. Duas pedras caíram perto de sua casa”, mostra o texto.

Meteorito de Campos Sales
Foto: Reprodução/Diário do Nordeste

O fenômeno, identificado depois como queda de um meteorito, chegou a ser descrito pela população da época como “bomba envenenada do Iraque” ou “um míssil da Guerra do Golfo Pérsico que perdeu a rota” e veio parar em Campos Sales, no Ceará.

“Bola de fogo cor de sangue de boi”

Em 1984, sete anos antes de um meteorito cair “nas mãos” de um cearense, outra série de fenômenos astronômicos agitava os humores em diferentes municípios do interior do Estado. 

“Bolas de fogo riscando o céu de Morro Branco; objetos não identificados vistos em Quixadá; astrônomos investigando um fato curioso, ‘carneirinho’, que se repete em Jaguaribe”.

Em matéria do DN de novembro daquele ano, uma cearense nomeada apenas como “Dona Mirtes” descreveu a passagem de “uma grande bola de fogo, meio achatada mas não oval, cor de sangue de boi” iluminando o céu de Morro Branco. “Uma coisa lindíssima”, ela disse.

bola de fogo morro branco
Foto: Reprodução/Diário do Nordeste

Em outro ponto do Estado, “quase no mesmo instante, um casal que se dirigia de Fortaleza para Quixadá teve que parar o carro no meio da estrada a fim de verificar um objeto brilhante que se deslocava no céu a uma velocidade impressionante”.

O fenômeno, porém, foi explicado por astrônomos cearenses, à época: se tratava de um bólide, meteorito de grandes dimensões que atravessa a atmosfera e pode deixar rastros luminosos.

Meteorito em Baturité

Numa manhã de sábado, dia 10 de outubro de 2020, os moradores de Baturité, Redenção, Pacoti, Mulungu, Palmácia e Guaramiranga, cidades da região serrana cearense, foram surpreendidos com “um forte estrondo”, causado pela queda de um meteorito.

O objeto entrou na atmosfera da Terra justamente sobre o céu do Ceará, e era uma rocha espacial de 500 kg e cerca de 70 cm de diâmetro, que viajava a mais de 100 mil km/h, segundo informações da Rede Brasileira de Monitoramento de Meteoros (Bramon).

Na ocasião, Marcelo Zurita, diretor-técnico da Bramon, explicou que a queda de rochas espaciais na Terra é comum, mas é raro que cheguem com uma velocidade tão alta como a do Ceará. Isso só acontece, no mundo inteiro, a cada duas semanas.

‘Asteroide Day’

Nesta quinta-feira (30), a Seara da Ciência da UFC, em parceria com a Asteroid Foundation, realizará o Asteroid Day 2022, evento de divulgação científica com ênfase na disseminação da Astronomia e Matemática, que utiliza asteróides como objeto de estudo. 

A programação do evento inclui palestras sobre exploração e descoberta de asteroides, além da exposição de meteoritos, maquetes espaciais, telescópios históricos e observação astronômica.