Conheça a história de Tatajuba, antiga vila que desapareceu sob dunas no CE

Moradores da área passaram a migrar para diversas praias de Camocim e Jericoacoara.

Escrito por
Geovana Almeida* geovana.almeida@svm.com.br
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Legenda: Dunas, lagoas e mangues formam uma paisagem única na Tatajuba.
Foto: Rodrigo Dias/Ascom Idace.

Conhecida hoje pelas paisagens moldadas pelo vento e areia, Tatajuba guarda uma história marcada por perda, resistência e transformação. No litoral oeste do Ceará, no município de Camocim, a antiga vila desapareceu gradualmente entre as décadas de 1970 e 1980, soterrada pelo avanço implacável das dunas móveis.

“A gente não venceu as areias, elas que venceram a gente”, relembra a marisqueira Delmira Silvestre, ao contar, à reportagem do Diário do Nordeste, o drama vivido por moradores que viram casas e memórias serem engolidas pela natureza. Décadas depois, a região voltou ao centro de debates, agora envolvendo disputas ambientais e interesses econômicos — mas afinal, que fenômenos explicam o desaparecimento de Tatajuba?

Segundo a Associação Comunitária de Moradores de Tatajuba (Acomota), não restaram imóveis, nem moradores na antiga vila de Tatajuba. Após o soterramento, as famílias migraram para diferentes direções e fundaram quatro novas vilas: São Francisco, Vila Nova, Nova Tatajuba e Baixa Tatajuba.

A vila de São Francisco é a mais próxima de onde um dia a antiga Tatajuba foi "engolida pela areia", situada a uma distância de aproximadamente 200 metros. As quatro localidades hoje integram o Distrito de Tatajuba, na cidade de Camocim, reconhecido pela Lei Municipal nº 1716/2025, de 12 de novembro de 2025.

A antiga vila soterrada foi construída em uma área com dunas migratórias, também chamadas de dunas móveis, ecossistemas constituídos por toneladas de sedimentos que atuam em constante movimento, influenciadas pela força dos ventos e do mar. 

Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Pedro Edson Moura explicou, em entrevista ao Diário do Nordeste, que o soterramento ocorrido entre 1970 e 1980 em Tatajuba "aconteceu em um piscar de olhos, do ponto de vista geológico. Agora, do ponto de vista do tempo histórico humano, ele não foi tão rápido assim". 

“O que aconteceu com a antiga vila foi natural e ocorreu pelo fato de ela estar situada em um vetor de circulação das dunas da região”
Pedro Edson Moura
Doutor em Geografia pela UFC

moradores da antiga tatajuba
Legenda: Na região intocada, cerca de 150 famílias criaram memórias, raízes e iniciaram uma luta silenciosa contra a natureza.
Foto: Arquivo pessoal.

Como está a área de Tatajuba hoje?

Atualmente, não há registros de "invasão" de areias nas quatro vilas que seja semelhante ao acontecido na antiga Tatajuba. O doutor em Geografia Pedro Edson pontuou ainda que não é possível dizer se o destino das novas vilas será igual ao da antiga. A única certeza é que o local é frágil, rico em biodiversidade e instável.

"Para entender se existe esse risco, nós precisaríamos de um robusto estudo de modelagem, com modelos matemáticos e físicos, para monitorar como essa dinâmica de sedimentos está ocorrendo hoje", destacou o especialista.

Os mais apegados às memórias do antigo local e fundadores das quatro vilas ainda sentem medo das dunas. Em janeiro deste ano, dona Delmira e outros moradores iniciaram uma plantação ao lado da maior duna da região. Com pinhão bravo e salsa-da-praia, eles tentam criar uma vegetação de "âncoras", constituindo raízes que ajudem a fixar a areia, prevenindo a erosão. 

Pedro Edson afirma que o mais interessante para a área seria a criação de uma unidade de conservação  que considere todas as dinâmicas naturais e humanas que acontecem na região.

Memórias da população de Tatajuba 

Segundo lembranças da população, os primeiros pescadores e marisqueiras chegaram a Tatajuba, a cerca de 380 quilômetros de Fortaleza, por volta de 1908. Aos poucos, casas de taipa, pequenas escolas e uma igreja foram construídas em uma das praias mais bonitas do Estado.

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Legenda: A igreja católica da vila foi a última construção a sumir na antiga Tatajuba.
Foto: Arquivo pessoal.

“No início eram poucas, mas foi aumentando e no final já tinha umas 150 casas na vila”, relembra dona Delmira. A moradora de 68 anos conta que as primeiras casas, na beira da praia, começaram a ser "engolidas" pelas dunas em 1970. Em entrevista ao Diário do Nordeste, ela relembra que enquanto os pescadores saíam para o mar, mulheres e crianças permaneciam no continente, tentando "desenterrar" as casas em sessões que aconteciam a cada seis horas.

Antes de dormir a gente colocava um lençol em cima da cama e contava oito minutos. Era o suficiente pro lençol pesar e a gente ter que jogar a areia pra fora
Dona Delmira
Nascida e criada na antiga Tatajuba

Famílias como a de Delmira "tentaram lutar contra a areia até o último minuto". Mas a vila um dia considerada maior que Jijoca de Jericoacoara virou um deserto, um "cemitério" de casas. Em 1980, o único local que restava da antiga Tatajuba era a igreja, que guardava uma imagem de São Francisco.

Com poucos recursos, os moradores começaram a migrar para diversas praias de Camocim e Jericoacoara, a cerca de 30 quilômetros de Tatajuba e para manter viva a ligação com as raízes, resgataram nas areias a antiga imagem de São Francisco, que foi renovada e usada para batizar a primeira igreja da Nova Tatajuba. 

Dona Delmira e o falecido marido moravam "depois da duna", onde hoje é a vila São Francisco — construída em cima das ruínas da antiga Tatajuba. A marisqueira permanece moradora de lá.

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Legenda: A antiga igreja soterrada e a imagem resgatada atualmente exposta na Igreja de São Francisco de Assis, na nova Tatajuba.
Foto: Arquivo pessoal.

Moradores esperam proteção ambiental

As quatro vilas fundadas pelos moradores da antiga Tatajuba integram um dos destinos turísticos mais procurados no Ceará. As "praias escondidas” da região são mundialmente conhecidas pela água cristalina, pelo kitesurf e pelas dunas.

Um dos representantes da Associação Comunitária de Moradores de Tatajuba disse ao Diário do Nordeste que em 2025, o Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará (Idace), com apoio de outras instituições, apresentou o projeto do Assentamento Estadual e Reserva de Desenvolvimento Sustentável da Planície Costeira de Tatajuba, que segue em discussão.

O superintendente do Idace, João Alfredo Telles, explicou que o projeto "tem a função de proteger aquele ecossistema, garantir as posses legítimas e trabalhar a criação de um assentamento estadual”. 

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Legenda: Audiência pública feita pelo IDACE no Centro de Artesanato da Tatajuba, em 2024.
Foto: Divulgação/Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará (IDACE).

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável, ou RDS, tem uma área total de 2.267 mil hectares — incluindo as quatro vilas da região, segundo o Atlas da reserva criado pelo Idace.

Segundo o gestor do Idace, com a criação do distrito pela Prefeitura, a implementação da RDS teria atrasado, pois a área inicialmente rural agora seria reconhecida de outra forma: como zona urbana e dependente do poder municipal de Camocim.

O superintendente do Idace aponta que áreas de dunas, manguezais, lagoas, gamboas e rios passaram a ser consideradas zonas urbanas, após a criação do distrito. Isso acaba interferindo, mas não impedindo a criação da RDS. A Prefeitura confirmou ter incluído esses ecossistemas na área do distrito, mas disse estar alinhada ao princípio de desenvolvimento sustentável.

Ainda segundo o superintendente, alguns moradores passaram a acreditar que "não poderiam mais ter barraquinhas na beira dos lagos ou que os pescadores não poderiam mais pescar, por exemplo", após a criação da reserva. Mas a RDS admite as atividades de pesca, de agricultura e de turismo, “desde que as áreas sensíveis estejam protegidas e que as normas ambientais sejam respeitadas”, aponta o especialista. Então, o turismo comunitário, a agricultura orgânica e a pesca artesanal serão respeitadas, garante João Alfredo.  

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Legenda: A nova Tatajuba.
Foto: Rodrigo Dias/Ascom Idace.

Em nota enviada ao Diário do Nordeste, a Prefeitura de Camocim afirma que "a criação do Distrito de Tatajuba decorre de uma reivindicação histórica da própria população local, que há anos pleiteia maior autonomia administrativa e melhor acesso a políticas públicas". A Lei Municipal Nº 1716/2025 de 2025 alterou a a Lei Municipal Nº 1163/11 de junho de 2011 e reorganizou o território de Camocim, criando o distrito de Tatajuba e estabelecendo novos limites para a zona urbana do Município. 

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O superintendente do Idace pontua que, caso seja aprovada, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável seria feita em parceira com o poder municipal. Atualmente, a minuta do decreto para a criação da RDS está em processo de análise pela Casa Civil do Governo do Estado. 

*Estagiária supervisionada pelas jornalistas Dahiana Araújo e Mariana Lazari.

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