Sim à vida: a arte como aliada no Setembro Amarelo

No mês dedicado à conscientização sobre a prevenção do suicídio, diferentes ações artísticas acontecem em Fortaleza para reforçar a importância de falar sobre o tema

Foto: ILUSTRAÇÃO: LINCOLN SOUZA

A informação pode vir de um filme, de uma performance ou de uma loa de maracatu. Às vezes, de forma direta; outras, nas entrelinhas. Ela só não pode é deixar de vir. O suicídio, um problema de saúde pública, que afeta 800 mil pessoas por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e 11 mil só no Brasil, está no centro das discussões no “Setembro Amarelo”. E, na tentativa de quebrar um tabu histórico, do “não falar sobre o tema”, iniciativas em Fortaleza destacam, por meio da arte, as possibilidades de prevenção. 

É importante que a gente fale sobre suicídio, é importante que a gente fale sobre fatores de risco, pesquisas, sinais que a pessoa dá, mas é muito importante também falar de vida, de como encontrar meios pra sair dessa situação, de como encontrar uma saída. E estamos tentando trazer esse lado com a arte”,  

explica Lucinaura Diógenes, fundadora e presidente do Instituto Bia Dote. Ela já sentiu a dor de perder uma filha por esse motivo, e encontrou, na criação de uma organização não-governamental de trabalho preventivo, uma maneira de confortar o coração dos outros e o seu. 

A exibição de “Preciso dizer que te amo”, do carioca Ariel Nobre, um documentário sobre o suicídio entre pessoas transexuais, foi uma das formas do Instituto introduzir a campanha oficial deste ano. “O filme aborda esse tema com muita sensibilidade. Traz a história do próprio Ariel, roteirista e ator, que teve ideação suicida e conseguiu ressignificar aquele sentimento em vida. As 150 pessoas que assistiram saíram emocionadas com a fala dele e da psicóloga Alessandra Xavier, que também abordou a questão do se perceber, perceber o outro, se amar”, recorda Lucinaura. 

“Estamos pensando também nesse foco como uma forma de desenvolver os sentimentos positivos. Nessa aproximação com as pessoas, de chegar junto, a gente vai percebendo como construir novos caminhos”, acredita a mãe de Bia. 

O palhaço e ator cearense Alysson Lemos também resolveu somar forças nesse propósito. Até o dia 26 deste mês, ele realizará, em parceria com o Instituto Bia Dote, a performance “Fôlego”, em diferentes feiras da Capital. A ação acontece desde 2017. Com dois banquinhos e 500 balões amarelos por encher, Alysson para em meio a grandes aglomerações de pessoas, disposto a interagir com quem se dispõe a falar sobre qualquer coisa, inclusive sobre uma frequente “falta de ar”. 

Legenda: Na performance "Fôlego", Alysson Lemos compartilha sopros de vida em lugares públicos da cidade
Foto: FOTO: SILAS COSTA

“Muitas vezes surge o assunto da prevenção ao suicídio e da valorização da vida. Outras vezes não. Mas o próprio ato de parar dentro do contexto social que a gente vive, numa sociedade acelerada, para encher balão, uma coisa que aparentemente não leva a lugar nenhum, já é muito. Tem gente que fica 2h comigo”, conta Alysson. Se aqui falta fôlego, ali alguém pode ser sopro de vida, como autoexplica-se a performance. 

Música 

Também atentos a essas questões, os integrantes do Maracatu Solar apostaram numa loa sobre Obaluê - o orixá que trata das doenças e curas nas religiões afro - para apresentar no Carnaval 2020. O presidente do grupo, Pingo de Fortaleza, explica que não são poucos os que chegam na manifestação em busca de ajuda e encontram na música uma terapia para lidar com a saúde mental. “Por isso, nós resolvemos falar desse tema, porque vamos cantar nossos medos guardados, discutir, resgatar trabalhos que já existem nessa perspectiva desse cuidar. E achamos conveniente lançar nesse setembro, fortalecendo a campanha que trata dessa questão”. 

O compositor destaca a força evocada pela loa nesse sentido. “A letra deixa claro que acreditamos na arte como elemento fundamental pra superar esses momentos, com união, compartilhamento, congraçamento das relações pessoais, coletivas”. E mesmo sabendo que a solução para todos os problemas não está aí, Pingo defende a importância de se fazer algo, por mais simbólico que seja. 

Legenda: Em 2020, o Maracatu Solar vai para a avenida com uma loa sobre cura
Foto: FOTO: REPRODUÇÃO

“A mensagem que queremos transmitir está na letra: seguir, caminhar, viver, superar esse momento. E quando estiver em um momento delicado, procurar ajuda, procurar se abrir, estar em comunicação com as pessoas, porque essa comunicação vai de alguma forma ajudar. As pessoas não podem desistir de viver, de acreditar”, aponta o músico. 

Tratamento 

 A psicóloga clínica Luiza Braga confirma a premissa de que a arte é eficaz no tratamento desses casos. “É importante aliar o tratamento psiquiátrico e psicológico com outras atividades que a pessoa goste de realizar. Qualquer forma de expressão pode complementar o tratamento, e a arte é uma ótima forma de externar o que se está sentindo por dentro, de extravasar as emoções, se colocar e se expressar no mundo, sair do esconderijo”, analisa. 

Entre possíveis atividades, ela destaca a arteterapia, a biodança, a xilogravura, o grafite, o desenho e a escrita.Luiza reforça ainda a importância de se falar sobre o tema, associando a falta de informação a um problema.

A desinformação pode ser um gatilho, pois podemos achar que estamos sozinhos, que somos muito diferentes, que só nós sentimos essa dor, mas quando ela é difundida, é possível ver que outras pessoas estão ou passaram pela mesma situação e conseguiram superar. Se isolar ou deixar o tempo resolver é a pior forma de lidar com questões ligadas ao suicídio, pois é algo que pede uma solução rápida e, há solução”, explica. 

A psicóloga afirma que, caso a ideação suicida já tenha sido diagnosticada por profissionais especializados, é necessário que a pessoa realize um tratamento psiquiátrico e psicológico em conjunto. “É preciso trabalhar também com a família ou responsáveis que serão a rede de apoio dessa pessoa”, diz. E o que mais podemos fazer? “A nossa maior ajuda é ouvir sem julgar, mostrar que estamos ao lado deles”, conclui Luiza, estendendo a orientação a todos que lidam com casos semelhantes, independentemente do Setembro Amarelo. 

Como ajudar

Voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV) seguem uma abordagem centrada na pessoa e fazem algumas recomendações a quem lida com casos de ideação suicida:

  • Aproximar-se, mostrando que a pessoa não está sozinha;
  • Mostrar interesse no que ela tem a dizer;
  • Quem decide ajudar não deve se preocupar com o que vai falar. O importante é estar preparado para ouvir. Mas, em caso de diálogo, evitar frases como “isso passa”, “amanhã é outro dia”, “nada como um dia atrás do outro”, “você é mais forte do que isso”.

O CVV atende gratuitamente, 24h por dia, pelo telefone188. 

Fonte: Francival Pires, voluntário da CVV em Fortaleza há 24 anos

Serviço

Instituto Bia Dote. Aberto de segunda a sexta, de 8h às 18h, na Avenida Barão de Studart, 2360, Joaquim Távora. Contato: (85) 3264-2992 

Performance Fôlego, de Alysson Lemos. Dias 18, 20, 22 e 26 de setembro, sempre às 7h da manhã, nas feiras do Pici, Serrinha, Parangaba e Álvaro Weyne, respectivamente. 

Oficinas de batuque e dança no Maracatu Solar. Aos sábados, de 8h30 às 11h30 (iniciantes), e 14h30 às 17h (iniciados), na Avenida da Universidade, 2333, Benfica. Gratuito. Contato: (85) 3226-1189 
 

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