"Só sei que nada sei". A milhares de anos, Sócrates já apontava para a necessidade de continuarmos sempre questionando o que supomos saber. Paradoxo. Esse é o termo que nos põe diante de um contrassenso que desafia a lógica. E como paradoxos são instigantes. Desafiam nossa mente a pensar "fora da caixa" para desatar os nós de mistérios aparentemente impossíveis.
É essa a matéria-prima de "Corpos" (Bodies), série britânica da Netflix, feita sob medida para fãs de ficção-científica e suspense ávidos por tramas que fogem à obviedade, a exemplo de "Dark". Desta vez, no entanto, o sci-fi não domina a cena. Ele cede espaço a uma caçada policial, um suspense no melhor estilo "Sherlock Holmes", onde cada pista faz diferença.
Na série, há apenas um cadáver, um assassinato a ser resolvido. A questão é que o quebra-cabeças só pode ser montado se quatro pessoas, em quatro épocas diferentes, se unirem para encontrar as pistas e chegar à solução.
Tudo começa quando o corpo de um homem branco, jovem é achado nu, com um tiro no olho direito, um corte na testa, tatuagem no pulso e nenhuma identificação. Quem é, de onde veio, como foi morto, por quem e por que?
Um corpo, muitos mistérios
Um bom detetive poderia até resolver o mistério. A questão é que o mesmo corpo é achado por quatro investigadores, em diferentes momentos da história: 2023, 1941, 1890 e por fim, 2053. O mesmo homem, as mesmas condições, o mesmo lugar de Londres: a periferia de Whitechapel - uma referência direta a "Jack, o estripador", já que esse era o ambiente onde o assassino em série mais famoso da Grã-Bretanha retalhava as suas vítimas.
A trama que tem o tempo/espaço como maior coadjunvante, é contada em etapas. Começa em 2023, quando a policial Amaka Okafor (Shahara Hasan) é designada a trabalhar na contenção de dois protestos que podem resultar em confronto entre extrema-esquerda e ultra-direita, uma referência clara às polarizações que vêm tomando conta da Europa atualmente.
Um movimento suspeito e ela é atraída para um beco em Whitechapel. Minutos depois, o corpo aparece no chão, nu e sem a mínima pista do assassino. Levado pela Polícia, a autopsia do corpo mostra detalhes que não fazem sentido. Assim, a detetive começa quase do zero.
Corte para um salto no tempo. Um salto para trás.
Noir
Chegamos a Londres de 1941, em plena Segunda Guerra. Na delegacia central, Charles Whiteman (Jacob Fortune-Lloyd) é um detetive corrupto que segue ordens anônimas que chegam por telefone. Uma dessas ordens manda que ele "despache" uma certa carga: justamente o corpo do homem misterioso, nu, baleado no olho e com uma marca no pulso. O mesmo! Impossível?
O caos dos bombardeios ajuda o policial a disfaçar sua presença no local suspeito, mas Charles é flagrado por um colega. Uma órfã judia também vê tudo e ameaça extorqui-lo. Sem saber, a menina entra no meio de uma trama muito maior e tem a vida ameaçada pelos mandantes do ato criminoso. Sua sorte é que o vilão se afeiçoa à jovem.
Saltos no tempo
Mais um salto no calendário. Em 1890, o policial Alfred Hillinghead (Kyle Soller), patrulha a parte mais suja e pobre da cidade, quando acaba encontrando... o corpo, o mesmo!
Um jovem repórter flagra o momento e fotografa. As imagens revelam um reflexo na janela do beco. Eis mais um caso a ser resolvido. Vários acontecimentos se desenrolam até que ele descubra que o homem do reflexo é ninguém menos que um dos mais ricos cidadãos de Londres.
Futuro
O último dos "corpos", é achado em 2053 por Iris Maplewood (Shira Haas). Desta vez, Londres surge como uma cidade tecnológiga, rica, desenvolvida, porém sob o domínio de um governo totalitarista.
Tudo o que se sabe, é que no passado, uma bomba dizimou mais dois milhões de pessoas e, das cinzas, uma metrópole futurista foi erquida por um líder que repete o mesmo bordão: "saiba que você é amado".
Tanta informação, parece resultar em um nó impossível de desatar. Acredite, é justamente essa sequência de mistérios sem explicação natural que torna a série um ótimo entretenimento.
A conspiração que permeia o caso e se estende por décadas vai exigir que pistas dos quatro investigadores sejam deixadas e ligadas apesar do tempo que as separa.
Alucinante
Embora tenha composições com ares de filme de época, a série é baseada na história em quadrinhos de Si Spencer cheia de reviravoltas alucinantes.
As conexões que têm um homem morto como elo levam a alguém vivo até demais: Elias Mannix/Julian Harkar (Stephen Graham), personagem central e duplamente sinistro. Mais adiante, outro homem dará sentido a tudo: Gabriel Defoe (Tom Mothersdale).
Aos poucos, o impossível ganha explicações científicas e deixa a trama mais emocionante. As idas e vindas ao passado e ao futuro revelam cenários e personagens únicos, com dramas pessoais que cabem perfeitamente em qualquer momento da história.
Mesmo já tendo sua base formatada em uma HQ, a série inova com seus diálogos inteligentes e suas ambientações perfeitas. Destaque para década de 1940, no melhor estilo "noir". Um show de fotografia para ninguém botar defeito.
A direção de Marco Kreuzpaintner é segura e explora ao máximo o talento dos atores. Mesmo os coajunvantes ganham chance de brilhar. Mas talvez seu maior feito seja a capacidade de fazer histórias e arcos se encaixarem de forma fascinante. Vale frisar que, para curtir de verdade, é imprescindível ter foco. No fim, cada detalhe conta para desvendar o mistério.