Série 'Corpos', da Netflix, mistura ficção e suspense policial numa trama alucinante

Para resolver um mistério, quatro detetives, em diferentes momentos da história, precisam deter uma conspiração que se estende por mais de 150 anos

Escrito por
Marlyana Lima marlyana.lima@svm.com.br

"Só sei que nada sei". A milhares de anos, Sócrates já apontava para a necessidade de continuarmos sempre questionando o que supomos saber. Paradoxo. Esse é o termo que nos põe diante de um contrassenso que desafia a lógica. E como paradoxos são instigantes. Desafiam nossa mente a pensar "fora da caixa" para desatar os nós de mistérios aparentemente impossíveis.

É essa a matéria-prima de "Corpos" (Bodies), série britânica da Netflix, feita sob medida para fãs de ficção-científica e suspense ávidos por tramas que fogem à obviedade, a exemplo de "Dark". Desta vez, no entanto, o sci-fi não domina a cena. Ele cede espaço a uma caçada policial, um suspense no melhor estilo "Sherlock Holmes", onde cada pista faz diferença.

Na série, há apenas um cadáver, um assassinato a ser resolvido. A questão é que o quebra-cabeças só pode ser montado se quatro pessoas, em quatro épocas diferentes, se unirem para encontrar as pistas e chegar à solução.

Tudo começa quando o corpo de um homem branco, jovem é achado nu, com um tiro no olho direito, um corte na testa, tatuagem no pulso e nenhuma identificação. Quem é, de onde veio, como foi morto, por quem e por que?

Um corpo, muitos mistérios

Imagem mostra uma policial negra assustada e atrás dela o corpo de um homem branco e nu caído no chão
Legenda: A trama começa em Londres, 2023, quando a policial Amaka Okafor (Shahara Hasan) encontra o corpo de um homem em um beco da cidade
Foto: Divulgação Netflix

Um bom detetive poderia até resolver o mistério. A questão é que o mesmo corpo é achado por quatro investigadores, em diferentes momentos da história: 2023, 1941, 1890 e por fim, 2053. O mesmo homem, as mesmas condições, o mesmo lugar de Londres: a periferia de Whitechapel - uma referência direta a "Jack, o estripador", já que esse era o ambiente onde o assassino em série mais famoso da Grã-Bretanha retalhava as suas vítimas.

A trama que tem o tempo/espaço como maior coadjunvante, é contada em etapas. Começa em 2023, quando a policial Amaka Okafor (Shahara Hasan) é designada a trabalhar na contenção de dois protestos que podem resultar em confronto entre extrema-esquerda e ultra-direita, uma referência clara às polarizações que vêm tomando conta da Europa atualmente.

Um movimento suspeito e ela é atraída para um beco em Whitechapel. Minutos depois, o corpo aparece no chão, nu e sem a mínima pista do assassino. Levado pela Polícia, a autopsia do corpo mostra detalhes que não fazem sentido. Assim, a detetive começa quase do zero.

Corte para um salto no tempo. Um salto para trás.

Noir

Imagem mostra um homem abaixado olhando para o corpo de um homem branco e nu caído no chão
Legenda: Em 1941, o mesmo fenômeno: o policial Charles Whiteman (Jacob Fortune-Lloyd) acha o corpo de um desconhecido
Foto: Divulgção/Netflix

Chegamos a Londres de 1941, em plena Segunda Guerra. Na delegacia central, Charles Whiteman (Jacob Fortune-Lloyd) é um detetive corrupto que segue ordens anônimas que chegam por telefone. Uma dessas ordens manda que ele "despache" uma certa carga: justamente o corpo do homem misterioso, nu, baleado no olho e com uma marca no pulso. O mesmo! Impossível?

O caos dos bombardeios ajuda o policial a disfaçar sua presença no local suspeito, mas Charles é flagrado por um colega. Uma órfã judia também vê tudo e ameaça extorqui-lo. Sem saber, a menina entra no meio de uma trama muito maior e tem a vida ameaçada pelos mandantes do ato criminoso. Sua sorte é que o vilão se afeiçoa à jovem.

Saltos no tempo

Um cavalheiro de chapeu e terno está abaixado no chão diante do corpo de um homem branco e nu
Legenda: Em 1890, o policial Alfred Hillinghead (Kyle Soller) é supreendido com o aparecimento de um corpo na parte pobre de Londres
Foto: Divulgação/Netflix

Mais um salto no calendário. Em 1890, o policial Alfred Hillinghead (Kyle Soller), patrulha a parte mais suja e pobre da cidade, quando acaba encontrando... o corpo, o mesmo! 
Um jovem repórter flagra o momento e fotografa. As imagens revelam um reflexo na janela do beco. Eis mais um caso a ser resolvido. Vários acontecimentos se desenrolam até que ele descubra que o homem do reflexo é ninguém menos que um dos mais ricos cidadãos de Londres.

Futuro

Uma mulher jovem encontra o corpo de um homem nu, deitado no chão
Legenda: O último dos "corpos" é achado em 2053 por Iris Maplewood, papel de Shira Haas
Foto: Divulgação/Netflix

O último dos "corpos", é achado em 2053 por Iris Maplewood (Shira Haas). Desta vez, Londres surge como uma cidade tecnológiga, rica, desenvolvida, porém sob o domínio de um governo totalitarista.

Tudo o que se sabe, é que no passado, uma bomba dizimou mais dois milhões de pessoas e, das cinzas, uma metrópole futurista foi erquida por um líder que repete o mesmo bordão: "saiba que você é amado".

Tanta informação, parece resultar em um nó impossível de desatar.  Acredite, é justamente essa sequência de mistérios sem explicação natural que torna a série um ótimo entretenimento.

A conspiração que permeia o caso e se estende por décadas vai exigir que pistas dos quatro investigadores sejam deixadas e ligadas apesar do tempo que as separa.

Alucinante

imagens de revista em quadrinhos com cenas violentas
Legenda: A série é baseada na HQ homônima da DC Vertigo, lançada em 2015. A história foi escrita por Si Spencer e ilustrada por Dean Ormsto
Foto: Reprodução

Embora tenha composições com ares de filme de época, a série  é baseada na história em quadrinhos de Si Spencer cheia de reviravoltas alucinantes.

As conexões que têm um homem morto como elo levam a alguém vivo até demais: Elias Mannix/Julian Harkar (Stephen Graham), personagem central e duplamente sinistro. Mais adiante, outro homem dará sentido a tudo: Gabriel Defoe (Tom Mothersdale).

Aos poucos, o impossível ganha explicações científicas e deixa a trama mais emocionante. As idas e vindas ao passado e ao futuro revelam cenários e personagens únicos, com dramas pessoais que cabem perfeitamente em qualquer momento da história.

Mesmo já tendo sua base formatada em uma HQ, a série inova com seus diálogos inteligentes e suas ambientações perfeitas. Destaque para década de 1940, no melhor estilo "noir". Um show de fotografia para ninguém botar defeito.

A direção de Marco Kreuzpaintner é segura e explora ao máximo o talento dos atores. Mesmo os coajunvantes ganham chance de brilhar. Mas talvez seu maior feito seja a capacidade de fazer histórias e arcos se encaixarem de forma fascinante. Vale frisar que, para curtir de verdade, é imprescindível ter foco. No fim, cada detalhe conta para desvendar o mistério.