Saudade da praia e de culinária do litoral leva cearenses à cozinha dentro de casa

Enquanto o isolamento cresceu na Capital e em todo o Ceará, a saudade das comidas que só o litoral oferece ganhou o coração de muitas famílias

Legenda: Cozinhar frutos do mar em casa aproximou o Fortalezense do cheirinho da praia
Foto: Shutterstock

Quando sentir o cheirinho de sal, a textura da areia e até a quentura do sol ao som das ondas se tornaram momentos distantes, ainda que temporariamente, a saudade tomou de conta de muitos cearenses acostumados à vida próximos ao mar. Para muitos, o desejo das refeições capazes de remeter à ideia do litoral foram uma saída acolhedora no meio de incertezas e dias longos dentro de casa com o isolamento social. 

Preparar um peixe, tomar um caldo ou cozinhar um pirão, por exemplo, foram saídas encontradas por Dona Inês, que chegou a passar mais de quatro meses sem colocar os pés da praia, e quis trazer para a família o gostinho especial ao qual é apegada. 

Da relação “desde jovem” com os frutos do mar, a empresária elenca, sem dificuldade, algumas das comidas preferidas: caranguejo, peixe frito e camarão. Hoje, com 62 anos, eles ainda têm espaço garantido na mesa de casa e ganharam um toque próprio com o tempo. 

“O que eu sempre fiz foi caranguejo. Nas minhas memórias, eu sempre fui muito à praia e ficava com aquela vontade grande de comer depois, então acabou virando uma tradição fazer em casa aos domingos. Minha mãe também me dizia que meu pai me dava caranguejo desde pequenininha”, recorda com carinho.

Costume que, inclusive, não se perdeu com o tempo, faz questão de deixar claro. Nos últimos meses, ela conta, “foi o que mais se fez dentro de casa” e a reunião no ambiente ganhou o toque “praiano” entre as diferentes receitas, que puderam ser praticadas até mesmo em dias comuns da semana. “Toda quarta-feira eu fiz peixe com baião aqui e foi bom demais”, diz, aos risos, para relatar a rotina nas semanas que passaram. Morando junto com o filho, prestes a sair do lar para casar, ela conta que as refeições também foram uma forma de se conectar ainda mais por meio de um gosto em comum. 

Entre estados

Assim como Dona Inês, outro com preferência pelas comidas de beira da praia é Marcos Vinicius do Nascimento, de 57 anos. Para ele, cearense nascido em Morada Nova, a comida se configura como forma de expressão desde a época na qual deixou o Ceará para se aventurar profissionalmente no Rio de Janeiro. 

Atualmente, está de volta por aqui, mas não esquece que foi por lá onde desenvolveu o hábito de cozinhar, inicialmente por trabalho, logo depois por diversão. Se tiver um peixe no meio então, faz questão de se autointitular um verdadeiro especialista no assunto. “Modéstia à parte, todo mundo que come elogia e pede de novo”, garante sem pestanejar. 

O tempo como auxiliar de cozinha em terras cariocas, onde passou três anos e meio desde 2014, antes de vir para morar de vez na Praia da Caponga, parece ter sido essencial para a relação próxima com o ato de cozinhar. No entanto, também faz questão de ressaltar: só descobriu o gosto por tudo que vem do mar no estado onde nasceu. 

“Peixe e camarão foi aqui! Comecei com um amigo de Goiânia que cozinhava muito e fui aprendendo só de olhar, já que não podia aprender nas receitas por não saber ler”, explica, compartilhando ainda o fato de ter recebido um elogio desse mesmo amigo sobre os dotes culinários. 

A quarentena, para ele, também foi período de exercer esses conhecimentos, ofertando pratos para alguns hóspedes na Praia do Iguape, em Aquiraz, local onde trabalha como caseiro. Ainda que em casa tenha preparado pratos para a família, gosta de ser reconhecido como profissional. Durante esse período, por exemplo, ele conta ter cozinhado para seis hóspedes que estavam no local. 

“Eles ficaram esse tempo todo me perguntando o cardápio, se eu ia fazer minha lagosta. Pessoal pareceu gostar muito! Preparei até um peixe frito na farinha de rosca, uma das coisas que mais gosto de fazer”. 

Demanda

Se o isolamento levou realmente as pessoas a cozinharem mais no ambiente domiciliar, o serviço da loja e-commerce Japa da Ostra, especialista em produtos premium e itens como peixes, frutos do mar e carnes bovinas, sentiu o crescimento da demanda com a adaptação dos hábitos familiares em Fortaleza, por exemplo. Segundo o CEO da marca, Alexandre Reis, que trabalha em parceria com a esposa e sócia Kazumy Miura, o número de pedidos cresceu em 40% após o início do decreto de isolamento social na Capital cearense. 

Desde a criação do delivery, em 2018, o aumento na procura pelos produtos, ele expõe, aconteceu no fim do ano passado, entre os meses de novembro e dezembro. Exatamente por isso, a surpresa do aumento agora, mesmo em um período complicada para muitos, foi visto como algo positivo. 

“Não chegou nem a ter uma busca específica por produto, a demanda foi de tudo. Por isso mesmo a gente procura sempre trazer novidades para nossos clientes. Ainda assim, vendemos muito bem nesses tempos nosso Salmão, a Tilápia, o filé de Sirigado e os Camarões Rosa grandes”, diz. 

Com o intuito de aproximar esse novo público, inclusive, as redes sociais se tornaram uma nova porta para alcançar essas pessoas dispostas a aprender algo novo na cozinha. “O Instagram da Japa da Ostra tem bastante conteúdo. Se a pessoa quer aprender a preparar algo, temos lá algumas receitas, aulas curtas, etc. O acesso é pra todo mundo e tem muita informação por lá”, esclarece. O canal serve, então, como forma de estimular essa preparação caseira. 

Sabor do mar

Agora, mesmo com a reabertura de diversos setores econômicos em cidades cearenses, o hábito de fazer refeições pode até se manter para muita gente, ainda que em dias específicos da semana. Dona Inês é uma das que não deve abrir mão de lidar com as panelas para “matar a vontade” de uma boa peixada. 

“Gosto demais de cozinhar, gosto de ir a restaurantes, claro, mas minha comidinha fica com meu sabor. Eu saio, observo como é feito, quais os ingredientes. Já até estou pensando qual o peixe e leite de côco para meu próximo prato”, brinca. 

Enquanto isso, Marcos Vinicius faz convite por telefone para provar as iguarias, se diz especialista em qualquer tipo de arroz e já pensa até na lagosta que deverá cozinhar para os próximos hóspedes da casa na qual está responsável por administrar. 

“Às vezes sai caro comprar itens como camarão para fazer aqui dentro de casa para a família, mas quando me pedem no trabalho sempre apronto logo. Minha promessa para a próxima semana já ficou até acertada por lá no Iguape”, se diverte. 

Mesmo que para si ou para os outros, servir uma comida com sabor certeiro de água salgada parece ter virado prática carinhosa que, em quarentena ou não, deve se manter ainda por muito tempo.

Serviço

Japa da Ostra
Frutos do Mar, carnes nobres e produtos especiais. Atendimento por meio do e-commerce: japadaostra.com.br
(85) 98213.2555; (85) 98562.4163 ou (85) 3119.7077

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