Mostra de cinema exibe mais de 40 filmes dirigidos por mulheres árabes
2ª edição da Mostra de Cinema Árabe Feminino traz à tona a multiplicidade dessas cinematografias através de filmes realizados por mulheres em países como Egito, Líbano, Palestina, Sudão, entre outros
A casa da família da diretora palestina Emily Jacir, localizada na cidade de Belém na Palestina, foi bombardeada e saqueada pelo exército israelense nos últimos dias durante o conflito entre os dois países e que já matou mais de 200 pessoas. O espaço, que era um centro cultural, é objeto central do filme “Carta Para Um Amigo”, dirigido pela palestina, que aborda outros ataques de Israel à rua onde a residência está situada, resultado de uma guerra que perpassa gerações. A história se repete.
A produção faz parte seleção de mais de 40 filmes de diversos formatos e gêneros que compõem a 2ª edição da Mostra de Cinema Árabe Feminino, que em 2021 acontece de forma virtual e gratuita entre os dias 19 de maio a 27 de junho. Através de curtas, médias, longas-metragens, documentários e debates, o festival propõe trazer à tona a multiplicidade de experiências e produções de mulheres árabes.
A mostra busca, desde a sua primeira edição, criar fissuras nessas pré-concepções sobre os países árabes criadas pela sociedade ocidental, explica a curadora da mostra Carol Almeida. Ela lembra sobre a multiplicidade de vivências distintas dessas mulheres, as quais variam de acordo com a realidade de cada região e alerta para o imaginário de submissão que é geralmente associado à população feminina desses locais.
“São filmes que quebram com os preconceitos que se tem quando se fala de mundo árabe, mas particularmente quando se fala de mulheres no mundo árabe. Então você realizar um festival exibindo filmes somente de diretoras do mundo árabe já é quebrar com vários desses preconceitos porque muita gente pressupõe que há uma condição de passividade que na verdade não é tão bem estabelecida assim”, pontua a curadora.
“A condição de passividade da mulher também se dá no mundo ocidental, de forma muito gritante até.”
Outras narrativas
O filme selecionado para a abertura do festival é o “Silêncios do Palácio” da cineasta tunisiana Moufida Tlatli, a primeira mulher árabe a dirigir um longa-metragem, que faleceu este ano por decorrência da Covid-19. A produção de 1994 traz a história de mulheres de um palácio que questionam direitos e alguns deveres diante de uma sociedade patriarcal e machista.
A prática feminista já existe nesses territórios há muito mais tempo. Essas práticas existem, mas são silenciadas muitas vezes.
A constelação de produções cinematográficas presentes no festival, conforme se refere a curadora, também coloca a mulher árabe como um corpo político ativo dentro do front dos conflitos bélicos que envolvem os países árabes, contrariando a “expectativa do que deva ser um cinema filmado por mulheres do mundo árabe. São mulheres sempre muito corajosas e frontalmente opostas a um sistema de opressão”, acrescenta Carol.
Dentre as 40 produções selecionadas, 27 são inéditas no festival. Da seleção, destaca-se “Escritório de Espera”, “Barbès” e “Portão de Ceuta”, da marroquina Randa Maroufi, “Quando Coisas Acontecem”, de Oraib Toukan, “O Protesto Silencioso: Jerusalém 1929”, de Mahasen Nasser Eldin e “Você Já Matou Um Urso - ou Tornando-se Jamila”, dirigido por Marwa Arsanios.
Além de contar com a curadora Carol Almeida, o festival também possui curadoria de Analu Bambirra e da egípcia Alia Ayman. A 2° Mostra de Cinema Árabe Feminino é uma iniciativa do Centro Cultural do Banco do Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Discussões
A programação do festival também inclui debates, mesas redondas e uma masterclass com a diretora palestina Larissa Sansour. As discussões nas mesas redondas iniciam em 28 de maio com o tema "Palestinidades: Corpo e Território".
A mostra também debate sobre a construção da história a partir da memória familiar, com “Um assunto de família”, e a curadoria de filmes associada ao chamado "Sul Global", com a mesa “Sul-Sul: curando filmes para/de nós mesmas”, que acontecem no dia 13 e 20 de junho respectivamente.
“Cinema não é uma representação do mundo. Ele é o mundo. Se o cinema é o mundo, esses filmes têm a capacidade de criar interferências nesse mundo e criar outros mundos, outras possibilidades de existências. Obviamente não são mudanças estruturais, nenhum filme vai conseguir quebrar estruturalmente a sociedade patriarcal, mas eles interferem no andar da máquina, do sistema”, completa Carol Almeida.
Serviço
De 19 de maio a 27 de junho, no site da 2° Mostra de Cinema Árabe Feminino. Gratuito. Mais informações na plataforma virtual do evento.