Quando eu me encontrei em outros corpos
Como ver mulheres gordas existindo sem pedir desculpas, nos anos 2010, transformou dor em reconhecimento, e virou um ato de cura e resistência contra um sistema que insiste em nos apagar.
Eu não sei quem precisa ler a coluna de hoje, mas eu, definitivamente, preciso escrevê-la hoje.
Crescer sendo uma mulher gorda nos anos 2000 e início dos anos 2010 era, muitas vezes, crescer sem espelho. Não porque ele não existisse, mas porque tudo ao redor dizia que aquele reflexo não deveria estar ali. As referências eram escassas, distorcidas ou, quando existiam, vinham carregadas de piada, pena ou transformação (como se o nosso corpo fosse sempre um “antes” esperando um “depois”).
Foi ali, no meio dessa ausência, que começou um processo silencioso de cura: eu passei a me ver em outras mulheres gordas.
Não foi de uma vez. Foi aos poucos, quase tímido. Uma foto aqui, um blog ali, um perfil nas redes sociais que ousava existir sem pedir desculpas. Mulheres que vestiam o que queriam, que ocupavam espaços, que riam alto, que não se escondiam. E, principalmente, que não estavam tentando se diminuir, nem o corpo, nem a própria presença no mundo.
Aquilo mexeu comigo de um jeito difícil de explicar. Porque, até então, eu tinha aprendido que ser gorda era sinônimo de falha. Falha de disciplina, de cuidado, de valor. Um erro a ser corrigido. E de repente, diante de mim, existiam mulheres que não estavam tentando se consertar... Estavam vivendo.
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Me ver nelas foi como abrir uma janela. Pela primeira vez, eu consegui imaginar uma vida possível sem a condição de mudar meu corpo primeiro. Pela primeira vez, o futuro não parecia um lugar onde eu só chegaria depois de emagrecer.
Mas esse processo também trouxe revolta. Porque, ao mesmo tempo em que eu encontrava essas referências, ficava cada vez mais evidente o quanto o sistema trabalha ativamente para nos apagar. A indústria da moda que não veste nossos corpos. A mídia que nos reduz a estereótipos. A medicina que muitas vezes ignora nossas queixas reais e resume tudo ao peso. A sociedade que insiste em tratar corpos gordos como problema público.
Nada disso é por acaso. Existe uma estrutura que lucra com a nossa insatisfação, que alimenta a ideia de que precisamos estar sempre em falta, sempre tentando caber em um espaço que nunca foi feito para nós.
Por isso, se ver em outras mulheres gordas é um ato político, mesmo quando parece íntimo. É um rompimento. É dizer: “eu existo, eu me reconheço, e eu não estou sozinha”.
Essa identificação não apaga todas as dores, mas suaviza o caminho. Porque cura também é isso: encontrar, no outro, um pedaço de si que foi negado por tanto tempo e, finalmente, poder acolher.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.