Mostra “50 Duetos” comemora cinco décadas da Fundação Edson Queiroz

Com curadoria de Denise Mattar, exposição acontece em formato virtual e abre nesta terça-feira (23), às 19 horas

Legenda: Dueto entre as obras "Duas amigas", de Lasar Segall (1889-1957), e "Melancholy", de Vik Muniz
Foto: Ares Soares

Vinculados a épocas e contextos tão distintos da História da Arte, em que aspectos a produção de Di Cavalcanti (1897-1976) se conecta ao fazer de Mariana Palma? E entre as obras do ítalo-brasileiro Nicolao Antonio Facchinetti (1824-1900) e do cearense José Albano, é possível encontrar similaridades? Que paralelismos se desdobram entre as duas poéticas e maneiras de registrar o mundo?

As incógnitas acompanharam a curadora de arte Denise Mattar durante todo o processo de concepção da exposição “50 Duetos”. A mostra integra as comemorações de meio século de história da Fundação Edson Queiroz, apresentando ao público obras de seu acervo. A abertura oficial acontece nesta terça-feira (23), a partir das 19h, de forma virtual e gratuita, por meio das redes sociais da Universidade de Fortaleza e da TV Unifor (canal 14 da Multiplay e 181 da NET). 

O trabalho lança mão do rico acervo da Fundação Edson Queiroz para traçar um oportuno percurso de reflexões e diálogos possíveis entre alguns dos principais nomes da arte do Brasil e do mundo. Segundo Denise, tudo surgiu a partir do aprofundado contato desenvolvido por ela nas duas edições da mostra “Da Terra Brasilis à Aldeia Global”, uma das mais importantes já promovidas pela instituição e exposta no Espaço Cultural Unifor.

“O fato de fazer uma exposição tão grande e trabalhar seguidamente com a coleção me deu um bom conhecimento das obras”, explica a curadora.

“Quando recebi o convite para estar à frente de uma das mostras comemorativas dos 50 anos da Fundação, pensei em fazer algo totalmente diferente e que tivesse a ver com os tempos de hoje, em que as pessoas querem informações e conexões mais rápidas”.

Assim nascia o conceito de “50 Duetos”, cujo cerne é evidenciar similaridades entre 100 obras, dispostas de par em par, considerando critérios múltiplos. Seja por afinidades temáticas, paralelismos visuais ou até mesmo oposições, elas se combinam e otimizam uma inventiva maneira de apreciação estética, elegendo o poder das trocas como forma de apresentar um vigoroso panorama.

Legenda: Em primeiro plano, dueto com as obras "Religião brasileira IV", de Tarsila do Amaral (1886-1973), e "Altar de Luz", de Francisco de Almeida; à direita da foto, dueto com as obras de Chico da Silva (1910-1985) e Maria Martins (1894-1973)
Foto: Ares Soares

Tantas formas de sentir

São também plurais os modos pelos quais o público poderá acessar o conteúdo da mostra e compreender as correspondências por ela otimizadas. Cada dueto será acompanhado de textos especialmente concebidos, com referências e links sugeridos por meio do uso de QRCodes. Desta feita, diretamente da própria casa, os visitantes poderão conferir áudios, vídeos, músicas e catálogos, ampliando as facetas de comunicação.

“São várias janelas que se abrem, como num hipertexto, fazendo com que a mostra seja uma hiperexposição”, ilustra a curadora, ao mesmo tempo sublinhando a relevância do projeto para um maior conhecimento sobre a História da Arte e das questões que a perpassam, tudo feito de forma leve, lúdica e atrativa.

“Também tratamos de alguns temas contemporâneos, a exemplo do feminismo e das discussões que atravessam as religiões de matriz africana”, completa Denise. Nesse sentido, o público também é convidado a participar, colaborando com esse processo de analogias e contatos artísticos. Por meio de fotos publicadas com a hashtag #meudueto, combinando duas obras, as pessoas poderão abrir ainda mais horizontes de análise e perspectivas.

“Gosto de usar a metáfora do livro ‘O nome da rosa’, de Umberto Eco, que conta a história de uma biblioteca. Em um dos trechos, o autor diz que é como se todos os livros dela estivessem conversando uns com os outros, porque uma obra cita a outra. Nessa exposição, eu criei exatamente isso, uma grande conversa entre todos os trabalhos”, situa.

Nossos nomes no panorama

Nesse movimento, em um instante os olhos abraçam os poéticos percursos de Ismael Nery (1900-1934) e Iberê Camargo, por meio do dueto intitulado “Na Essência do Eu”; em outro, de nome “Intimidades - O artista como voyeur”, abrem-se as expressões de Anita Malfatti (1889-1964) e Cristiano Mascaro

Legenda: Dueto sobre Dom Quixote, reunindo as obras de Salvador Dalí (1904-1989) e Xico Stockinger (1919-2009)
Foto: Ares Soares

E assim se segue, numa confluência entre Almeida Júnior (1850-1899) e os Irmãos Campana (dueto “Infância revisitada); Tarsila do Amaral (1886-1973) e Francisco de Almeida (dueto “A Herança do Barroco popular); Abraham Palatnik (1928-2020) e Leda Catunda (dueto “Do Movimento); e Salvador Dalí (1904-1989) e Xico Stockinger (1919-2009), no interessantíssimo dueto “Dom Quixote”, entre outros. 

Gestada em solo cearense, a mostra também abraça nomes locais, no total de 12. São eles: Antonio Bandeira (1922-1967), Chico Albuquerque (1917-2000), Chico da Silva (1910-1985), Francisco de Almeida, Heloysa Juaçaba (1926-2013), José Albano, José Guedes, Luiz Hermano, Rodrigo Frota, Sérgio Helle, Sérvulo Esmeraldo (1929-2017) e Vicente Leite (1900-1941).

Legenda: Dueto formado por obras de Maciej Antoni Babinski e Rubens Gerchman (1942-2008)
Foto: Ares Sores

Para melhor situar a participação desses artistas, um exemplo são as jangadas de “Secando a Vela” (1926), do óleo sobre tela de Vicente Leite, atualizadas na série “Mucuripe” (1952-2011), do fotógrafo Chico Albuquerque. Sérvulo Esmeraldo, por sua vez, está em dois duetos (em “Geometria Sagrada”, com obra de Carmelo Arden Quin, e “Cinéticos”, com trabalho de Abraham Palatnik).

“Com tantos projetos desenvolvidos em Fortaleza, conheço mais os artistas cearenses, então então tive a oportunidade de estabelecer várias conexões das obras deles com as de outros artistas”, diz Denise. “Quando falei para as pessoas da área de arte que iria fazer esse projeto, elas comentaram que era uma ideia interessante, mas ia ser difícil fazer 50 duetos. E eu sempre respondi que com o acervo da Fundação Edson Queiroz, não. Ele é muito rico”.

E completa: “Se na exposição ‘Da Terra Brasilis à Aldeia Global’, eu conseguia mostrar que, por meio do acervo, a gente pode contar uma história da arte no Brasil, agora, com os 50 duetos, posso mostrar o quanto a coleção tem essa conectividade, o quanto as obras se sintonizam entre elas”.

Não à toa, Denise Mattar considera um privilégio do Ceará ter uma Fundação sólida, com meio século de estrada, abraçando um capital cultural de tamanha abrangência e qualidade. Na fala da curadora, em especial sobre este mais recente trabalho, fica a alegria de abrir cada vez mais possibilidades no campo artístico nacional a partir da FEQ.

Legenda: À esquerda da foto, dueto formado por obras de Vicente Leite (1900-1941) e Chico Albuquerque (1917-2000); à direita, o dueto Memórias Navais, com obras de Bonaventura Peeters (1614-1652) e Auguste Mayer (1805-1890)
Foto: Ares Soares

“É a exposição que mais me deu prazer de fazer nos últimos tempos. Foi tão enriquecedor o processo! Tinha horas que eu dava gritos (risos). Sabe quando você fala assim, 'que máximo encontrar essas sintonias'? Porque é isso, com ela você abre uma outra forma de ver, que é exatamente o que estou propondo aos visitantes: vamos ver tudo de um outro jeito, olhar as obras de uma outra forma. Perceber como a arte tem conexões”, dimensiona.

“A gente aborda esse conteúdo tão importante de uma forma lúdica, que é o que estamos precisando.  A gente tem que se segurar no melhor que o ser humano faz, que é a arte”, conclui.

Serviço
Exposição “50 Duetos”, em comemoração pelos 50 anos da Fundação Edson Queiroz
Transmissão da abertura da mostra nesta terça-feira (23), a partir das 19h, por meio do YouTube, Facebook e Instagram da Universidade de Fortaleza e pela TV Unifor (canal 14 da Multiplay e 181 da NET). Gratuito. Obras estão dispostas no Espaço Cultural Unifo (Av.Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). Todos os protocolos de segurança são rigorosamente seguidos. Informações sobre previsão de abertura para visita presencial pelo telefone (85) 3477-331

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