Esvaziadas na pandemia, barracas do mercado público de Granja (CE) são tema de exposição virtual

O artista Negrosoousa produziu fotografias do local entre fevereiro e abril de 2021

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Legenda: Exposição "BARRACAS" traz imagens do mercado público de Granja (CE) durante o lockdown de 2021
Foto: Negrosoousa

Quem já visitou um mercado público, sabe do burburinho e da diversidade de produtos e histórias que ele pode guardar. Na cidade de Granja, a 328 Km de Fortaleza, uma dessas estruturas viu o movimento arrefecer na pandemia, especialmente durante o lockdown, e o artista visual Negrosoousa, 25 anos, um filho da terra, resolveu registrar em imagens a nova dinâmica. O trabalho resultou na exposição virtual “BARRACAS”, que estará disponível no próximo dia 14 de maio.

Por ter nascido e crescido naquele ambiente, Negrosoousa já tinha estabelecido uma relação afetiva com a construção.

Eu circulava muito pelos espaços do mercado, até me dar conta de que havia um chamado dele à apreciação. Eu aceitei o convite e comecei a analisá-lo”, conta.

Segundo o artista, o mercado de Granja foi construído na grande seca de 1877, quando houve um repasse de verbas do governo imperial para compra de alimentos e, a partir daí, construções de prédios como esse foram realizadas. “É uma estrutura secular, com poucos registros ou documentos, mas que por si só, expressa a força através do tempo e é algo que me gera energia”, observa.

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Legenda: Sem movimentação, as fotos registram um momento histórico do mercado secular
Foto: Negrosoousa

As pessoas da cidade conhecem o espaço simplesmente por mercado e vão até ele diariamente em busca de produtos naturais (frutas, ervas, medicinais), comércio de carne e derivados, e produtos industrializados (alimentos, roupas, acessórios e utensílios do lar). Mas, diante de protocolos sanitários necessários para conter a transmissão da Covid-19, o cenário mudou.

Dinâmica da pandemia

Com 74 óbitos registrados em Granja desde que teve início a pandemia, conforme dados do IntegraSUS colhidos nesta segunda-feira (10/5), fez-se necessário que as atividades só operassem conforme as medidas decretadas pela Prefeitura ou pelo Governo. Atualmente, há uma certa flexibilização e as pessoas já podem fazer uso das estruturas, mas, no ápice das ondas de contaminação, segundo Negrosoousa, não houve operação. 

E foi exatamente nesse período mais crítico que ele começou a fotografar. “As fotos foram feitas entre fevereiro e abril, tive vários dias de circuito no espaço. Um fato interessante é que tive o espaço totalmente vazio, devido ao cenário de lockdown e, com isso, pude ter um campo experimental todo à minha disposição”, lembra.

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Legenda: Um total de 105 barracas foi contabilizada por Negrosoousa no mercado da cidade
Foto: Negrosoousa

A intenção dos registros, segundo ele, é mostrar a arte que se faz a partir do mercado, a arte que se expressa quando somente o mercado fala – sem circulação de pessoas.

Até a finalização do projeto, Negrosoousa contabilizou 105 estruturas. “Importante aqui comentar que as barracas são a principal forma de sustento das inúmeras famílias que ali estão. São um objeto de força e resistência, cada um do seu jeito, componho o grande espaço do mercado”, reforça Negrosoousa.

Exposição

A imersão do artista resultou em um conjunto de 21 fotos. A exposição “BARRACAS” ficará disponível em uma plataforma denominada Galeria N, com design criado também pelo artista e acesso disponível em sua conta no Instagram, no perfil @negrosoousa

O conjunto da obra traz um recorte estrutural do espaço, que coloca à disposição do visitante expressões geométricas espaciais em combinação com as cores vibrantes que marcam o local. Tais construções visuais foram feitas de forma manual com o auxílio de uma câmera digital.

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Legenda: A disposição geométrica do local inspirou intervenções visuais do artista
Foto: Negrosoousa

Três propostas centrais envolvem esse trabalho, segundo Negrosoousa. “A primeira é o contato mais calmo com o olhar. Normalmente você nota um grande volume de informação no espaço e processar ele pode demorar um pouco. Organizar essa informação foi meu primeiro trabalho”, introduz. 

“A segunda é mostrar o que é expresso no mercado de Granja. Há uma disposição geométrica muito interessante no espaço, achei válido atuar nessa linha visual e trazer esse traço único à tona. A terceira é dispor às pessoas, a possibilidade de se sentirem acolhidas em um espaço que produz e gera sensações tão fortes como o mercado – minha forma de expressar isso foi trazendo esse material”, detalha.

Impacto social

Desenvolvida com recursos próprios, a exposição reflete ainda um desejo maior  de Negrosoousa: que este trabalho seja reflexo para que todas as pessoas que tem um lugar para chamar de seu possam tomar posse dele para afirmar sua identidade. 

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Legenda: A exposição ficará disponível por um mês para apreciação virtual
Foto: Negrosoousa

Vivemos em um estado tão rico de signos e singularidades, seria muito gratificante ver outras pessoas tomando essa exposição como base de diálogo para esse debate tão importante”, afirma.

Além disso, o artista também espera que esse material possa chegar, dentro do possível, às casas de ensino, onde se possa debater informação com o apoio visual e possibilitar o imaginário.  “Nós estamos fazendo o possível para criar um amanhã mais confortável”, conclui.

Serviço

Exposição BARRACAS
De 14 de maio a 15 de junho, na plataforma Galeria N, link no perfil do IG @negrosoousa

 
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