É possível consumir a pornografia de forma saudável?

Consumo de conteúdos eróticos, quando sem controle, pode gerar vício nos indivíduos e afetar relações interpessoais e até o trabalho

Escrito por Lívia Carvalho, livia.carvalho@svm.com.br

Verso
Legenda: Consumo de pornografia é bastante comum principalmente entre homens
Foto: Andrew Angelov/Shutterstock

Se de um lado há quem fature alto com o OnlyFans, como o cearense Lucas Henrique que em um mês fez R$ 40 mil com fotos sensuais, por outro há quem pague mensalmente as assinaturas dos criadores de conteúdo.  

A pornografia não é nova nem pouco utilizada, vide o sucesso da revista Playboy desde a década de 1950. Embora estimule o prazer sexual, o consumo desses conteúdos eróticos pode acabar gerando um vício, mas, afinal, será possível fazer uso de uma forma saudável?  

A sexóloga e ginecologista Sabrina Forte explica que, quando um indivíduo consome conteúdos eróticos, sente prazer pois é gerada dopamina no cérebro, um neurotransmissor ligado justamente ao prazer e ao equilíbrio das emoções.  

“É como se fosse uma recompensa cerebral. Quando mais doses, mais estímulos preciso pra que aquilo me deixe saciada, satisfeita, por isso é tão tênue a linha do consumo saudável e do vício, porque pode fugir do controle”, detalha.  

Por isso, para Sabrina, é importante não estimular o consumo.“É mais seguro você não estimular do que você viver nessa corda bamba, até porque os meninos, principalmente, crescem com esses modelos performáticos de sexo, de corpos perfeitos, que não condizem com a realidade”. 

Já a sexóloga e psicóloga Mariana Oliveira pondera que é preciso sempre avaliar a relação com esse consumo e também com a masturbação.  

“Não é um problema usar pra relaxar, mas quando se torna algo feito no automático, todo dia faz aquilo, escondido da parceira/parceiro, em uma frequência alta que começa a gerar conflitos dentro do relacionamento. Se é a única forma de válvula de escape pode se tornar um vício”.    
Mariana Oliveira
sexóloga e psicóloga

Impactos na vida pessoal  

Assim, é possível perceber os sinais de uma possível disfunção na vida pessoal e profissional. De acordo com Sabrina, a pessoa pode não conseguir trabalhar, concluir um raciocínio ou estabelecer conexões físicas, reais e emocionais com alguém.  

"A pessoa não consegue ter prazer se não for ali num site pornográfico e for exatamente daquele jeito, daquele jeito da masturbação, o cérebro acaba sendo condicionado a se saciar apenas daquela forma. Tenho atendido, inclusive, muitas mulheres que estão sofrendo com o vício do marido e é difícil que eles peçam ajuda profissional”.  
Sabrina Forte
sexóloga e ginecologista

Mariana acrescenta que, portanto, é importante buscar outras formas de ter uma válvula de escape para o estresse, como ter uma boa alimentação, ter boas noite de sono, praticar atividades físicas, ter relações interpessoais ricas.  

Para quem chega no ponto do vício, as especialistas ponderam a necessidade um tratamento multidisciplinar de controle, já que não há cura. “É preciso entender que existe essa angústia e ela só pode ser tratada pelo adicto, então é importante buscar ajuda de um profissional, como sexólogo, psiquiatra ou psicólogo”, afirma Sabrina.  

“Se necessário, entrar com medicação e suspender tudo que é de estímulo até que essa pessoa se reestabeleça. Isso é um controle, o indivíduo vai estar sempre em alerta, tem que ter esse autocontrole junto com uma equipe especializada pra que não acabe trocando esse vício”, acrescenta.  

Estímulo à educação sexual 

Dessa forma, Sabrina destaca a necessidade de se estimular a educação sexual desde a infância e estimular o autoconhecimento do próprio corpo, o que, de acordo com ela, é um trabalho em comum da família, da sociedade, da escola e da mídia, já que é comum que crianças sejam expostas precocemente a conteúdos eróticos.  

"É preciso estimular a descoberta, a fantasia, o consentimento, ensinar meninos a tratar de maneira respeitosa outras mulheres, de ensinar essas meninas a explorarem também esses meninos de maneira mais saudável, incentivando que essa relação com o sexo seja algo mais natural”, diz. 

Além disso, a sexóloga afirma que os pais precisam estar mais abertos a essas conversas e entender que o desejo sexual é uma necessidade fisiológica assim como comer, fazer xixi. "É entender que ela faz parte de uma rotina nossa, mas que também é normal quem não quer relações sexuais com alguém”.  

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