Do forró ao rock hardcore, Ceará se destaca na música gospel com artistas de várias expressões
Mercado musical de nicho cresce no Brasil e está entre os 25 gêneros mais ouvidos do País em 2022
Passado o Carnaval, iniciam as preparações dos cristãos para a Páscoa. É momento de reflexão, recolhimento, praticar amor ao próximo, solidariedade, de buscar amplificar a conexão com Deus. Com a música gospel, por exemplo, os religiosos encontram uma forma de louvar ao divino e despertar para a mensagem de Deus.
O Ceará já se destaca no mercado musical nacional com diversos cantores e no nicho do gospel não é diferente. Naldo José é um deles. Com mais de 40 mil seguidores no Instagram, o cantor se destaca com uma vertente diferenciada para a música cristã, usando a melodia do forró com letras que provocam reflexões.
Porém, Naldo não iniciou diretamente com a música gospel. Ele conta que começou a carreira cantando em comícios de políticos. “A minha intenção nem era ser cantor, era só ganhar dinheiro mesmo. Fui me destacando e recebi um convite pra tocar em uma banda”.
Além de cantar, o cearense ganhou a vida compondo também para outras bandas de forró. Consagrou sucessos como ‘Pense numa rosa de jasmin’ e ‘Ligação no rádio’. Mas faltava alguma coisa.
“Ali, já estava vivendo um momento difícil na minha vida. Eu tinha aparentemente tudo o que eu queria, mas sentia um vazio grande. Usava drogas, só queria saber de mulher, bebia muito. Recebi um convite pra fazer parte de um acampamento de jovens do Shalom e foi lá que renunciei tudo”.
Depois desse dia, em um evento Naldo relembra que o Padre Antônio Furtado disse a ele que Deus estava preparando coisas lindas para a vida dele. “Ele nem sabia que eu era e deu a ideia de eu cantar pra Igreja. Gravei um CD, mas no início não queria ser artista. Só que eu comecei a receber vários convites, até um ponto que não tinha mais datas disponíveis, aí resolvi começar a vender”.
Swingueira para Cristo
Desde 1999, a Só pra God está em atividade tocando, principalmente em eventos católicos. Formado por um grupo de amigos da comunidade Shalom, a banda no início era apenas uma brincadeira e, com o passar dos anos, foi se profissionalizando.
“Eram jovens, deveriam ter uns 16 anos por aí. A banda hoje já tá na terceira formação, sempre foi nesse estilo de pagode, mas com o tempo a gente começou a tocar swingueira, temos músicas autorais”, conta Karina Araújo, produtora da banda, que conta com 9 músicos e cerca de 20 dançarinos.
De acordo com a Karina, o ritmo acaba tendo um apelo muito grande entre os jovens. "Tocamos em um acampamento que teve 750 jovens. A música alcança pessoas que nós nem imaginamos. É uma graça muito grande. Eles conseguem identificar que é uma música católica, mas com ritmo diferente”.
Embora esteja no mercado há mais de 20 anos, Karina comenta que a banda ainda não tem tanta visibilidade considerando o mercado como um todo. Contudo, a realidade no nicho católico é bem diferente: “a gente tem muita agenda”.
Rock hardcore
Quem também resolveu abraçar outra vertente para o gospel foi a Tautobios, banda católica de Hardcore Regional que mistura hardcore, metal e hip-hop com ritmos nordestinos como embolada, coco, baião e maracatu e outros.
O vocalista Henrique Tautobios conta que quando a banda surgiu, em 2001, fazer rock dentro da Igreja Católica não era um nicho tão explorado nem esperado. “É algo relativamente recente, no meio evangélico já tinha, mas no católico não. Cada um era de uma comunidade diferente, então a gente se juntou pra fazer o que gostava, mas falar das nossas vivências que a gente tinha”.
Ao longo dos 21 anos de estrada, a banda começou tocando covers, fazendo releituras de músicas já existentes. Só depois é que começaram a investir nas próprias produções.
“A gente resolveu colocar na nossa referência musical as bandas locais, trouxemos uma carga de elementos nordestinos, tipo o baião, o maracatu, o coco, o que nos proporcionou chegar em outros mercados, ultrapassar as fronteiras do Ceará”.
Pioneirismo gospel
Outro grupo de cearenses que aposta no gospel é a banda Filhos de Davi, considerada pioneira no gênero. Em atividade desde 1978, a atuação deles começou em missas da Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, conforme conta o músico e contrabaixista Carlos Henrique, o que fazia lotar o ato litúrgico.
"A partir de 1997 a banda foi se profissionalizando mais. Nessa época, surgiu o Halleluya, mas o custo pra fazer era muito alto, aí eles chegaram propondo um desafio, de a gente acompanhar os cantores no evento. Era muita responsabilidade, mas a gente abraçou”, lembra.
Naquele mesmo ano, eles gravaram o primeiro CD ao vivo do Nordeste, porém o evento causou lotação de mais 1 mil pessoas na Paróquia do Senhor do Bonfim. A energia do bairro não aguentou o sistema de som e caiu. O show teve de ser cancelado. “Remarcamos e, no segundo show, a gente levou gerador, uma estrutura melhor, e dobrou a quantidade de pessoas”.
“A meta de qualquer grupo de evangelizar é evangelizar quem não é evangelizado, porque evangelizar dentro de um evento já cristão é fácil. A maioria do público do Filhos de Davi hoje, pela força que o grupo tem, é o público gospel, mas nossa missão é levar Jesus”.
Paixão pela música
Ainda sem apoio de patrocinadores, produtores, a paixão da auxiliar de professora Aline Oliveira pela música move o desejo de se tornar cantora profissional. Em 2021, a cearense participou de um concurso específico de música gospel, mas não ganhou. Porém, a produtora responsável concedeu um contrato de exclusividade com uma gravadora para produzir um clipe.
Mesmo sem condições financeiras de arcar com os custos para ir a São Paulo, ela foi e precisou da ajuda de amigos, doações, realização de rifas para custear passagens, hospedagem e alimentação. “Na alimentação, ou eu merendava, ou eu almoçava ou eu jantava”. Aline conseguiu, mas ainda não consegue viver da música.
Ela conta que descobriu que tinha esse dom aos 8 anos, quando estava na casa da avó e comecei a cantar. Depois, não parou mais e faz eventos em igrejas, quando é convidada.
"Foi um processo muito difícil, porque era aquilo que eu queria seguir, levar a obra de deus através da música. Não nasci em berço evangélico, meu pai não gostava, nunca aceitou que eu cantasse. As minhas tias sempre faziam convite pra eu visitar a igreja delas, meu pai nunca concordou. As vezes ele me proibia de ir pra igreja e era muito difícil. Quando eu cantava, encontrava refúgio”.
Vocação para Deus
A história de Jemima Praciano conversa, de certa forma, com a de Aline, porém Jemima nasceu e cresceu em berço evangélico. Descobriu o dom do canto, ainda criança, em um dos cultos que realizavam em casa. “Naquele momento, eu entendi que Deus tinha plantado aquilo em mim”.
“O começo foi bem difícil, poruqe meu pai agredia minha mãe, então aquilo me fazia questionar minha fé. Eu me perdia, mas em meio a tudo isso, Deus me ensinou o que era adoração, a adorá-Lo independentemente de como estivesse a situação”.
Aos 8 anos, participou de um concurso musical em Pindoretama e foi a única criança a levar o 1º lugar. Após isso, Jemima começou a cantar em eventos, em comícios, em igrejas. Em 2011, participou de outro concurso, do programa Paz e Amor, da TV Diário, e também conquistou o 1º lugar.
“Comecei a crescer muito no meio gospel no Ceará, participei de vários eventos. Não fui eu que escolhi o gospel, foi o gospel que me escolheu, entendo que faço isso pra Deus”, conta ela que já reúne mais de 10 mil seguidores no Instagram.
Mercado em expansão
Embora ainda seja um gênero de nicho, a música gospel vem ganhando mais o meio mainstream do mercado no Brasil nos últimos anos. Além do crescimento - só no Spotify, a playlist Sucessos Gospel soma quase dois milhões de curtidas -, o louvor cantado vai abraçando novas vertentes, como o rock, o forró e o pagode.
O sucesso tem sido tamanho, que cantores tidos como seculares também têm apostado no gospel. Caetano Veloso lançou parceria com o pastor e cantor Kleber Lucas no final do ano passado. Os sertanejos Gusttavo Lima e Simone Mendes têm em seus repertórios faixas com Padre Marcelo Rossi e o pastor Davi Sacer, respectivamente.
Um levantamento divulgado pelo O Globo, com base em dados do Spotify, aponta ainda que o gospel está entre os 25 gêneros mais ouvidos no Brasil em 2022, assim como está entre os 50 gêneros musicais que mais cresceram no país no ano passado.
O músico profissional e produtor musical, Anfrisio Rocha, avalia que houve mudanças no mercado como um todo, porque a música vai mudando ao longo do tempo. "Alguns artistas acabam tendo que se adaptar a essas mudanças, de estilo, de plataforma, de mídia, geram facilidades, mas também dificuldades. A mídia normalmente só gosta mais de tocar quem já está bombando".
Para então ter visibilidade, Anfrisio aponta as redes sociais como plataforma de autodivulgação. "Antigamente, as gravadoras mandavam olheiros pras cidades, que ficavam observando esses artistas pra impulsioná-los. Cada artista ou banda tem que estar com sua rede social, tudo isso traz uma mudança, inclusive de estilo, alguns artistas permanecem mantendo o seu e outros tiveram que se adaptar afim de não perder público", pondera.