De Fortaleza ao Rock In Rio: banda O Surto marcou a música pop dos anos 2000
Do começo de carreira marcado pelo metal e letras de protesto, ao sucesso radiofônico de "A Cera", grupo nordestino cravou sua história no rock nacional
A morte de Reges Bolo pegou de surpresa os inúmeros fãs da banda O Surto. Criados em Fortaleza, em 1994, o grupo nordestino trilhou toda uma estrada única no cenário musical. Começaram no cenário underground, migraram para o Sudeste em busca de espaço e atingiram o estrelato com o hit "A Cera".
A canção foi o sucesso naqueles primeiros anos do século. Teve trilha sonora em "Malhação", entrevistas na TV, turnê no Japão e o show que balançou o Rock In Rio 2001. Consolidava o quarteto que reunia, além do cearense Bolo, o conterrâneo Wilclei Magalhães (guitarra) e os potiguares Franklin Medeiros (baixo) e Jucian Carlos (bateria).
Percorremos a trajetória da banda. Do começo marcado pelo metal ao auge radiofônico, O Surto ultrapassou fronteiras e escreveu o nome na cena rock nacional. Nos bastidores, superações, quedas e amizade. "O que posso dizer é que estou com muita saudade do meu amigo", resumiu o músico Wilclei Magalhães.
Surto na Selva de Concreto
Por telefone, o guitarrista destacou o caráter guerreiro do parceiro de banda. Tal característica influenciou na construção e batalha pela arte que criavam. "Fomos à 'Selva de Concreto' juntos, na loucura, e deu no que deu", conta emocionado.
"Tínhamos um repertóriosempre lembrando do nosso Nordeste, de nossa raiz, desse solo onde nascemos. Será um espaço que fica aí na minha história, compartilha Wilclei. E essa trajetória remete à cena rock da capital cearense na metade dos anos 1990.
Quando despontou no cenário brasileiro, O Surto equilibrava uma mistura sonora que abraçava, entre outras ideias, o hardcore, pop e reggae. Contudo, antes da fama esmagadora de "A Cera", os cearenses se destacaram pela mistura de várias vertentes do metal e letras que denunciavam injustiças e mazelas.
Em 1995, quando ainda eram apenas "Surto", a banda gravou a demo-tape "Vida Morta". Além da faixa título, as sete pedradas do material reuniam faixas como "Medo", "Futuro Devasto" e "Jangurussu", esta última um crossover entre thrash e hardcore que denunciava aos gritos: "O que temos pra comer?".
Nessa fase, a formação contava com Bolo, Wilclei e os músicos Erasmo Lousada (baixo) e Roque Ney Mota (bateria). Erasmo e Roque Ney, vale destacar, conhecidos também pelo trabalho na banda Zoia. Para sorte da memória musical, a demo "Vida Morta" pode ser baixada no site Demos-Tape Brasil.
'Triste mas eu não me queixo'
Para consolidar este começo de carreira, O Surto entregou o primeiro álbum. "Pau de dar em Doido" (1997) mantinha a agressividade do trabalho anterior, mas com algumas mudanças no percusso. Jucian Carlos assumia a bateria e os caras passaram a atuar no Sudeste.
Em 1998, a virada para os nordestinos chegou com tudo. O Surto fica em segundo lugar no "Skol Rock 98", considerado o grande festival para bandas iniciantes daquele momento. Os sete finalistas daquela edição gravaram uma coletânea lançada pela gravadora Virgin. A partir dali tudo mudaria.
A participação rendeu frutos. Com produção de Rodrigo Castanho e Rick Bonadio (que já tinha no currículo sucessos como Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr. e Los Hermanos) eles lançam o disco “Todo Mundo Doido” (2000). A pegada nervosa do passado adquiria novos elementos em composições como "Hempadura", "Tudo é Possível" e "A Cera". Para muitos, tratava-se do disco de estreia da banda.
"Todo Mundo doido" superou a casa das 100 mil cópias vendidas. Em 2001, veio a famosa participação no Rock In Rio e a Folha de São Paulo assim descrevia aquela novidade:
"O Surto é responsável por um som explosivo e apresentações eletrizantes, que antes já eram conhecidas no Nordeste do país, mas agora chegam para o país todo. Trazem na bagagem misturas de rock’n roll, hardcore e surf music".
A apresentação no festival Rock In Rio superou a barreira do tempo. Do show, a internet abraçou "Triste mas eu não me Queixo", versão nordestina para "Californication", dos californianos Red Hot Chili Peppers.
Músicas inéditas
Ainda em 2001, vale lembrar, O Surto participa da primeira edição do Ceará Music. Contudo, nesse retorno à terra natal, o quarteto se apresenta como uma das atrações nacionais. Somadas às turnês, o grupo demarca espaço em diferentes programas da televisão brasileira. São vistos na grade da MTV, bem como Programa do Jô e Planeta Xuxa.
Diante de tanta perspectiva, o próximo disco foi "Equalizando as idéias" (2005) que vende algo em torno das 50 mil cópias. Dois anos depois lançam "De Onde Foi que Paramos Mesmo?". A banda deu uma pausa nos shows em 2014. Voltaram aos palcos com o trabalho “O Surto 20 anos”, que homenageava os 20 anos de “Todo Mundo Doido”.
Para o guitarrista Wilcley Magalhães, todas essas conquistas assinalam a contribuição deixada pelo amigo Reges Bolo. "Até hoje muita gente curte, manda mensagem. Graças a Deus ele deixou o legado de energia boa e letras maravilhosas para todo mundo. São histórias de muitas vitórias, derrotas e superação. Pessoas assim são difíceis de encontrar, que lutaram pelo que queriam", descreve.