Com poucos recursos, quadrilhas juninas se articulam para segundo ano de São João virtual

Grupos contam com editais do poder público para dar continuidade às atividades na pandemia

Junina Babaçu
Legenda: Com 32 anos, a quadrilha Junina Babaçu tem cerca de 200 brincantes. Registro de 2019
Foto: Rodrigo Rocha

Manter a “fogueira acesa” é desafio para os grupos juninos, que enfrentam, em 2021, o segundo ano consecutivo sem os festejos típicos de São João. Com as despesas batendo à porta e a necessidade de realizar uma programação - ainda que virtual - para garantir a articulação dos brincantes, as quadrilhas dependem de recursos públicos ou patrocínios privados que viabilizem essas atividades. Mas, até agora, as iniciativas não parecem suficientes.

Com inscrições prorrogadas até o próximo dia 17 de maio, o Edital de Fomento para Grupos dos Ciclos da Cultura Tradicional Popular do Ceará (Secult-CE), por exemplo, prevê incentivo para 138 projetos do Ciclo Junino, com um recurso de R$1,3 milhão, divididos entre as categorias de Grupo Quadrilha Infantil, Grupo Quadrilha Adulta e Grupo de Quadrilha da Diversidade. 

Na avaliação de Tácio Monteiro, diretor da União Junina do Ceará, presidente da quadrilha Junina Babaçu, de Fortaleza, e membro do comitê gestor Ceará Junino, o valor não atende às necessidades reais dos grupos.

Para produzir um material de qualidade hoje, inclusive para internet, precisamos de mais recursos. A gente vê que o Governo do Estado, depois de um ano totalmente ausente, vem com essa proposta de R$10 mil para cada e ficamos tristes, porque prova que eles conhecem pouco do que fazemos”, critica o quadrilheiro.

Em 2020, o XXII Edital Ceará Junino, também promovido pela Secult-CE chegou a ser anunciado, mas foi cancelado em abril, no auge da pandemia. Já a Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) publicou o último Edital de Apoio aos Festejos Juninos em 2019.

“Em tempos normais, a gente recebia R$21 mil do Estado, que é pouco, defasado, muitos anos no mesmo valor, e R$15 mil da Prefeitura. Em uma quadrilha como a Junina Babaçu, só o contrato do meu regional, em 2020, foi R$50 mil. Se eu juntar os dois recursos, não dá para suprir o contrato com um grupo musical para acompanhar uma quadrilha na sua temporada. É muito pouco”, lamenta Tácio.  

Para este ano, a Junina Babaçu planeja realizar lives musicais e também de formação, com pesquisadores da tradição junina, mas, para isso, de acordo com o presidente do grupo, será necessário recorrer a patrocínios privados.

Dificuldades financeiras

Em Várzea Alegre, a 449 km da Capital, a quadrilha Arriba Saia precisou se desfazer de sua sede original para alugar um galpão mais simples, tendo em vista os desafios financeiros da pandemia. 

“Como a gente não podia fazer evento, mas tinha que arcar todo mês com aluguel, água, luz, não tivemos como pagar. Nossa sede era uma casa, que recebia pessoas de fora que viessem tocar, inclusive, mas agora é só um prédio pequeno para guardar as coisas, sem água nem luz. Tivemos que nos readequar à realidade para fazer com que o dinheiro da Aldir Blanc dê até acabar a pandemia”, conta o presidente da Arriba Saia, Ícaro Bastos.

Arriba Saia
Legenda: A dispersão dos brincantes da Arriba Saia é uma realidade no contexto pandêmico. Na foto, registro de 2019
Foto: Wagner Alves

Para 2021, o grupo planeja uma live a ser realizada no fim de julho, mas depende da aprovação no edital da Secult-CE para realizá-la nos moldes previstos.

Caso não aconteça, a gente vai estudar uma forma de executar de forma enxuta, mas vamos fazer sim, porque a gente tem um trabalho social. A diretoria entende e acredita que temos responsabilidade em produzir conteúdo de qualidade para as pessoas que estão em casa”, partilha Ícaro. 

Apesar do cenário, a Arriba Saia até já dá uns passos pensando em 2022. “Vamos usar o mesmo tema planejado pré-pandemia, e já estamos produzindo devagar algo de figurino, pra quando voltar não prejudicar e conseguirmos executar”, diz o presidente. 

Arriba Saia
Legenda: A quadrilha Arriba Saia foi fundada em 2004 e tem, atualmente, 80 integrantes
Foto: Wagner Alves

Por outro lado, ele admite não ter as melhores expectativas para esse retorno em breve.

A gente sente que talvez seja impossível; percebemos que quem tem que fazer algo pela saúde dos brasileiros nacionalmente não está fazendo, e imaginamos que isso vai virar uma bola de neve, todo ano vai ser assim. Ficamos com muito receio e até desacreditados, mas a fé em Deus é maior”, avalia.

Articulação com as secretarias

O diálogo com as pastas culturais não tem sido satisfatório, como explica Tácio Monteiro, da Junina Babaçu. “A Secultfor ainda não se manifestou. Trabalharam pela Aldir Blanc, mas é recurso federal. A Secult e Secultfor estão em dívida do recurso desde o ano passado”, critica o quadrilheiro.

Na Lei Orçamentária Anual do Município de Fortaleza para 2021, há um valor de R$ 1.977.000,00 previsto para o Ciclo Junino, mas, tal como aconteceu no Ciclo Carnavalesco, a secretaria continua sem respostas sobre prazos para editais de fomento.

junina babaçu
Legenda: A indumentária de um casal de brincantes da Junina Babaçu pode chegar a R$5 mil
Foto: Marina Cavalcante

Acionada pela reportagem, a pasta não respondeu, até a publicação, se tem alguma proposta de edital para as quadrilhas (ainda que para uma programação virtual), tampouco sobre valor financeiro ou data para publicação.

Já sobre o edital da Secult-CE, que está em andamento, Tácio afirma que o comitê gestor não foi consultado, apenas informado, e que a junção de vários grupos de tradição diferentes no mesmo certame é prejudicial ao ciclo, visto que antes, o valor era maior. 

Por meio de nota, a secretaria estadual disse que “com o contexto pandêmico, toda essa ‘normalidade’ modificou-se completamente, a começar pela orientação do Governo do Estado do Ceará, atendendo aos protocolos de saúde pública emitidos pela OMS e demais órgãos de saúde do país, de NÃO promover e NÃO estimular eventos que promovam concentração de pessoas (em pequena, média e sobretudo grandes proporções)”.

Confira nota da Secult na íntegra:

Antes da pandemia, os editais relacionados aos 4 Ciclos da Tradição Popular (Carnaval, Paixão de Cristo, Junino e Natal) aconteciam separadamente, todos os anos. Cada edital era lançado conforme o calendário oficial brasileiro, atendendo projetos culturais em formato majoritariamente presencial, envolvendo a participação de inúmeros mestres da cultura, grupos de tradição, artistas e profissionais da área cultural. Com o contexto pandêmico, toda essa "normalidade" modificou-se completamente, a começar pela orientação do Governo do Estado do Ceará, atendendo aos protocolos de saúde pública emitidos pela OMS e demais órgãos de saúde do país, de NÃO promover e NÃO estimular eventos que promovam concentração de pessoas (em pequena, média e sobretudo grandes proporções). 

Sem dúvida, o setor cultural é um dos mais atingidos, desde então, seja pela impossibilidade de fazer cultura presencialmente, seja pelo direcionamento dos recursos públicos especialmente para a saúde, a fim de salvar vidas, num contexto de baixa arrecadação fiscal, em razão da concomitante crise financeira. Essa é a realidade de todo o país. Contudo, no Ceará,  a SECULT teve um papel de destaque no  movimento pela construção, em curto espaço de tempo, em 2020, da Lei Aldir Blanc, para o auxílio do setor cultural em todo o Brasil. Só no Ceará foram lançados 12 editais no segundo semestre de 2020, movimentando quase 73 milhões de reais, na virada de 2020 para 2021. Recursos esses que muitos artistas e grupos culturais ainda estão executando, em diversas áreas, incluindo os ciclos da cultura tradicional popular.

Nesse sentido, o Edital dos Ciclos, cujos recursos são do Fundo Estadual da Cultura do Ceará, é mais um edital que visa colaborar com os produtores e artistas cearenses, apoiando projetos em formato totalmente virtual, que já estejam em desenvolvimento ou que, embora finalizados antes da pandemia, possam passar por releituras ou atualizações.

Secult Ceará

Fortaleza, dia 4 de maio de 2021




 

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