Artista plástico Maciej Babinski celebra 90 anos: “Um mergulho dentro de si infindável”

Isolado em Várzea Alegre com a companheira cearense Lidia, o polonês segue em intensa produção artística

Maciej Babinski
Legenda: Maciej Babinski completa nove décadas de vida, quase sete delas no Brasil e três no Ceará
Foto: Hélio Filho

A luz que toca Maciej Babinski neste 20 de abril de 2021 atravessa agora uma história de exatos 90 anos. Nascido na Polônia, no período entre guerras, o artista plástico adotou o sertão de Várzea Alegre como morada há três décadas. É lá, mais precisamente no sítio Exu, que ele celebra a nova idade, ao lado da esposa Lidia, com quem divide todos os dias em isolamento, à espera da segunda dose da vacina contra a Covid-19.

A imunização completa virá apenas no mês de maio, mas pouca coisa mudou na rotina de Maciej neste ano de pandemia. “Olha, não parei de trabalhar. Tenho feito gravuras, impressões, arrumado de modo geral as coisas minhas aqui: livros, documentos, memória. Tudo isso eu tenho uma chance de desenvolver em profundidade”, conta, em entrevista gentilmente mediada pela companheira.

Os olhos azuis da cearense Lidia, com os quais Babinski primeiro teve contato em Brasília, em 1990, foram os únicos a observarem a reserva dele no ateliê, diante do atual contexto sanitário. “Foi um ano, por incrível que pareça, que ele trabalhou mais, fez grandes obras a óleo, trabalhou bastante na gravura e continua trabalhando”, confirma a esposa.

Viagem para dentro de si

Se antes o movimento de Babinski era geográfico – tendo em vista que, ao sair de Varsóvia, passou por França, Inglaterra e Canadá, e, chegando no Brasil, em 1953, ainda percorreu Rio, São Paulo, Araguari, Brasília e Uberlândia antes do Ceará – agora o que ganha força é uma espécie de deslocamento por fronteiras internas. 

“É um mergulho dentro de si próprio, infindável, que não acaba”, admite, reconhecendo a importância do lugar que escolheu para aportar nessa jornada. “Um ambiente familiar muito favorável, eu gosto das pessoas que tenho em minha volta, e a tranquilidade que eu tenho para me dedicar ao meu trabalho artístico é a coisa mais importante aqui”, diz.

Maciej babinski em Várzea Alegre
Legenda: O sertão de Várzea Alegre é casa e inspiração para a produção do artista polonês

Em Várzea Alegre, “Matias, o polonês” incorporou as cores da paisagem sertaneja às telas em que retrata com precisão o ser humano e as relações sociais. Um salto temático, se recuperados os primeiros rabiscos infantis, nos quais registrava as bombas e aviões da Segunda Guerra. 

“A temática é resultado - como sempre - da vida, do que percebeu, do que viu, né?”, disse Maciej em outra ocasião, ao conceder entrevista a estudantes de jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Saudade e partilha

Convidado a revisitar o passado, o artista revela sentir saudade da juventude, e especificamente dos lugares e pessoas que não existem mais, “afinal de contas eu sou um sobrevivente de 90 anos e cada vez mais eu estou sozinho na minha velhice”, lamenta.

Babinski
Legenda: Retrato de Babinski em exposição de 2012
Foto: Neysla Rocha

Babinski estudou pintura com John Goodwin Lyman, aluno de Henri Matisse, teve aulas de gravura com Eldon Grier e fez cursos de desenho e pintura com Goodrich Roberts, na Art Association of Montreal. Ainda no Canadá, integrou o grupo de vanguarda Les Automatistes [Os Automatistas], reunido em torno de Paul-Émile Borduas, e, no Brasil, conviveu com Oswaldo Goeldi, Augusto Rodrigues e Darel, por exemplo.

Do trabalho com a docência, orgulha-se de ter participado da versão primeira da Universidade Nacional de Brasília, e também do Ginásio Vocacional do Grupo Paulista, “uma belíssima experiência educacional brasileira''. Tamanha bagagem professoral ainda encontraria abrigo na sala da própria casa.

“Eu cresci muito, aprendi muito, e vi que a arte é uma das coisas bem importantes da vida, porque a gente sai desse mundo e vai para um outro mundo colorido, um mundo bonito, um mundo que a gente pode ficar sem nenhum problema. A arte me fez crescer. A convivência com Babinski pra mim é um privilégio, um privilégio pra poucos”, confessa Lidia, “estudante”  fiel, que deu vazão a tudo isso que aprendeu construindo bonecas de pano.

Lidia Babinski
Legenda: As bonecas de pano produzidas por Lidia medem cerca de 20cm
Foto: Honório Barbosa

Provocado a dizer algo aos iniciantes, aliás, Babinski faz pensar sobre o que escreveu Matisse no final da Segunda Guerra. “O que se devia pedir a um artista jovem era de se fazer cortar a língua para não falar tanto. Artista falando não é coisa muito boa não. Artista tem que ser artista fazendo arte, e não discutindo, falando e tentando vencer pela boca. Vence pela mão, pela cabeça, pela arte, e não pelas outras maneiras de se projetar”, reproduz.

Vivendo sonhos

De olho no presente, Maciej admite-se cansado e com expectativas menores sobre si. Ao mesmo tempo, reconhece que ainda preserva o bem mais valioso.

Eu tenho que me acostumar que cada dia é menos. É menos energia, é menos corpo; agora, a mente continua a mesma. Graças a Deus, eu tenho memória, eu posso imaginar, eu posso amar, eu posso lembrar e eu posso, dessa maneira, sobreviver à velhice, que não é uma brincadeira, eu garanto a vocês”.
Maciej Babinski
Artista plástico

Daqui para frente, acordar, trabalhar, amar a vida, pensar, quantos dias for possível, são os desejos do artista. E, no que depender de Lidia, todos serão concretizados, a começar por hoje, com o café cedinho e a possível taça de champagne para celebrar os 90 anos à noite. 

“Eu quero viver no presente que nós criamos aqui todo dia”, conclui Babinski sobre os próprios sonhos, provando estar definitivamente realizado.

Serviço

90 anos de Babinski

Live às 19h30 nas redes sociais da Unifor (Instagram e Facebook) e na TV Unifor (canais 14 da Multiplay e 181 da NET e YouTube).

 

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