'Rodízio Mounjaro' aponta nova tendência de comportamento e mercado

Restaurante de Fortaleza abre cardápio para adeptos de canetas emagrecedoras. Especialistas de saúde apontam riscos.

(Atualizado às 14:06)
foto mostra pessoa com caneta de mounjaro na mão ao lado de prato com doces e salgados. Imagem para ilustrar matéria sobre nova tendência de rodízio para pacientes que usam canetas emagrecedoras.
Legenda: Além de efeitos na saúde gástrica, especialista destaca impactos comportamentais da nova tendência.
Foto: Pietukhova/Shutterstock.

Uma nova tendência de mercado no setor alimentício chegou a Fortaleza: o rodízio para usuários de canetas emagrecedoras. Com preço mais acessível, um restaurante na Capital está oferecendo desconto para quem apresentar a receita válida dos populares medicamentos para tratamento da obesidade, que possuem princípios ativos como a tirzepatida e a semaglutida.

Apesar de ainda não haver uma adesão massiva desse tipo de cardápio no Ceará, a tendência já é bastante presente em estados como Rio de Janeiro e São Paulo e em Nova York.

Como efeito da redução do apetite, alguns desses pacientes pararam de frequentar os rodízios, e o modelo "menor" foi uma forma que as empresas encontraram para incentivar o consumo dos clientes.

No Floresta Bar, em Fortaleza, a promoção do novo rodízio foi lançada nesta semana e é válida de domingo a quinta, durante este mês de fevereiro.

Quem toma Mounjaro garante o cardápio por R$ 39,90, incluindo itens como pizzas, petiscos, massas e pratos com camarão. Já os valores do rodízio normal variam de R$ 49,90 até R$ 64,90.

Conforme Pedro Machado, proprietário do estabelecimento, o motivo da ação foi alavancar as vendas e criar engajamento. E está dando certo.

“O engajamento está excelente. A pessoa mostra a receita e o gerente aprova, conferindo a identidade. A gente exigiu que tivesse a comprovação médica para não ter risco de falsificação”, explica o gestor e idealizador da ação.

Impactos de um 'Rodízio Mounjaro'

Embora resulte em um consumo reduzido, o “Rodízio de Mounjaro” acaba indo na contramão das recomendações de especialistas em saúde por ainda oferecer opções calóricas como frituras e ultraprocessados.

Mas esse tipo de promoção pode sabotar o protocolo de emagrecimento? Para a endocrinologista Nattascha Mauriz, não faz sentido o paciente estar em tratamento e ser estimulado a frequentar rodízios, mesmo em menores quantidades.

Esse tipo de incentivo reforça padrões inadequados, pode gerar efeitos adversos e comprometer os resultados do tratamento. O tratamento da obesidade não é apenas perder peso, mas promover reeducação alimentar, mudança de comportamento e melhora da saúde metabólica.
Nattascha Mauriz
Endocrinologista

Quais são os riscos e efeitos do consumo exagerado de comida por pacientes de canetas emagrecedoras?

Ainda conforme a especialista em medicina integrativa e endocrinologia, esses medicamentos reduzem o apetite e retardam o esvaziamento do estômago.

Em rodízios, onde geralmente há grande consumo de alimentos mais gordurosos e de difícil digestão, forçar grandes volumes pode causar sobrecarga importante do sistema digestivo, piora do esvaziamento gástrico, descompensações metabólicas e até levar à necessidade de interromper o tratamento.

“Não se trata apenas de desconforto, mas de riscos clínicos reais. Quando a pessoa força uma ingestão grande de comida, especialmente em rodízios, ela vai contra o mecanismo do medicamento. Isso pode gerar desde desconfortos leves até quadros mais importantes, como náuseas intensa, vômitos, diarreia, distensão abdominal, refluxo, dor abdominal intensa. Inclusive, se algum desses sintomas persistir, é importante procurar um médico”, alerta Nattascha Mauriz. 

Além desses efeitos, a especialista sublinha que há um impacto comportamental importante: o paciente pode sentir culpa, frustração e perda de controle, o que prejudica a relação com a comida e o sucesso do tratamento.

Os riscos são ainda maiores no início do tratamento e nas fases de aumento de dose, uma vez que, nesses momentos, o organismo ainda está se adaptando ao medicamento. O sistema digestivo fica mais sensível, e episódios de exagero alimentar aumentam a chance de efeitos colaterais.

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O que fazer em caso de crise após episódios de exagero alimentar?

A recomendação da endocrinologista é, em casos de crise, interromper imediatamente a ingestão de alimentos, manter hidratação em pequenos volumes e, nas refeições seguintes, optar por alimentos leves e de fácil digestão.

“Não é recomendado insistir em comer ‘porque já pagou’, fazer uso de medicamentos por conta própria ou tentar compensar com jejuns prolongados ou excesso de exercício. Se os sintomas forem intensos ou persistirem, é fundamental procurar orientação médica, pois pode ser necessário ajustar a dose ou até fazer uma pausa temporária no tratamento”, destaca a especialista.

Como especialistas em mercado avaliam a tendência?

foto mostra pessoa com caneta de mounjaro na mão ao lado de prato com comidas variadas. Imagem para ilustrar matéria sobre nova tendência de rodízio para pacientes que usam canetas emagrecedoras.
Legenda: 'Rodízio Mounjaro' traz oportunidades de entrada em nichos ainda pouco explorados, dizem especialistas em mercado.
Foto: Pietukhova/Shutterstock.

Por outro lado, a recente tendência de comportamento alimentar pode indicar novos perfis de consumo e oportunidades de investimento em novos nichos, apontam especialistas em mercado.

Para Thiago Baldu, professor e consultor de marketing, essa é uma forma de atrair novamente os clientes que o mercado acabou perdendo com a popularização das canetas.

“Existe uma conjunção de interesses: o bar querendo ver mais, as pessoas querendo emagrecer e as 'big farms' querendo vender seus produtos também. Então a ação entra nessa interseção”, avalia.

“A empresa está inovando, porque está vendo a demanda dos clientes. Com certeza, tem cliente que fala ‘poxa, eu vou pagar o rodízio no valor cheio, mas eu como pouco, estou com meus amigos aqui e eles estão comendo muito, mas eu não’. Então, equivale à promoção para criança, que paga menos, e acaba sendo mais justo. Nesse caso, é o negócio se adaptando à realidade do mercado”, pondera Baldu.

O Diário do Nordeste também ouviu a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-CE), que monitora esse novo comportamento do mercado e analisa o fenômeno.

Para a organização, o setor não está parado diante da tendência, mas transformando o novo comportamento em oportunidade, com mais criatividade, eficiência e modelos que atendam as necessidades do empresário e do consumidor.

“O que temos observado é que o uso desses medicamentos não significa deixar de frequentar bares e restaurantes, mas sim uma mudança no padrão de consumo. Nós enxergamos isso muito mais como uma oportunidade de adaptação do mercado do que como uma ameaça. Há espaço para novos formatos, novas porções e novas experiências, que, inclusive, podem aumentar a margem dos estabelecimentos”, avalia Taiene Righetto, presidente da Abrasel no Ceará.

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Segundo o titular da associação, ainda não foi percebida uma queda significativa de procura por rodízios de forma geral.

“Em muitos casos, o que acontece é o oposto: a pessoa que faz uso do medicamento normalmente não vai sozinha, ela vem acompanhada de familiares ou amigos que não utilizam e consomem normalmente. Na prática, uma pessoa com desconto, que consome menos, atrai outra que consome mais, e isso ajuda a manter ou até equilibrar o faturamento. É uma lógica semelhante a outras ações promocionais tradicionais do setor”, explica Taiene Righetto.

O presidente da Abrasel diz ainda que há uma demanda crescente por comidas mais leves, porções menores, pratos mais saudáveis, e isso não é exclusivo de quem usa medicamentos, mas de um público cada vez mais atento à alimentação.

“Alguns estabelecimentos já começam a testar esse caminho, criando opções que dialogam com esse perfil de cliente, sem descaracterizar a experiência gastronômica. Isso amplia o público e diversifica a oferta”, afirma.

Questionado sobre como o uso massivo das canetas emagrecedoras pode afetar o faturamento do setor, Righetto acredita que o impacto não deve ser analisado apenas pelo volume de comida consumida.

“Muitas vezes, menos quantidade não significa menor faturamento. Pelo contrário, pode significar mais margem, menos desperdício e um consumo mais qualificado. Além disso, o cliente continua indo ao restaurante para socializar, viver a experiência, consumir bebidas, entradas, pratos compartilhados. O impacto pode ser negativo para aqueles que ignorarem essa nova demanda, mas que, se adaptando como um algo mais a se oferecer, pode dar bons resultados”, concluiu o presidente.

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