Qual o desafio do lulismo e do bolsonarismo para construir 'herdeiros' políticos
Cientistas políticos apontam semelhanças e diferenças no processo de projeção de lideranças com potencial para suceder Lula e Bolsonaro.
As articulações para a disputa pela presidência da República em 2026 circundam os nomes do atual presidente Lula (PT), pré-candidato à reeleição, e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso e inelegível, mas liderança central da oposição no País e por quem passam as definições deste campo.
Figuras opostas, seja em ideologia ou em trajetória, a força política de Lula e Bolsonaro transformou-se em movimento próprio — o lulismo e o bolsonarismo, respectivamente – e o caráter personalista destas figuras faz com que ambos vivenciem um desafio semelhante: a dificuldade de construir um "herdeiro natural" deste capital político.
"Tanto o Lula quanto o Bolsonaro são extremamente personalistas. E se a gente olha para o próprio eleitorado deles, é um eleitorado que é, muitas vezes, fiel ao nome da pessoa. Quando tem um arranjo político que é muito personalista, é difícil construir as condições de um herdeiro, é difícil vislumbrar isso", pontua a professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres.
Primeiro presidente octogenário a governar o Brasil, a idade é um fator citado com frequência para reforçar que esta deve ser a última eleição disputada por Lula. Aliados do petista chegam a citar a possibilidade de uma chapa pura, com uma candidatura a vice-presidente saída também do PT, para o caso de Lula não poder terminar o mandato.
Figuras como o ministro da Economia, Fernando Haddad (PT), e o ministro da Educação, Camilo Santana (PT), são alguns dos citados para o posto. No entanto, por enquanto, essa possibilidade ainda é tratada como remota. Mesmo assim, existe a perspectiva de um novo nome para liderar a candidatura do PT, ou do campo à esquerda, à presidência da República em 2030, seja para suceder o quarto mandato de Lula, em caso de vitória, ou não.
Para Bolsonaro, a necessidade de um "herdeiro" político que possa disputar a presidência da República é mais urgente. Impossibilitado de ser candidato, ele apresentou a pré-candidatura do filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL), para a disputa de 2026.
O 'filho 01' tem o "sobrenome que garante espaço", mas não tem o mesmo "apelo nacional" do pai, considera a cientista política Mariana Dionísio. Professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), ela cita outros nomes que tentam viabilizar a candidatura à direita, como os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, e Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás.
Contudo, acrescenta Dionísio, há um "desinteresse" de Bolsonaro na candidatura de Tarcísio, enquanto Caiado possui uma "menor capacidade de mobilização nas redes e entre os eleitores mais jovens do bolsonarismo". "A figura de Jair Bolsonaro ainda concentra capital simbólico, controle da base e poder de veto, o que dificulta a emergência de um sucessor claro, sobretudo porque o maior empecilho tem sido driblar as vontades da família Bolsonaro", acrescenta.
Sobrenome versus Partido
Existe mais uma diferença fundamental no processo de construção de um herdeiro político por Lula e por Bolsonaro, afirma o cientista político e pesquisador do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Robson Carvalho. "São projetos distintos, são vidas políticas com histórias distintas. Um tem um projeto político-familiar, que é o Bolsonaro, e o outro tem um projeto coletivo, de partido, que é o caso de Lula", resume.
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Para explicar, o pesquisador divide o eleitorado de Lula em duas fatias: uma delas é formada por aqueles que "confiam na figura" do presidente e, mesmo quando "não simpatizam tanto com o partido", votam no petista. Esse capital político “mais pessoal” do Lula é mais complexo de transferir inteiramente a um sucessor, argumenta. "Pode ser transferido por um pedido ou pela indicação dele, mas podem ter pessoas que não se identifiquem (com o indicado) e vão procurar outros nomes no campo progressista ou pela esquerda", afirma.
Contudo, existe uma outra fatia do eleitorado de Lula formado por "pessoas que votam pelo projeto, pelo partido, porque se identificam com o partido". "E isso minimiza a dificuldade para você direcionar um sucessor", considera.
"Não se constrói uma liderança política de amplitude nacional do dia para noite. Há necessidade de um longo trabalho e de uma longa trajetória. Mas ele (o sucessor de Lula) larga na frente, quando se compara com Bolsonaro, porque ele tem uma estrutura partidária que lhe dá capilaridade", reforça.
"O capital político que sairá de Lula para um próximo nome é, em parte, composto por um peso partidário simbólico e, a outra parte, é composto por um peso pessoal da própria figura do presidente Lula. O capital político partidário é mais fácil de ser transferido, porque é um grupo que vai marchar sempre unido com aquele partido, com aquelas ideias, com aquele projeto, com o progressismo, com o centro-esquerda".
O capital político de Bolsonaro, por outro lado, "não tem lastro partidário", acrescenta o pesquisador. Atual legenda do ex-presidente, o PL é o nono partido desde o início da vida política de Bolsonaro. "Ele não tem essa capilaridade partidária com segurança, porque amanhã, se Valdemar da Costa Neto disser 'sai daqui', ele sai, ou se não for conveniente, o Bolsonaro muda de partido", explica.
A força política, portanto, está vinculada à "identidade" de Bolsonaro, o que torna complexa a transferência de capital político.
"E há o fato de que o capital político dele é um capital muito radicalizado, que é o perfil dele, e que tem uma dificuldade de ser transferido. Não tem como apontar, de fato, um sucessor. Pode apontar alguém que vai receber o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro que terá uma parte dos seus votos", acrescenta.
"No bolsonarismo, o capital político de Jair Bolsonaro não é apenas familiar, é carismático, pessoal e intransferível", concorda Mariana Dionísio. "Para complicar ainda mais, o PL convive com uma fragmentação interna que prejudica as escolhas políticas dos eleitores e eleitoras, na medida em que governadores, parlamentares e lideranças digitais disputam espaço, muitas vezes competindo entre si, sem coordenação".
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A falta de 'fidelidade' fora do clã familiar
Ter o sobrenome Bolsonaro pode facilitar a "herança política", apontam os cientistas políticos, mas a identidade dos próprios integrantes do "clã Bolsonaro" é distinta do ex-presidente e, sem a presença de Bolsonaro no centro das articulações, devido à condenação pelos atos golpistas do 8 de Janeiro, as divergências na família estão sendo cada vez mais expostas.
Michelle Bolsonaro, por exemplo, "consegue herdar parte do capital simbólico, sobretudo no eleitorado evangélico e no bolsonarismo mais identitário", avalia Mariana Dionísio. "Ainda assim, sua viabilidade depende de construir densidade política própria, e para isso ela teria de enfrentar os próprios filhos de Bolsonaro", diz.
Flávio Bolsonaro também "pode herdar uma parte desse capital político familiar", projeta Robson Carvalho. "Mas não a totalidade. Inclusive porque ao longo do tempo uma das coisas que mais se ouvia, durante o próprio governo do Bolsonaro, dos apoiadores dele, era 'ah, o problema dele são os filhos dele'", relembra.
Para o cientista político, a tendência é de que, se confirmada a candidatura de Flávio Bolsonaro para presidente, um ou mais nomes vinculados a direita também concorram ao Palácio do Planalto — "setores da direita e da centro-direita que precisam ainda do apoio do bolsonarismo, mas ao mesmo tempo querem desintoxicar", como descreve o cientista político.
"Tarcísio de Freitas teria maior potencial eleitoral", projeta Dionísio. "Mas vem com um inconveniente: não carrega o sobrenome Bolsonaro". Para Monalisa Torres existe mais um problema no nome do governador de São Paulo: "ele não é fiel ao líder", resume.
"Em alguma medida, ele está ali querendo se descolar e talvez essa não fidelidade completa à pauta bolsonarista tenha levado dúvida do próprio do próprio Bolsonaro para chancelar essa candidatura".
"Quando eu olho pro Bolsonaro, eu vejo uma figura que parece sentir a necessidade de controle absoluto sobre as candidaturas que ele vai chancelar ou tutelar. Na dificuldade de observar essa possibilidade, ele já recua, ele já distancia, ele já não abraça essa possibilidade".
Renovação de lideranças e a força política do lulismo
A fragmentação de lideranças na direita e a urgência em construir candidatura capaz de mobilizar o capital político do ex-presidente ainda para 2026 tornam a situação do bolsonarismo mais complexa, mas "independente de Bolsonaro estar preso ou não, disputar essa eleição ou não, ele terá um herdeiro". A garantia é do professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa Qualitativa & Estratégia, Adriano Oliveira.
"Nesse sentido, nós não devemos discutir nomes, mas discutir a força de ambos os fenômenos", acrescenta o professor, em referência não apenas ao bolsonarismo, mas também ao lulismo. “Esses fenômenos, independente de nome, se manterão vivos e fortes no eleitorado brasileiro”.
Ele pontua que a eleição de 2026 deve ser fundamental para definir quem será o sucessor desses fenômenos. Por exemplo, no caso de vitória de Lula, o presidente "terá condições de fazer um bom governo, (...) consequentemente, alcançando popularidade, ele poderá escolher seu sucessor", projeta.
"A herança do lulismo, a produção de alguém que vai substituir o Lula dependerá da força do lulismo. Então, se o lulismo ganhar este ano a presidência da República, Lula segue com o lulismo fortalecido e consequentemente em condições de apontar Camilo Santana, Fernando Haddad ou qualquer outro. Mas há uma dependência, obviamente, desta eleição".
O que não significa que essa será uma tarefa simples. Apesar de nomes apontados dentro do PT, como Haddad e Camilo Santana, ou mesmo de fora do partido, como o secretário-geral da presidência, Guilherme Boulos (Psol), ou o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), ainda há um desafio de "renovação de lideranças", aponta Dionísio.
"O presidente Lula tem personalizado a figura do PT há décadas, e essa concentração, por si só, já dificulta a localização de um novo nome. Lula concentra um capital político carregado de carisma, discurso com grande alcance e trajetória dentro do partido, o que faz com que seu nome seja sempre o primeiro a surgir quando o assunto é a disputa presidencial. E é aí que está o elemento complicador: todos os outros nomes do partido parecem auxiliares, não lideranças autônomas".
Para ela, ainda há uma dificuldade "para que outros nomes consolidem uma conexão eleitoral apta a ganhar eleições presidenciais", principalmente pelos espaços assumidos atualmente pelo presidente Lula.
"No cenário político de hoje, um possível sucessor tende a ser construído mais por circunstâncias políticas, desempenho de governo e capacidade de diálogo com o eleitor popular do que propriamente por indicação direta ou capital simbólico automático", finaliza.