Estratégia nacional do PL pode bagunçar articulação da oposição no Ceará

Caso decida ter candidato próprio no Estado, o partido de Flávio Bolsonaro poderia fragmentar a oposição.

Escrito por
Inácio Aguiar inacio.aguiar@svm.com.br
Legenda: Recentemente, a pedido de Jair Bolsonaro, Rogério Marinho (à direita) anunciou desistência da pré-candidatura ao governo do Rio Grande do Norte para coordenar a campanha de Flávio, nacionalmente
Foto: Agência Senado

Um elemento novo para o momento de pré-campanha nacional poderá interferir na montagem das chapas para a disputa ao governo do estado em 2026. Uma articulação nacional do Partido Liberal (PL) indica querer reposicionar prioridades e pode gerar problemas inesperados para a montagem das chapas de oposição, em especial a que pretende ter Ciro Gomes como candidato ao governo pelo PSDB. 

O movimento foi revelado pelo jornal O Globo: o PL quer incentivar candidaturas próprias nos estados brasileiros, os chamados palanques puro-sangue, alinhados ao número 22. O objetivo é duplo: fortalecer o discurso nacional do bolsonarismo e ampliar bancadas no Senado e na Câmara dos Deputados, puxadas pela legenda do PL. 

Estratégia começa no Sudeste 

Em estados-chave, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o comando bolsonarista no PL está articulando deixar alianças em segundo plano para fortalecer o palanque nacional liberal, mesmo que isso possa gerar um isolamento político. O recado é claro: a lógica nacional passa a se sobrepor aos acordos regionais. 

É nesse ponto que o Ceará entra no radar. 

Hoje, a oposição cearense opera com dois nomes colocados: Ciro Gomes, pelo PSDB, e o senador Eduardo Girão, pelo Novo.

Ciro, neste momento, aparece como o nome mais robusto do campo oposicionista. Seu grupo disputa com o governo a atração da federação formada por União Brasil e Progressistas, em busca do maior tempo de propaganda em rádio e tv.

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Aliança entre PL e PSDB abalada 

Aliados de Ciro, nos bastidores, consideram que uma aliança com o  PL está encaminhada, mesmo após o afastamento político determinado nacionalmente. O interlocutor é o deputado André Fernandes, principal nome do bolsonarismo no Estado. A leitura, até aqui, era de que o PL poderia compor. 

A estratégia nacional, porém, pode bagunçar a articulação. Se a direção do partido decidir exigir candidatura própria, o efeito imediato seria a fragmentação da oposição. Em um cenário de três palanques. Essa realidade poderia beneficiar o governador Elmano que disputaria a reeleição em um cenário de oposição dividida. 

Estratégia impõe sacrifícios locais 

Não seria a primeira vez que o PL determina sacrifícios locais em nome de uma estratégia maior. No Rio Grande do Norte, o então pré-candidato ao governo Rogério Marinho retirou-se da disputa a pedido do ex-presidente Jair Bolsonaro para coordenar a campanha do filho. O episódio deixou claro, para aliados e adversários, que as decisões nacionais têm precedência sobre projetos regionais. 

No Ceará, a eventual imposição de um candidato próprio do PL não apenas bagunça a articulação local como pode obrigar a oposição a reverter sua estratégia em sobrevivência eleitoral.  

Caso essa hipótese se confirme, o debate de 2026 no Ceará pode ganhar um contorno diferente diante da lógica implacável de uma eleição cada vez mais nacionalizada.