Após desajustes, oposição na Alece quer volta de 'cafés', reforça apoio a Ciro e aguarda PL e União
Grupo tentar emplacar palanque único para 2026, mas crises e indefinições nacionais freiam articulações.
Entre desencontros e expectativas, a oposição da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) entra no ano eleitoral na tentativa de resolver pendências para o almejado palanque único da oposição. O grupo terminou 2025 em crise após o rompimento do PL Ceará com Ciro Gomes (PSDB), mas busca reforçar o apoio ao ex-ministro e retomar os encontros semanais.
Conforme deputados ouvidos pelo PontoPoder, o campo oposicionista também aguarda as definições da sigla bolsonarista e do União Brasil. Enquanto o PL vive incertezas diante da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) que ecoam a nível estadual, o último ainda formaliza um processo de Federação com o PP e passa por uma disputa interna, acerca do apoio ao governador Elmano de Freitas (PT), entre nomes ligados ao Palácio da Abolição e opositores declarados.
É nesse cenário de nova ruptura que os encontros semanais da ala opositora da Assembleia Legislativa devem ganhar centralidade em 2026. Por meio do chamado “Café da Oposição”, o grupo tem debatido as estratégias para a Casa e o pleito eleitoral, recebendo políticos aliados.
O grupo já articula o primeiro “Café” do ano para 3 de fevereiro, data programada para a 1ª sessão ordinária de 2026, na terça-feira, logo após o fim do recesso parlamentar. A perspectiva é contar com as presenças de Ciro Gomes (PSDB), Capitão Wagner (União) e Roberto Cláudio (União).
No entanto, a participação do deputado federal André Fernandes (PL) não é esperada no primeiro momento. A partir da pausa anunciada pelo PL, interlocutores avaliam que o parlamentar só deve retornar aos encontros após uma nova deliberação nacional, tendo em vista o peso de ser o presidente estadual da sigla.
Ao mesmo tempo, conversas internas dão conta de que André segue em conversas constantes com o grupo, inclusive com o próprio Ciro, mas a retomada das articulações publicamente ainda deve demandar um tempo. O grupo defende que houve uma “pausa” na construção entre o PL e o ex-ministro, não uma ruptura.
“Houve aquele estresse momentâneo, mas depois já aconteceu conversa entre André Fernandes, Roberto Cláudio, o próprio Ciro, para que a aliança seja mantida no estado do Ceará (...) Ele (Ciro) agora está na organização (partidária) e, em breve, será feito o lançamento da pré-candidatura de Ciro ao governo do Estado”
MESA DE NEGOCIAÇÃO
Mesmo diante de outras crises no ano passado, o “Café da Oposição” têm conseguido reunir, de forma regular, os deputados do PL, do PSDB e das alas do PDT e do União que se opõem ao Governo Elmano de Freitas (PT), independentemente de crises e de outras deliberações dos diretórios.
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No episódio mais recente, o PL anunciou a suspensão das negociações de apoio a Ciro na disputa pelo Governo do Ceará, em dezembro de 2025. O caso acabou expondo a resistência interna ao nome do tucano.
A crise envolveu, ainda, as desavenças públicas entre André Fernandes e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. A esposa do ex-presidente tem defendido o apoio ao nome de Eduardo Girão (Novo) para representar a direita na disputa, enquanto o parlamentar costurava aliança com Ciro.
Líder do PL na Casa, a deputada Dra. Silvana (PL) ressalta que as negociações do grupo opositor seguem da mesma forma em 2026, mas a deliberação nacional só deve ser confirmada após o período de janela partidária, entre março e abril.
“O PL quer apoiar o candidato que vai ganhar. E o candidato que vai ganhar é o Ciro”, defende a parlamentar, ao afirmar que André será o responsável pelas articulações no Estado.
A posição é reforçada pelo esposo da política, o deputado federal Dr. Jaziel (PL). Para o parlamentar, mesmo diante da suspensão anunciada pela legenda, os nomes da ala opositora seguem trabalhando com a perspectiva de ter Ciro como o nome mais competitivo para a corrida eleitoral.
“O que está alinhavado é que será o Ciro mesmo, mas falta realmente a ordem de lá, do comando nacional. Mas o André está alinhado nessa perspectiva, nós todos, nessa perspectiva. A menos que surja um fato que desagregue. A gente está aqui pedindo a Deus para o Ciro estar dentro dessa trilha, se conter. Aí ajuda muito a nós todos”
O PAPEL DO GRUPO DA ALECE
A própria Assembleia Legislativa foi o palco do que foi considerado o primeiro movimento mais explícito de aproximação de Ciro com diferentes alas da oposição. Em um encontro de maio de 2025, o ex-ministro foi tratado como potencial candidato ao Governo do Ceará e anunciou apoio à pré-candidatura de Alcides Fernandes (PL), pai do André, ao Senado.
As conversas motivaram a construção de uma estratégia de frente ampla para o pleito eleitoral de 2026. Contudo, ao longo de 2025, embates públicos entre lideranças acabaram expondo limitações na articulação.
Foi o caso de julho, quando críticas de Ciro Gomes ao ex-presidente Jair Bolsonaro fizeram André Fernandes recuar das tratativas e dizer que o PL lançaria candidato próprio. A crise foi contornada a partir da atuação de interlocutores, que costuraram uma aproximação que parecia sólida até dezembro.
Agora, o grupo de oposição da Assembleia tem a missão de, mais uma vez, aparar arestas e colocar todos os nomes contrários ao Governo Elmano na mesa de negociação. É nesse ponto que as conversas devem ganhar força dentro do “Café da Oposição” da Alece.
ARTICULAÇÕES PELA SAÍDA DO PDT
A oposição da Alece também vive a expectativa dos rumos partidários dos deputados Antônio Henrique, Cláudio Pinho, Lucinildo Frota e Queiroz Filho. Ambos os parlamentares fazem parte da bancada do PDT na Assembleia, integram o grupo e devem deixar a legenda na janela partidária.
O União Brasil e o PL são apontados como destinos partidários do quarteto, mas as negociações seguem em andamento até a janela partidária. Com a chegada de Ciro, o PSDB também passa a constar nessa equação.
"Nós vamos procurar um partido, dentro do União Brasil ou do PSDB para que a gente possa fazer a nossa filiação. Não só minha, como do grupo também, e alguns poderão ir também para o PL, dentro desse arco de aliança que está sendo montada na união das oposições no Ceará”, indicou Cláudio Pinho.
Por sua vez, Antônio Henrique minimiza os efeitos da decisão anunciada pelo PL para os rumos do grupo. “Se tiver a suspensão para valer, mesmo assim não é uma suspensão que vai levar o PL para o PT, nem nós vamos para o PT. Então, continua sendo oposição, o ‘café’ é da oposição ao governo, não é da oposição entre nós”, salienta.
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INDEFINIÇÕES NO UNIÃO BRASIL
A Federação entre União e Progressistas foi anunciada no ano passado, mas ainda aguarda definições a nível nacional e estadual. No Ceará, lados opostos disputam o comando do arranjo partidário, entre aliados de Elmano, como os deputados Moses Rodrigues (União) e Fernanda Pessoa (União), e opositores declarados, a exemplo de Capitão Wagner (União) e Roberto Cláudio (União).
Membro da oposição, o deputado Felipe Mota (União) entende que muitas definições do grupo ainda dependem das deliberações nacionais. Isso, avalia o parlamentar, só deve ser fechado nos períodos voltados para filiações e coligações partidárias
“Nós estamos mais juntos do que nunca, mas todos nós estamos esperando a questão nacional, que não depende da gente. Não depende, depende mais dos deputados federais essa definição que não é conosco. E aí nós estamos amarrados. Então, não vou dizer para você que estou confortável com isso, porque não estou. Eu queria estar voando nisso aí já, com o PL votando no Ciro, com o PSDB, com União Progressista, mas nada disso foi definido. Nem mesmo o meu partido foi definido”
A ‘RECONSTRUÇÃO’ DO PSDB
Por outra via, como mostrou o PontoPoder, Ciro Gomes tem intensificado a agenda como presidente do PSDB Ceará. Desde a última semana, o dirigente tucano vem recebendo deputados, lideranças e outros políticos do interior na sede do partido em Fortaleza, com o tom de “cada vez mais candidato”, como indicam aliados nos bastidores.
O ex-ministro retornou ao PSDB em outubro do ano passado, assumindo o comando do partido em novembro. Além dele, a legenda filiou o ex-prefeito José Sarto para presidir o PSDB Fortaleza.
Em contato com a reportagem, Sarto avalia que a suspensão anunciada pelo PL foi algo pontual e não muda as articulações desenvolvidas ao longo do ano passado.
“O Roberto (Cláudio) está cuidando, no União Brasil, junto com o Wagner, de tentar fazer, consolidar essa aliança, ainda está longe, mas existe aí um sentimento comum. Nós temos muitas divergências, todo mundo sabe disso, mas o Roberto está fazendo essa ponte com União Brasil e o PL. Temos tido reuniões de discussão de temas, da importância de uma união pelo Ceará mesmo”
Além disso, Sarto reconhece o peso do comando estadual nas definições. “As questões regionais estão sendo direcionadas para as lideranças regionais. Por exemplo, aqui no Ceará, já foi dito pelo PL que a liderança regional que deve fazer essa intervenção é o deputado André Fernandes”, pontua.