Setor de alimentação fora do lar deve perder 75 mil empregos no CE

Estimativa de entidades que representam o segmento projetam que 30% dos estabelecimentos não conseguirão reabrir as portas na retomada. Negócios que conseguirem sobreviver ainda deverão reduzir quadro de funcionários

Legenda: Segundo a Abrasel, mesmo empreendedores que vão conseguir reabrir as portas já estão reduzindo seus quadros ou vão reduzir em cerca de 20% a 30%
Foto: Foto: Helene Santos

Um dos setores mais afetados pelas medidas de isolamento social impostas para reduzir a propagação do novo coronavírus, o segmento de alimentação fora do lar deve perder, só no Ceará, cerca de 75 mil postos de trabalho com o fechamento de negócios do ramo. 

A estimativa é do Sindicato de Restaurantes, Bares, Barracas de Praia, Buffets e Similares do Estado do Ceará (Sindirest-CE), que prevê o fechamento de 30% dos estabelecimentos devido à pandemia. 

O presidente da entidade, Dorivam Rocha, aponta que, em números reais, aproximadamente 7,5 mil casas em todo o Estado não devem conseguir reabrir as portas – 2 mil delas apenas em Fortaleza.

“Fazemos uma média de 10 funcionários por estabelecimento. Esse número varia muito, pois temos negócios com grande variedade, mas, em média, são 10 pessoas, o que dá 75 mil colaboradores demitidos”, explica Rocha. Ao todo, Fortaleza possui cerca de 7 mil estabelecimentos de alimentação fora do lar, empregando 70 mil pessoas, enquanto no Ceará esse número chega a 25 mil negócios e 250 mil empregos diretos.

Redução de quadro
O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Ceará (Abrasel), Rodolphe Trindade, faz projeções de fechamento de negócios e perda de postos de trabalho na mesma ordem, mas avalia que as demissões tomarão proporções ainda maiores. Isso porque os estabelecimentos que sobreviverem não devem conseguir pagar a mesma quantidade de colaboradores e nem terão demanda que justifique a manutenção de todos os funcionários.

“Muitos empreendedores já estão reduzindo seus quadros ou vão reduzir em 20% a 30%. Essa é uma estimativa gentil. Estamos trabalhando com apenas metade da nossa capacidade e, por muito tempo, não teremos demanda que justifique a quantidade de funcionários anterior à pandemia. Se eu tenho quatro garçons, mas só preciso de dois, vou ter que demitir, até porque o faturamento ainda está baixo, não conseguimos pagar todo mundo”, esclarece.

Ele ainda ressalta que o impacto sobre o turismo também é muito significativo para o setor, que integra o trade turístico. “Estava vendo que a Fraport (administradora do Aeroporto de Fortaleza) prevê retorno da movimentação de passageiros a níveis anteriores à pandemia somente em 2023. O turismo representa de 25% a 30% do PIB de Fortaleza e 12% do PIB do Estado. É um impacto gigantesco”.

O presidente da Abrasel ainda compara a importância da atividade turística para o Ceará como para França, país que mais recebe visitantes no mundo. “A França recebe 90 milhões de turistas por ano e o turismo representa apenas 7% do PIB de lá. Claro que a diversificação econômica lá é muito maior, mas, proporcionalmente, isso quer dizer que o turismo é mais importante para o cearense que para o francês”, argumenta.

Trindade ainda lamenta que o impacto da pandemia continue se alastrando nos próximos meses e impactando não só os negócios, mas também as pessoas. “Sem dúvida, teremos um impacto social significativo. O nosso setor emprega pessoas de todas as classes e as insere no mercado de trabalho de forma muito rápida; damos oportunidade de crescimento, um cumim passa para garçom muito rápido, por exemplo; e acolhemos empreendedores sem precisar de um investimento fabuloso. Não é raro encontrar garçons que colocaram o próprio restaurante, a própria pousada. Mas não vejo empreiteiras cujos donos sejam pedreiros, geralmente são os engenheiros”, observa.

Retomada
O presidente do Sindirest, Dorivam Rocha, ressalta que não vê mais motivo para parte do segmento ainda permanecer fechado por acreditar que os restaurantes são mais seguros em termos de contaminação que outras atividades que já foram liberadas 100%. 

“Nós já trabalhamos com uma série de protocolos sanitários mesmo antes da pandemia. A adaptação que tivemos que fazer para poder reabrir foi pequena. Se ainda passarmos muito mais tempo fechados, muita gente ainda vai sair do mercado por conta dessa demora. Esse percentual de 30% pode facilmente dobrar”, dispara Rocha.

Crédito
Uma das principais ferramentas utilizadas para evitar novas falências, o crédito não tem conseguido ser acessado com facilidade. Segundo Rocha, cerca de 0,5% dos negócios tiveram algum empréstimo ou financiamento aprovado. “O crédito não existe, está muito limitado, a gente não tem relato de empresas que conseguiram. Além disso, os aplicativos de delivery – atividade pela qual pouco do faturamento dos restaurantes conseguiu ser mantido – estão contribuindo para o fechamento dos negócios. Eles cobram 30% do valor de cada pedido enquanto os estabelecimentos estão com pouca demanda e receita”, revela.

Pensando uma alternativa, o Sindirest, em parceria com a Solução Sistemas, irá lançar um aplicativo próprio de entregas em agosto: o Pensou Chegou. Inicialmente, a plataforma estará disponível apenas na Capital e promete mais vantagens também para os consumidores.