Leilão prevê R$ 800 milhões em equipamentos para reduzir perdas de energia no Ceará

Três compensadores síncronos serão instalados nas subestações de Quixadá e Morada Nova.

Escrito por
Milenna Murta* milenna.murta@svm.com.br
Imagem mostra um compensador. Um equipamento grande a azul.
Legenda: Compensadores síncronos são equipamentos capazes de aumentar a capacidade do sistema de transmissão de energia. Imagem ilustrativa mostra o equipamento produzido pela WEG.
Foto: WEG, Divulgação.

O Ceará participará da nova rodada de leilões de linhas de transmissão de energia prevista para o 1º trimestre de 2026. Serão contempladas as cidades de Quixadá e Morada Nova, que receberão equipamentos usados para regular a tensão e a potência em subestações, conhecidos como compensadores síncronos. Ou seja, dispositivos capazes de reduzir os cortes de energia.

O aporte previsto para o Estado é de R$ 800 milhões, com a geração estimada de 2.400 empregos durante a implantação, embora parte dessas vagas também possa ser preenchida fora do Ceará por envolver também a etapa de fabricação, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

O valor destinado ao Ceará representa 13% do total reservado para as instalações em todo o País, de R$ 5,8 bilhões. 

Os leilões ocorrem em meio à crise do setor, em que o estado ocupa a 4ª posição no ranking nacional de maiores perdas energéticas devido aos cortes de geração de energia, fenômeno chamado de curtailment.

Para especialistas, o investimento deve ajudar a aliviar o cenário, mas ainda não é suficiente para solucionar o problema (leia análise abaixo).

Detalhes do leilão 

O edital do Leilão de Transmissão nº01/2026 foi encaminhado ao Tribunal de Contas da União (TCU) para análise e aprovação na última terça-feira (11). Ao todo, serão cerca de R$ 5,8 bilhões em investimento para 10 lotes a serem licitados em 11 estados do País. 

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O leilão será realizado em 27 de março de 2026, com contratos previstos para junho, e as empresas terão de 42 a 60 meses para concluir as obras. o que deve gerar melhorias no escoamento da energia renovável até o fim de 2029. 

O Lote 3, onde estão estabelecidas as subestações cearenses, também contará com a construção de outros dois compensadores síncronos em duas cidades do Rio Grande do Norte: Ceará-Mirim e Açu. No total, o investimento desse lote será de R$ 1,4 bilhão.  

O que muda para o Ceará?

Para Felício Santos, diretor de Assuntos Regulatórios do Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Estado do Ceará (Sindienergia-CE), a instalação dos compensadores síncronos contribuirá para aliviar a situação dos cortes de geração, pois “são equipamentos que ajudam no controle de tensão e são extremamente importantes para estabilizar cargas conectadas ao sistema elétrico”.

Raphael Amaral, professor do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Ceará, observa que, com o leilão, a principal mudança a ser percebida é no escoamento de energia.

Com esse escoamento e uma queda vertiginosa nos cortes de geração, o impacto previsto é a atração de novos investimentos de geração renovável aqui para o nosso Estado - tanto na área eólica, como na área solar".
Raphael Amaral
Professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFC
 

Os compensadores resolverão o problema do setor?

Joaquim Rolim, gerente de Desenvolvimento Sustentável da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), também avalia que surgirão ampliações na capacidade do sistema elétrico nacional devido às obras. Entretanto, ele aponta que outras medidas são necessárias.

"Mais linhas de transmissão, a implantação de sistemas de armazenamento de energia para a redução das perdas de energia atuais e buscar atender, também, às novas demandas previstas para data centers e hidrogênio verde", diz.

Para Amaral, demandas de armazenamento, planejamento e crescimento, bem como um reforço na rede de distribuição, também precisam ser analisadas e solucionadas.

Ele enfatiza, ainda, que é necessário haver uma integração dessas linhas de transmissão com os demais submercados, para que haja tanto o escoamento quanto o armazenamento e o investimento em novas tecnologias do sistema elétrico.

Os especialistas apontam que, apesar de aparecer no cenário cearense como um meio de solucionar o fenômeno do curtailment, o leilão, sozinho, não é capaz de encerrar essa questão. “O leilão vem para amenizar o problema, mas não é a única solução e não é a resposta para todos”, conclui Raphael.

O que é curtailment?

De acordo com um relatório da ePowerBay divulgado em outubro, o Ceará perdeu mais de 3 milhões de megawatts-hora (MWh) entre outubro de 2021 e setembro de 2025. O decréscimo seria capaz de abastecer cerca de 16 milhões de casas por mês.

Amaral explica que o termo estrangeiro se refere ao “corte na geração de energia”.

"Eu tenho uma geração, principalmente de energia solar durante o dia, que eu não tenho para quem consumir, para quem escoar, porque uma das grandes restrições da energia elétrica é que, no momento em que eu gero, eu tenho que consumir essa energia elétrica"

O docente explica que o curtailment afeta o bolso do consumidor final. “Nós poderíamos estar aproveitando essa energia, pagando mais barato e não tendo que pagar a bandeira tarifária vermelha, como é o nosso caso agora”, enfatiza.

*Estagiária sob supervisão do jornalista Hugo R. Nascimento.

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