Balança comercial do Ceará em maio tem pior resultado em dois anos

Déficit de US$ 114,1 milhões no mês reflete aprofundamento dos impactos da pandemia, aponta gerente do Centro Internacional de Negócios. Projeção para volume exportado pelo Estado no ano caiu de US$ 2,5 mi para US$ 2 mi

Legenda: Fortes na pauta de exportação cearense, ceras vegetais, couro e pescados perderam espaço frente à pandemia
Foto: Foto: Camila Lima

Os efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre a economia ampliou o déficit da balança comercial cearense em maio. De acordo com dados da plataforma ComexStat - que reúne números sobre comércio exterior - do Ministério da Economia, a diferença entre as importações e as exportações no quinto mês do ano resultou em um saldo negativo de US$ 114,1 milhões. É o pior déficit mensal da balança comercial cearense desde maio de 2018, quando o saldo ficou negativo em um volume de US$ 152 milhões. No ano, o déficit acumulado é de US$ 257,8 milhões.

Os resultados dos últimos meses levaram a superintendente do Centro Internacional de Negócios do Ceará (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Ana Karina Frota, a rever as projeções para as exportações cearenses em 2020. A estimativa inicial era de US$ 2,5 bilhões em vendas para o exterior.

"Nós tínhamos a expectativa de superar em 2020 (o volume) do ano passado (US$ 2,3 bilhões). Com a pandemia, essas projeções todas caíram e nossa economia se tornou um substantivo desconhecido. Em dezembro, mesmo que a gente consiga um ritmo favorável, digo de forma muito otimista, chegaríamos a US$ 2 bilhões", aponta. Se a projeção se confirmar, o volume de exportação pelo Ceará encerraria 2020 com uma perda de 13% em relação ao ano passado.

Para Ana Karina Frota, os números de maio mostram com mais clareza os impactos da Covid-19. "Por ocasião da pandemia, nós tivemos cancelamentos de pedidos que já estavam sendo faturados, devoluções. Essas desistências explicam a retração observada nas exportações", explica.

Em maio deste ano, as exportações cearenses somaram US$ 121,54 milhões. Em abril, a cifra era US$ 126,8 milhões e, em março, US$ 211,6 milhões. "Até o primeiro trimestre, as exportações se mostravam superiores em relação ao acumulado do período em 2019, apesar de que, em março, nós já tínhamos o início da pandemia", explica Ana Karina Frota. "Em maio, nós exportamos metade, em relação às exportações de março, em consequência da pandemia", lamenta.

Pauta de exportação

Ao todo, as exportações do Estado nos cinco primeiros meses do ano somaram US$ 803,7 milhões em vendas. "Nós temos setores tradicionais que perderam espaço em 2020", detalha Ana Karina Frota, destacando produtos como as ceras vegetais, couro e o setor de pescados. "Todos eles registraram quedas expressivas nos últimos dois meses", frisa.

Entre os principais produtos exportados pelas empresas cearenses entre janeiro e maio deste ano estão o itens ferro fundido, ferro e aço (US$ 424,3 milhões) - impactados diretamente pela produção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP); calçados e artefatos semelhantes (US$ 78,4 milhões); máquinas, aparelhos e materiais elétricos (US$ 71,5 milhões); frutas, cascas de frutos cítricos e de melões (US$ 63,6 milhões) e gorduras e óleos animais ou vegetais (US$ 25,5 milhões).

Já nas importações, que somaram em 2020 US$ 1,06 bilhão, os principais itens são combustíveis minerais (US$ 375,2 milhões); reatores nucleares, caldeiras, máquinas aparelhos e instrumentos mecânicos (US$ 115,5 milhões); cereais (US$98 milhões); máquinas, aparelhos e materiais elétricos (US$ 88,8 milhões) e produtos químicos orgânicos (US$ 65 milhões).

"A gente teve um número bem expressivo no valor importado dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) como luvas, testes, entre outros para o combate à Covid-19", nota Ana Karina Frota, destacando compras de insumos para enfrentar a pandemia realizadas por empresas cearenses e pelo próprio Estado.

Terceiro trimestre

Mesmo com o movimento do Estado e de outros mercados internacionais de reabrirem gradualmente as economias, o que deve servir também para dinamizar o comércio exterior, Karina aponta que as perspectivas para o terceiro semestre em meio à continuidade do contexto de pandemia ainda são negativas.

"Haverá um esforço muito grande das empresas para manter os empregos, manter os parceiros comerciais no exterior", pondera a superintendente do CIN/Fiec em relação às empresas cearenses.

Ela ainda reflete que, com o passar dos picos de casos em outros países, medidas dos principais mercados globais com o intuito de proteger a produção interna podem dificultar a realização de negócios internacionais.

"Podem acontecer movimentos de protecionismo com os produtos que chegam do exterior. Esses impactos que nós observamos nas cadeias globais de suprimentos do comércio internacional estão evidenciados em todo o mundo", diz ela.

Alternativas

Ana Karina pontuou ainda que, para fortalecer a atividade, é necessário um trabalho importante com as micros e pequenas empresas. "Nós temos que buscar alternativas para tracionar essa atividade e, de forma otimista, termos uma recuperação no último trimestre deste ano", diz.

Ela diz acreditar que "talvez seja possível começar a respirar a partir de outubro ou novembro". "Mas comparado com as projeções de antes, a gente não chega nem perto", lamenta.

A balança comercial do Ceará registrou um déficit de US$ 114,1 milhões em maio, o pior resultado mensal desde maio de 2018 (-US$ 152 milhões). Em meio à pandemia, volume de exportações pode cair 13% neste ano

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