Adesão a novo programa de redução de jornada no Ceará deve ser menor em 2021

Embora celebrem a medida, que é considerada necessária pelo setor produtivo, lideranças empresariais avaliam que impacto será menor neste ano porque muitos negócios não resistiram ao avanço da pandemia e já fecharam as portas

Homem em um restaurante e a redução de jornada
Legenda: Só no setor de bares e restaurantes, 90 mil empregos em todo o Ceará devem ser preservados, caso o programa seja de fato retomado
Foto: Helene Santos

Com retorno praticamente acertado, o programa de redução de jornadas e salários e de suspensão de contratos do Governo Federal é visto com bons olhos pelo setor produtivo cearense para aliviar a pressão provocada pelo endurecimento das medidas de isolamento no Estado. Contudo, já não deve ter o mesmo impacto de 2020. Isso porque, de acordo com lideranças empresariais, muitos empregos e negócios não resistiram à retomada de medidas preventivas mais duras combinadas ao fim do programa em 2020.

O vice-presidente da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), André Montenegro, avalia que o programa foi uma salvação durante o isolamento social rígido e que muitas indústrias deixaram de demitir a partir do advento do Benefício Emergencial (BEm).

"Mas as empresas, naquele momento, tinham fôlego para bancar a parte que cabia aos empresários, porque o governo arca com uma parte e o empresário arca com a outra parte. Hoje, eu acho que será um pouco mais sofrido", avalia. "Mas sem esse retorno, será muito pior".

Na avaliação do presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Ceará (FCDL-CE), Freitas Cordeiro, o programa "foi um dos mais assertivos adotados pelo Governo".

"O desemprego é preocupante. Essa prorrogação tinha que ter ocorrido antes, porque muitas empresas acabaram não conseguindo segurar seus funcionários com o fim do programa (em dezembro), mas não vamos dizer que não seja bom prorrogar. Porém, poderia ter sido bem mais benéfico (antes)", diz.

Ele corrobora que, para o comércio, a retomada da redução de jornadas e salários e de suspensão de contratos não terá a mesma resposta de quando foi implementado, em 2020. "Nós ainda não temos esses números, mas muitas empresas não suportaram. Foi muito benéfico, mas acredito que (o programa) não terá a mesma extensão que teve", afirma o presidente da FCDL-CE.

Mais de 90 mil devem ser afetados

No setor de bares e restaurantes, mais de 90 mil trabalhadores em todo o Estado devem ser incluídos no programa, sendo 30 mil só em Fortaleza. O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Ceará (Abrasel-CE), Taiene Righetto, pontua que os estabelecimentos da Capital têm sido fortemente impactados pelo avanço das restrições com o crescimento no número de casos e óbitos por covid-19.

Com isso, 40% negócios do ramo no Estado acabaram fechando as portas definitivamente desde o início da pandemia, quando havia seis mil estabelecimentos em funcionamento no Estado. "(O retorno do programa) é um pedido que a Abrasel-CE, via Abrasel nacional, tem articulado fortemente junto ao Governo Federal", aponta.

"No Ceará, (a medida) deve beneficiar mais de 90 mil trabalhadores que ainda mantêm seus empregos e, em Fortaleza, atingir 30 mil trabalhadores. Isso é muito importante, visto que na Capital as demissões tem ocorrido de forma exponencial. Acho que isso vai trazer um grande alívio para o setor, mas ainda é preciso um olhar diferenciado para os bares e restaurantes"

"É um primeiro passo importante para estancar essa onda de demissões e falências. Agora o próximo é pensar na retomada assim que possível", destaca Righetto.

Cadeia de eventos em dificuldade

A presidente da Câmara Setorial de Turismo e Eventos da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), Anya Ribeiro, também pontua que muitas empresas do setor de eventos não sobreviveram e outras estão basicamente sem empregados, porque "não houve retomada do setor, mas sim uma tentativa de sobrevivência". "O setor precisa de crédito", avalia. "A maioria das empresas dispensou seus funcionários porque elas não suportaram", diz.

A visão é compartilhada pela presidente do Sindicato das Empresas Organizadoras de Eventos e Afins do Estado do Ceará (Sindieventos-CE), Circe Jane Teles da Ponte. "(O programa) ajudou muitas empresas a permanecerem com seus quadros de alguma forma, mas ao longo dos meses, o decreto estadual foi se prolongando e as empresas não retomaram suas atividades e tiveram realmente que demitir", diz.

"Acredito que o impacto vai ser bem menor, porque haverá pouca adesão. As empresas estão muito fragilizadas, porque estamos demorando muito a retomar e isso nós vemos principalmente nas pequenas empresas. Para os negócios maiores, as empresas grandes do segmento de entretenimento, acho que (o programa) vai ser importante para dar uma minimizada nos efeitos da pandemia", aponta Circe Jane.

O governo anunciou, em fevereiro, um pacote com medidas de alívio para o setor, que incluiu o pagamento de auxílio financeiro de R$ 1 mil para profissionais do ramo.

De acordo com Circe, no setor de eventos corporativos cearense, 90% das empresas são micros e pequenas. Atualmente, há 6.400 empresas registradas como organizadoras de eventos no Ceará.

Estratégias para manter empregos

Legenda: Estratégia ajuda a preservar empregos em meio à crise, aponta presidente da ABIH-CE
Foto: Camila Lima

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Ceará (ABIH-CE), Régis Medeiros, ressalta que o programa continua sendo muito importante diante do novo avanço da doença. "Foi fundamental, porque teria ocorrido uma leva de demissões gigante se não fosse o programa. Nesse momento, continua sendo muito importante, mas o grau de impacto dessa medida sobre o turismo dependerá das medidas que serão tomadas no decreto estadual".

"Com a retomada do programa estabelecido por meio da Medida Provisória 936, as empresas poderão montar suas estratégias para manter os empregos", detalha. "Demitir é caro e, quando a situação melhorar, vai ser necessário contratar de novo. Então o mais racional é ter essa ajuda e manter as pessoas trabalhando em uma carga menor", acrescenta Régis Medeiros.

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