Aos 70 anos, o cantor Fagner partilha orgulhos, arrependimentos e novos sonhos

Em entrevista exclusiva ao Sistema Verdes Mares, o cearense afirma que este "é o momento mais incrível que poderia estar vivendo"

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Ao completar 70 anos de idade neste domingo, o músico cearense é convidado a refletir sobre a trajetória pessoal e profissional FOTO: KID JÚNIOR

As paixões, Raimundo Fagner carrega todas consigo. No peito, está a camisa do Fortaleza Esporte Clube e, na mente, a música inédita de um novo disco ainda em construção. Substitui a blusa e interrompe a gravação com os amigos num estúdio em Fortaleza por um só motivo: é preciso refletir sobre a chegada da nova idade, os bem vividos 70 anos, festejados hoje (13), em Fortaleza e Orós.

No caderno de dona Chiquinha, sua falecida mãe, estão as informações iniciais do cantor e compositor das multidões: "13 de outubro de 1949. O parto foi feito em casa, na Rua Floriano Peixoto, 1779, Centro da cidade". O filho caçula do imigrante libanês Youssef Fares Haddad Lubous e da cearense Francisca Candido já sonhava ser grande desde pequenininho, só não imaginava viver sete décadas "com essa força, ainda com muito apetite, na estrada, show direto e com esse carinho do público que realmente não tem preço".

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Imagens da família materna e paterna de Raimundo Fagner FOTO: HELENE SANTOS

Do garoto que partiu para Brasília a fim de estudar Arquitetura e/ou Administração no início da década de 1970, ao homem com mais de 40 anos de carreira artística consolidada, um sentimento se mantém: é preciso arriscar o presente em favor do futuro. E essa lógica inclui deixar a terra natal, largar a faculdade, viver em condições precárias na juventude, morar de favor na casa de conhecidos, viajar para outro país sem falar o idioma, fechar e desfazer negócios com gravadoras por desconfiança. Mas também engloba conquistar parcerias e gravar discos com os principais músicos do Brasil e do mundo, além de ser adorado por milhares de fãs que o acompanham em sucessos como "Mucuripe", "Borbulhas de Amor" ou "Deslizes".

Ao longo dos anos, eu tive esse público do meu lado, quer eu estivesse num momento bom, quer eu estivesse num momento mais ou menos e até ruim, mas a presença de todos sempre foi importante e cada vez mais. Eu não esperava, sinceramente, chegar aonde eu estou chegando com o respeito, com uma idolatria, uma sintonia com o que a gente faz, com o que a gente fez, com as coisas que foram gravadas, que aconteceram ou não. Esse público é realmente a coisa que mais me orgulha", reverencia o cearense ao lançar um olhar sobre toda a trajetória profissional.

Encontros

Homem que sempre privilegiou o coletivo, Raimundo Fagner dificilmente esteve só. Morou com Jorge Mello, Wilson Cirino e Belchior, mas também com Elis Regina e Ronaldo Bôscoli; frequentou o sítio dos Novos Baianos; e ainda deu voltas de carro com Roberto Carlos (a quem sempre quis se equiparar profissionalmente, diga-se de passagem).

O cearense conviveu com a maior parte dos artistas brasileiros famosos em sua geração: Jorge Amado, Glauber Rocha, Nara Leão, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Patativa do Assaré, Cazuza, João Gilberto, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso (apesar das diferenças com o último) são apenas alguns exemplos de quem cruzou o seu caminho. E olhe que aqui pouco se falou de futebol, arte da qual Pelé e Zico são dois amigos representantes.

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O músico cearense conviveu com a maior parte dos artistas brasileiros famosos em sua geração FOTO REPRODUÇÃO: HELENE SANTOS

"Dos músicos que eu procurei trabalhar, gravar, sempre selecionei os que achava mais capacitados e também os que estavam disponíveis, não só aqui, como fiz isso nos EUA, na Inglaterra, na Espanha", recapitula Fagner. Mas foi realmente no Ceará que o descendente de libanês encontrou seu principal parceiro musical: o arquiteto Fausto Nilo.

"Por ser meu conterrâneo, por eu não ter tido uma sequência com Belchior, que era meu grande parceiro desde o começo, mas o Fausto ocupou esse espaço, valorizando muito meu trabalho. E eu tenho o maior orgulho dele como amigo, como irmão, como parceiro e de ter descoberto ele pro mercado", observa o cantor.

Expostas essas satisfações, Fagner carrega somente uma frustração nesses 70 anos de vida e mais de 40 de carreira: ter recusado um convite para gravar um disco com o maestro dos Beatles.

Isso é uma coisa que eu guardo com uma tristeza enorme, porque ninguém foi mais beatlemaníaco do que eu, então nesse momento eu não sei onde estava com a cabeça, apesar de ter feito um grande disco nos EUA com as estrelas da época, mas seria só a marca de ter um dia gravado com o maestro George Martin", declara.

Família

As melhores coisas na trajetória não se resumem à carreira musical e aos encontros com parceiros e público. Agora que os pais já se foram, e os irmãos Fares, Elizete e Eliete também, ele partilha a vida, em Fortaleza, com a irmã Marta Lopes, vice-presidente da Fundação Social Raimundo Fagner, que leva arte e educação para 400 crianças e jovens na Capital e em Orós (cidade da família materna). São esses meninos e meninas que o homenagearão hoje, no Cineteatro São Luiz, com a participação especial do aniversariante, e na Praça Matriz do interior. Os espetáculos acontecem às 18h e às 19h, respectivamente.

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Fagner e a irmã Marta Lopes, que catalogou todo o acervo do artista FOTO: HELENE SANTOS

Quando não está na terra natal, o cantor passa boa parte do tempo no Rio de Janeiro, com os seus descendentes. Hoje, o que o motiva a dizer que este "é o momento mais incrível que poderia estar vivendo" é exatamente a presença do filho Bruno e dos netos Clara e Arthur em seu cotidiano. "O 'Tuti' está aprendendo bateria, a Clarinha com certeza será uma modelo! Tão lindos, me dão muita alegria, emoção, apesar da correria da vida e de a gente se ver pouco, porque também são muito ocupados, mas o Bruno está muito no meu dia a dia".

A história do filho, revelada tardiamente, apenas em 2006, consta no capítulo introdutório da biografia do cantor, lançada em abril por Regina Echeverria. O livro "Raimundo Fagner, quem me levará sou eu" (Editora Agir) traz ainda outros acontecimentos importantes, incluindo como se deu cada parceria e intriga também.

Futuro

E será que algo ainda aflige Fagner nessa altura da vida? "Com 70 anos, você se preocupa até de rodar uma calçada ali", confessa entre risos. "Mas, neste ano, a gente também tem isso de estar existindo uma polarização ideológica muito forte, e que o Brasil tem que caminhar pelo centro. A gente tem uma expectativa aí financeira, de nível de esperar do País. Achamos que vamos pra frente, mas damos sempre um passo atrás. Então, a preocupação é que o Brasil possa sair deste momento difícil ideologicamente, economicamente. Eu posso estar bem, mas você está ali ao lado de alguém que está sofrendo, as pessoas estão desempregadas, tudo isso afeta", observa o cantor.

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Fagner toca "The Long and Winding Road", dos Beatles. O principal arrependimento do cearense na carreira é ter recusado gravar com o maestro do grupo britânico, George Martin FOTO: KID JÚNIOR

As mudanças no mercado musical, por exemplo, não deixam de atingi-lo. Mas isso não o desanima, pois existe motivo maior para apostar num repertório de inéditas com parceiros como Renato Teixeira, Moacyr Luz, Fausto Nilo e Zeca Baleiro, ainda que sem previsão de lançamento.

O mercado já acabou, mas a gente está buscando fazer uma música que acredito que possa ainda tocar as pessoas. As gravadoras não esperam mais, mas o público espera, então tem que privilegiar ele, que acompanha a gente há muito tempo", diz.

Talvez por isso, os sonhos a mais curto prazo do cearense sejam saúde para ele próprio tocar a vida e "para que as pessoas possam aguentar este País, porque isso também mata e cansa"; além da conclusão da música interrompida nesses breves momentos de reflexão. "Agora, já posso ir trabalhar?". Eu diria que deve, Raimundo.

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