Projeto cria vaquinha para reformar e adaptar casa de adolescentes com espectro autista

A transformação visa reformar a estrutura da casa e adaptar a organização, a iluminação adequada, a ventilação e a acústica

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Legenda: A estrutura ganhou cômodos como banheiros e quintal aos poucos, por iniciativa própria do pai, mas agora sofre com outros problemas
Foto: Arquivo pessoal

O Projeto TEAdaptar, criou uma vaquinha para reformar e adequar a casa da família de Johnny Weslley, 15, e Gabrielly Liz, 10, ambos portadores do Transtorno do Espectro Autista (TEA). A campanha visa arrecadar R$10 mil, além de doações de materiais de construção e mobília por meio de parcerias, para melhorar a estrutura da moradia e adaptá-la para as necessidades dos irmãos. A iniciativa é da arquiteta Valéria Nogueira, que também é mãe de gêmeas autistas. 

A idealizadora do projeto explica que começou a estudar sobre o autismo por causa das filhas. Desde então, Valéria começou a conviver com associações, outras famílias e passou a enxergar com maior amplitude a falta de acessibilidade na própria casa de pessoas autistas.

“Quando eu comecei a organizar a minha casa e adaptar, as minhas filhas estavam mais organizadas fora, então por que não trabalhar mais isso e mostrar que a gente precisa incluir em casa para a gente incluir o filho fora? Muitas pessoas da família não incluem o filho dentro de casa e ele fica perdido, sem independência, sem autonomia”, informa. 

Assim surgiu o Projeto TEAdaptar, em 2017. A ideia começou com a divulgação de informação, rodas de conversas e vivências com as famílias.

“O TEAdapar é adaptar o espaço para pessoas com autismo, mas não só isso. Significa te adaptar, adaptar os autistas e as pessoas, porque não adianta eu adaptar só o espaço se as pessoas não entendem sobre o autismo”, explana Valéria.

Para colocar o projeto das reformas em prática, a arquiteta passou a buscar famílias com membros autistas que precisassem desse tipo de atendimento. Ao todo, o TEAdaptar assiste 15 famílias, sendo 6 candidatas à transformação da casa. O lar de Johnny e Gabrielly foi o primeiro escolhido. “A gente conheceu a Valéria e aí ela passou a conviver com a gente. Ela veio com essa ideia, a gente foi amadurecendo e decidimos fazer”, conta Walber Leite (40), pai dos adolescentes.

Condições de acessibilidade

A casa em que os adolescentes moram com os pais,Walber Leite e Rosylaine Lins (38), foi construída em um terreno cedido pelo governo há mais de 16 anos. A estrutura ganhou cômodos como banheiros e quintal aos poucos, por iniciativa própria do pai, mas agora sofre com infiltrações, problemas básicos, e a falta de condições necessárias para acomodar os filhos.

Walber destaca que as adaptações na moradia são fundamentais para contribuir com a qualidade de vida dos filhos, incluindo as atividades terapêuticas que ficaram comprometidas por causa da pandemia de Covid-19. Segundo a família, a escola não prestou o atendimento necessário e o Centro de Referência em Educação e Atendimento Especializado do Ceará (CREAECE), onde eles são assistidos desde de crianças, começou a enviar atividades há apenas quatro meses.  

“A gente fez a musicalização, atividade física, comprei uma bicicleta para ver se o Johnny consegue. A gente está fazendo o que pode. No começo, não teve praticamente atendimento de ninguém, tanto da escola, quanto do governo, posto de saúde. No começo, eles ficaram sem entender o que era a pandemia e a gente tinha que explicar todo dia”, externa. 

Estrutura adequada

Além da qualidade de vida, existem alguns itens que são indispensáveis para o bem estar de um autista em casa,;como organização, iluminação adequada, ventilação e acústica. “Toda essa parte da acessibilidade porque muitos autistas têm problema de equilíbrio. Eles não têm noção de tamanho do espaço, então eles se batem. A gente faz a estratégia para cada autista, e aí muitas vezes eles precisam de estratégias setoriais, como ter um balanço, ter uma parede sensorial, usar cores mais claras, tentar diminuir a informação. A gente consegue através do espaço minimizar essas crises, e eles em um espaço mais regulado, compreendem onde eles estão, se sentem mais seguros”, esclarece Valéria. 

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Legenda: Lençóis ficam estendidos sobre as camas para evitar que caia sujeira do telhado
Foto: Arquivo pessoal

A contribuição com a campanha de doação e a vaquinha deve ajudar para a conquista da família, visto que sozinhos, eles não conseguem arcar com as despesas da reforma. De acordo com Walber, ele e a esposa precisam ficar em casa para dar atenção aos filhos, portanto, a renda familiar vem de um benefício consentido a Johnny e Gabrielly e bicos feitos pelo pai – que reduziram em decorrência da pandemia.

A reforma será importante também para que os pais possam exercer outras funções que auxiliem a questão financeira, mesmo de casa. “Com todo esse conjunto, o autista compreende cada espaço da casa dele, e os pais que trabalham em casa vão poder produzir e fazer com que o filho tenha mais independência”, relata Valéria. 

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