Veja lista de livros, filmes e séries para entender a crise no Afeganistão

Diversas produções auxiliam na compreensão do colapso vivenciado no País devido à retomada do poder pelo Talibã

Legenda: O filme "12 Heróis", a autobiografia da ativista paquistanesa Malala Yousafzai e a série "The Handmaid's Tale" são algumas de nossas indicações
Foto: Divulgação

Embora pareça, não se trata de uma distopia ficcional. As imagens que correm o mundo nos últimos dias apresentam, de fato, a crua realidade vivenciada no Afeganistão neste momento. A partir da retomada do poder no País, no último domingo (15), pelo Talibã – movimento fundamentalista e nacionalista islâmico que há 20 anos tentava chegar onde hoje está – uma comoção de grandes proporções se alastrou pela planeta diante dos ataques de violência e perseguição.

Também ganharam força inúmeras discussões acerca dos efeitos do conflito em amplas frentes, principalmente no que diz respeito a como sobreviver sob um regime teocrático. O que sentem as pessoas que estão nessa situação? Como encontrar liberdade em um panorama de silenciamentos? Nesse movimento de supressão de direitos humanos – notadamente os relacionados às mulheres – de que forma não sucumbir?

Diversas produções culturais de agora e de outrora auxiliam na compreensão dessa teia de extremismos e angústias. Tomando como mote o tumulto como ele é, as histórias ampliam modos de observação e entendimento do que cerca a problemática, fazendo com que os debates e reflexões ganhem novos contornos.

Abaixo, você confere uma lista de livros, filmes e séries para um maior conhecimento sobre a atual crise no Afeganistão.

Livros

“Mulheres de Cabul”, de Harriet Logan

Livro-reportagem assinado pela premiada fotógrafa inglesa Harriet Logan, mergulha nos sonhos e tormentos das mulheres afegãs durante o regime de terror do Talibã. De forma realista e crua, sem deixar de possuir beleza e veia poética, a obra amplia o universo do País já mostrado em títulos como “O caçador de pipas”, de Khaled Hosseini, e “O livreiro de Cabul”, de Asne Seierstad. 

Por se tratar de um trabalho assinado por uma fotógrafa, uma vastidão de imagens percorre as páginas do material – publicado, no Brasil, pela Geração Editorial – apresentando a força descomunal das mulheres de uma nação marcada pela dor. 

Para se ter uma ideia, entre outras proibições impostas a elas, estão, por exemplo, o fato de que não podiam trabalhar fora nem frequentar escolas. Também não era permitido rir em público, ouvir música, empinar pipas, e fotografias eram consideradas formas de idolatria. Todas essas situações são captadas com maestria e profundidade no livro.

“Eu sou Malala”, de Malala Yousafzai

Uma das personalidades mais conhecidas do mundo quando o assunto é a condição das mulheres em regimes de exceção, a paquistanesa Malala Yousafzai se tornou uma voz global após ser baleada por um militante do Talibã ao voltar da escola. A partir desse acontecimento, ela começou a empreender profundos discursos e ações que convocam a debates e novos modos de visualizar a condição feminina no Afeganistão.

Na autobiografia “Eu sou Malala - A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã”, publicada pela Companhia das Letras, a jovem relata, entre outros fatos, a mudança drástica no convívio escolar das meninas de sua idade; a obrigação do uso da burca – veste que cobre todo o corpo – e a consequente dificuldade para realizar atos corriqueiros, como andar; bem como todas as vulnerabilidades nas quais elas foram expostas.

Um testemunho que ganhou várias edições e versões – algumas inclusive voltadas para crianças – de modo a reafirmar a necessidade do combate a esse indigesto cenário, algo que a vencedora do Nobel da Paz em 2014 infelizmente vivencia agora de novo.

“A Cidade do Sol”, de Khaled Hosseini

O romance, publicado pela Nova Fronteira e com nova edição pela Globo Livros, é ambientado em 1959 e em 1993, a partir de diferentes cidades do Afeganistão. No primeiro momento, em Herat, conhecemos o relacionamento proibido entre um rico comerciante e uma de suas empregadas. Desse enlace, nasce Mariam, uma jovem marcada pelo ostracismo e a tragédia que, rejeitada pelo pai, vive em um casebre na periferia com a mãe.

Ainda adolescente, ela perde a parente, sendo obrigada a se casar com um desconhecido 30 anos mais velho e cumprir o seu dever como mulher: servir ao marido e lhe dar muitos filhos. O destino, entretanto, parece ter outros planos para a personagem, assim como para seu país. 

Por sua vez, em 1993, a história se passa em Cabul, enfocando na trajetória de Laila. Com 14 anos, ela é filha de um intelectual e cresceu sendo incentivada a estudar, ter uma carreira e só depois, se assim o desejasse, pensar em se casar. Entretanto, quando seus dois irmãos são enviados para lutar contra os soviéticos, Laila se vê obrigada a assumir as responsabilidades da casa, enquanto tenta manter sua rotina. Uma vez tendo sido criada para ser quem ela quisesse, logo a guerra vai mostrar que nem sempre os desejos podem se tornar realidade.

“Uma pequena casa de chá em Cabul”, de Deborah Rodriguez

Publicado no Brasil pela editora Leya, o romance de Deborah Rodriguez traz ao público a história de Sunny, orgulhosa proprietária de uma pequena casa de chá no coração do Afeganistão. Para manter o local e os clientes seguros, ela precisa de um plano genial.

É a partir desse argumento que somos apresentados a uma miríade de outras personagens, com seus problemas e indefinições. Yasmina, por exemplo, é uma jovem grávida que foi roubada de seu distante vilarejo e abandonada nas ruas violentas de Cabul. Candace, por sua vez, é uma americana rica que trocou o marido pelo amante afegão. Já Isabel é uma jornalista determinada que guarda um segredo capaz de privá-la da maior reportagem de sua vida. 

Logo, essa pequena casa de chá em Cabul que atende homens e mulheres – expatriados, funcionários da ONU e mercenários – simboliza um momento de pausa numa região onde a tensão paira no ar e uma bomba pode explodir a qualquer momento. O local também se torna o cenário para o encontro das mulheres citadas que, mesmo tão diferentes entre si, compartilham segredos e tornam-se amigas com uma relação ímpar.

Filmes

“A hora mais escura”, Kathryn Bigelow

Disponível no catálogo da Netflix e da Globoplay, o filme tem Jessica Chastain como protagonista e é inspirado na história real da caçada ao homem que já foi considerado o mais procurado do mundo, o saudita Osama Bin Laden (1957-2011) – interpretado por Ricky Sekhon.

Chastain, por sua vez, interpreta Maya, uma agente da CIA que participa da operação de captura do terrorista. Tendo a perseguição real reconstituída por meio de gravações em áudio, o longa da mesma diretora de “Guerra ao terror” foi indicado a 5 Oscars. 

Além disso, recebeu os prêmios de Melhor Filme, Direção e Fotografia, da New York Film Critics Circle; e de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz, da National Board of Review (NBR), em 2012.

“Soldado anônimo”, de Sam Mendes

O longa acompanha Swoff, interpretado por Jake Gyllenhaal, pertencente à terceira geração de sua família a servir ao exército. Ele passa pelo campo de treinamento antes de ser designado para lutar no Iraque, onde precisa carregar um fuzil e cerca de 50 quilos de equipamento nas costas por meio de desertos escaldantes. 

Estando em local que não entende, lutando contra um inimigo que não consegue ver e sem entender direito o porquê de estar ali, Swoff e os companheiros de batalhão sobrevivem à adversidade local usando o sarcasmo e um humor politicamente incorreto.

Do mesmo diretor do badalado “1917”, um dos favoritos ao Oscar em 2019, “Soldado anônimo” conta ainda com Peter Sarsgaard e Jamie Foxx no elenco. Disponível na Netflix.

“Campo de matança”, de Mark Willacy

Presente em vários catálogos – Amazon Prime Video, Vivo Play, Google Play Filmes e Apple TV – “Campo de matança” ultrapassa o expediente comum dos documentários sobre guerra ao reunir denúncias de diversos crimes que resultaram em uma cultura assustadora de assassinato por parte das Forças Especiais da Austrália no Afeganistão

Breve, com apenas 45 minutos, o filme apresenta imagens exclusivas, além da declaração de um ex-agente das Forças Especiais, resultado de um intenso esforço de pesquisa e apuração dos dados e depoimentos. 

A direção, a cargo de Mark Willacy, é segura e precisa ao abordar o contexto de violência e impunidade, fazendo com que as experiências relatadas possam promover uma série de reflexões.

“12 Heróis”, de Nicolai Fuglsig

Lançado em 2018 e com Chris Hemsworth no papel principal, o longa apresenta uma equipe formada por agentes da CIA e das forças especiais que se dirige para o Afeganistão em resposta aos ataques do 11 de setembro, na tentativa de desmantelar o Talibã. 

O grupo do capitão Mitch Nelson (Chris Hemsworth) tem como objetivo convencer o comandante da Aliança do Norte, o General Abdul Rashid Dostum, a aliar-se aos estadunidenses no combate a esse adversário comum, o grupo terrorista Al Qaeda e os talibãs.

Além da necessidade de superar a desconfiança mútua e as vastas diferenças culturais, os convocados são obrigados a adotar as táticas rudimentares dos soldados a cavalo afegãos, numa guerra onde enfrentam grandes dificuldades e inferioridade numérica perante um inimigo implacável que não faz prisioneiros. Disponível na Amazon Prime Video.

Séries

The Handmaid’s Tale

Original da Hulu e presente no catálogo da Globoplay, a aclamada série situa o aterrorizante panorama instituído por um regime teocrático. A Gilead – grupo político que vai ganhando poder nos Estados Unidos – dá um golpe no País e transforma toda a rotina da população.

Entre as regras estabelecidas, está a que faz com as mulheres percam total autonomia sobre seus próprios corpos, não podendo mais trabalhar e estudar. Sua função é reduzida somente à reprodução. 

O roteiro da série é inspirado no livro homônimo, “O conto da Aia”, escrito por Margaret Atwood e publicado no Brasil pela editora Rocco. A autora, inclusive, se baseou no Talibã para criar a história, logo após uma viagem ao Afeganistão.

Califado

Lançada neste ano no catálogo da Netflix, “Califado” é uma série sueca baseada em fatos reais que acompanha três mulheres: Pervin (Gizem Erdogan), que mora na Síria e vive com um sueco que faz parte do Estado Islâmico; Fatima (Aliette Opheim), uma policial que vai ajudar a tirar seus compatriotas da Síria e investiga atentados dentro do seu país; e Sulle (Nora Rios), uma adolescente atraída por uma pessoa em sua escola, no subúrbio de Estocolmo, para a religião muçulmana, uma forma de ser levada pelo grupo EI. 

Com apenas 8 episódios, durando 47 minutos cada um, a produção arma uma intrincada teia de personagens e de intrigas. No decorrer dos fatos, as perguntas pululam: o que esse personagem tem a ver com aquele? Quem está fazendo jogo duplo? Qual plano está sendo posto em prática?  

C. B. Strike

Britânica e disponível na HBO Max, “C. B. Strike" é produzida pela BBC One. A primeira temporada é baseada nos livros “O Chamado do Cuco” e “O bicho-da-seda”, escritos por JK Rowling sob o pseudônimo de Robert Galbraith.

No enredo, Cormoron Strike (Tom Burke) é um veterano de guerra que se torna detetive particular e tem um escritório na Denmark Street, em Londres. Apesar das feridas físicas e emocionais que a guerra lhe deixou, ele utilizará seu instinto e sua experiência como investigador para resolver crimes complexos, coisa que faz ao lado de sua assistente, Robin Ellacott (Holliday Grainger).

Os três primeiros episódios referem-se ao livro “O Chamado do Cuco”, em que Strike investiga o suposto suicídio de uma supermodelo. Já os capítulos quatro e cinco acompanham o desaparecimento do escritor Owen Quine. No total, a série possui sete episódios.

O Homem do Castelo Alto

Baseada no livro homônimo de Philip K. Dick (1928-1982), autor de “Blade Runner”, a série apresenta um mundo onde os nazistas e seus aliados venceram a guerra. A partir daí, é apresentado um panorama onde se vive um misto de fundamentalismo e teocracia.

Disponível na Amazon Prime Video – sendo uma das séries mais populares do catálogo neste momento – a produção é ambientada em 1962 e descrita como “distópica e hipnotizante”.

Tal impressão se deve justamente à ousadia de inverter os papéis e imaginar um universo distópico que infelizmente encontra, no mundo real, as bases para sustentar um argumento de proporções indigestas.

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