Teatro virtual para crianças: encontro de realizadores cearenses debate limites e possibilidades

Transmissão on-line do evento, com exibição gratuita de espetáculos infantis, acontece nos dias 5, 6 e 7 de março, no Canal do YouTube do Pavilhão da Magnólia

Espetáculo O Sr. Ventilador
Legenda: Espetáculo "O Sr. Ventilador", do Grupo Bagaceira de Teatro, será transmitido no evento

Desde que as cortinas dos teatros se fecharam para conter a transmissão do coronavírus, os trabalhadores das artes cênicas têm explorado as diferentes possibilidades dos palcos virtuais. Mas os desafios desse processo são inúmeros, especialmente quando o foco é conquistar a atenção de um público específico: o infantil.

Para debater acerca do tema, a classe artística se reúne on-line, entre os dias 5 e 7 de março, no V Encontro de Realizadores de Teatro para a Infância do Ceará. O evento, gratuito e transmitido no Canal do YouTube do Pavilhão da Magnólia, conta com mesas de debate, rodas de conversa, além de uma mostra artística de espetáculos voltados para as crianças.

Grupo Base de Teatro
Legenda: Espetáculo "Crendice de Quem me Disse", do Grupo Base de Teatro (Cascavel/CE) também integra programação

A atividade marca também os dez anos de uma articulação que reúne esforços pelo fortalecimento das políticas culturais voltadas para a infância no Estado. Um dos idealizadores, o gestor e ator do Grupo Pavilhão da Magnólia, Nelson Albuquerque,  chama atenção para os desafios da área desde a confirmação dos primeiros casos de Covid-19 no Ceará.

“No ano passado, o Festival Internacional de Teatro Infantil do Ceará - TIC ainda conseguiu realizar sua edição de 10 anos on-line. Fora isso, não houve nenhuma ação do estado voltada para infância. O Encontro também é um respiro para nós fazedores. Viemos mostrar que há produção de qualidade para a infância e que mesmo com a virtualidade exagerada que os pequenos estão sendo expostos durante a pandemia, foi a maneira que encontramos de celebrar e nos fortalecer em tempos difíceis”, desabafa.  

Mas quais são os limites desse formato de fazer teatral?

Para Emídio Sanderson, diretor do TIC, que estará na mesa de abertura do encontro, o principal limite é superar a psicogênese que se trama na cabeça de quem faz e de quem consome teatro, que é a presença física. 

“Não é algo simples. A presença física faz parte da experiência estética daquilo que temos concebido em nossas cabeças sobre o que é teatro – seja consciente ou inconscientemente. Porém, percebo que, quanto mais se investiga e experimenta um teatro virtual, mais essa concepção do ‘presencial’ é derrubada. Creio que estamos alargando nossas possibilidades de pensar e fazer teatro”, declara.

Grupo Galhofo
Legenda: Grupo Galhofo terá o espetáculo "O Galinheiro de Bragança" transmitido no Encontro

Sob esse aspecto, Emídio partilha ainda que, em 2020, o Festival TIC resistiu muito para converter sua programação para o ambiente on-line. Porém, para continuar existindo, a organização se viu obrigada a fazer isso, obtendo um resultado positivo com a decisão.

“O público respondeu de forma surpreendente; sobretudo, aquelas crianças que nunca tinham assistido a um espetáculo de forma presencial (grande parcela do nosso público). Conseguimos alcançar o nosso propósito. Apesar disso, não queremos deixar de fazer uma programação presencial, pois ela envolve múltiplos sentidos, enquanto o formato virtual foca na visão – sentido este já bastante explorado pela cultura de massa”, analisa.

Experiências e possibilidades

O contato e a relação dos pequenos com as artes cênicas, segundo Nelson Albuquerque, é de fundamental importância no desenvolvimento pessoal de cada um, pois a forma de abordagem de temas no teatro, mesmo que na tela, se dá de forma mais direta e precisa. 

“A artesania do teatro, o ‘faz de conta’ também ajuda a criança a se comunicar e a desinibir nesse momento que ela precisa se comunicar com colegas e professores. Sobre o uso das telas, é imprescindível a sensibilidade da família, uma vez que os pais definem o que mostrar. E alertamos para a escuta aos pequenos, e todo o cuidado nesse momento de pandemia e de pouca socialização”, pontua o ator.

Emídio também reconhece que há muitas limitações e contraindicações do uso das telas por parte das crianças, principalmente numa fase da vida em que o indivíduo está se desenvolvendo física e mentalmente; entretanto, dadas as circunstâncias impostas pela pandemia, ele convida a reconsiderar alguns pontos.

“Precisamos ser menos exigentes, pois estamos trabalhando numa perspectiva de redução de danos. O bom senso e uso regrado das telinhas são recomendados, priorizando o acesso de bons conteúdos, coisa que teatro virtual está conseguindo fazer”, acredita.

Mesmo que ainda se aposte no formato clássico de longa duração de um espetáculo teatral filmado, Nelson admite que há muitos experimentos que foram e estão sendo realizados nessa perspectiva de adaptação, de diminuição de tempo, de utilização de várias plataformas de forma criativa para abordar outros temas mais urgentes e que dialoguem com as crianças.

E quanto a isso, Emídio celebra também uma postura decolonial dos realizadores. “De março de 2020 até hoje, o teatro infantil se transformou. As diferentes experiências do formato virtual representam um grande legado para a história do teatro mundial, independentemente de onde e como foi feito. Eram poucas referências de como fazer teatro virtual. Para nós do nordeste brasileiro, o que se faz no Rio, São Paulo e no exterior é uma referência na hora de pensarmos e produzirmos nossos trabalhos, e nessa pandemia, não tivemos isso para o teatro virtual – o que é muito libertador e revolucionário”, diz.

Estratégias para resistir

Neste sentido, a produção dos coletivos cearenses Cangaias Coletivo Teatral (Maracanaú), Cia Prisma de Artes (Fortaleza), Grupo Base de Teatro (Cascavel), Grupo Galhofo (Fortaleza), Grupo Bagaceira de Teatro (Fortaleza) e Grupo Pavilhão da Magnólia (Fortaleza) será debatida no Encontro de Realizadores.

Encontro de Realizadores de Teatro Infantil
Legenda: Registro do I Encontro de Realizadores de Teatro Infantil, em 2011. O encontro é bienal, e em 2021 realiza a quinta edição virtualmente

“Esses debates são processos formativos e fundamentais na construção de ideias para um melhor fazer artístico durante essa pandemia”, defende Nelson.

Ao que Emídio complementa: “Vejo que o teatro virtual pode chegar de forma muito mais democrática em camadas menos favorecidas e que nunca ou pouco tiveram acesso a um espetáculo. E fico muito feliz por essa democratização do acesso ao teatro, mesmo que virtual, esteja acontecendo nesse momento em que as artes levam acalanto e esperança para muitas pessoas que estão abaladas pela pandemia”.

Confira programação completa do Encontro:

Dia 05 – sexta

15h - Abertura com Napoleão - Pavilhão da Magnólia (Fortaleza, Ce)
16h - 18h Mesa virtual: Desafios do Teatro para as Infâncias “A cortina fechou: limites e possibilidades do teatro para as infâncias na virtualidade” com Dib Carneiro Neto (SP), Emídio Sanderson (CE), Leidson Ferraz (PE) e Vicente Concílio (SC) com mediação de Ednéia Tutti.

Dia 06 - sábado

11h Putz A menina Que Buscava o Sol - Cia Prisma de Artes (Fortaleza/Ce)
15h Crendice de Quem me Disse - Grupo Base de Teatro (Cascavel/Ce)
17h O Regresso Dum Barquinho de Papel - Cangaias Coletivo Teatral (Maracanaú/Ce)
18h - 19h Debate com os grupos participantes e convidados (via Google Meet)

Dia 07 - domingo

15h O Galinheiro de Bragança - Galhofo (Fortaleza/Ce)
17h Sr. Ventilador - Bagaceira de Teatro (Fortaleza/Ce)
18h - 19h Debate com os grupos participantes e convidados (via Google Meet)
19h30 - Lançamento vídeo/site comemorativo 10 anos de Encontro 

*Transmissão gratuita no Canal do YouTube do Pavilhão da Magnólia

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