Santo Antônio sem cabeça no interior do Ceará desperta atenção, inspirando livro e filme

No dia dedicado ao santo casamenteiro, resgatamos a curiosa história do monumento dedicado a ele no município de Caridade

Escrito por Diego Barbosa, diego.barbosa@svm.com.br

Verso
Legenda: De tão pesada e devido aos fortes ventos da região, não foi possível erguer a cabeça no monumento; ficou, então, em uma casa, separada a cerca de três quilômetros do corpo
Foto: Alex Pimentel

Santo Antônio é entidade desmembrada no interior do Ceará. Grande aniversariante desta segunda-feira (13), o padroeiro das coisas perdidas, dos pobres e, claro, daqueles que procuram um amor, aguarda há 36 anos a cabeça voltar para o corpo. A história é famosa, ganhou até o mundo. Mas nunca cansa de surpreender.

Vamos aos fatos. Tudo se passa em Caridade, município a 97 quilômetros de Fortaleza. O então prefeito da cidade, Raul Linhares – à frente da gestão entre 1981 e 1986 – encomendou ao artista Francisco Barbosa de Oliveira, o Franzé D’Aurora, um monumento em homenagem ao santo. “Na época, eu participava de um projeto chamado ‘Ferrocimento’, no Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Ceará”, explica o escultor.

Legenda: Proposta é construir um museu reaproveitando partes da cabeça do santo e da casa onde ela está localizada – de propriedade da Prefeitura do município
Foto: Cid Barbosa

Ação aprovada, obras iniciadas, tudo nos conformes. Concluído o processo da estrutura principal, faltou alocar a cabeça. De tão pesada e devido aos fortes ventos da região, não foi possível erguê-la. Ficou, então, em uma casa do bairro Conjunto Habitacional, separada a cerca de três quilômetros do corpo. Continua lá até hoje, servindo de muro e até abrigo.

“Não me incomoda, não. Na verdade, gosto muito, porque sou religiosa”, divide Antônia Cilda, 57, moradora do bendito lar. Faz dez anos que ela reside no domicílio – motivo pelo qual, no início da conversa, adianta desconhecer o contexto histórico da cabeça. Mas guarda uma satisfação enorme pelo feito. “Quando cheguei, várias pessoas já tinham morado na casa, e era basicamente apenas o chão. Ajeitei tudo”.

Legenda: “Não me incomoda, não. Na verdade, gosto muito, porque sou religiosa”, divide Antônia Cilda, 57, moradora da casa onde está a cabeça
Foto: Reprodução/TVM

O muro, no entanto, ainda não é totalmente muro: a cabeça o complementa, invadindo o recinto externo. Tanto é que, se um dia removerem a parte do santo de lá, dona Antônia acredita que a situação ficará melhor. “Na verdade, pra mim tanto faz. A cabeça não atrapalha, nem as pessoas que chegam lá pra visitar. As portas estão sempre abertas – apesar de agora estar mais difícil bater foto porque os pedaços da estátua estão caindo ”.

Devota de Santo Antônio – além de ela mesma compartilhar o nome do virtuoso, o marido segue na mesma linha – a doméstica, natural do município de Paramoti, intensifica as preces neste dia dedicado ao santo. Reza pela própria saúde e a dos netos. “Ultimamente, vivo em Fortaleza, ajudando na casa dos meus filhos. Mas moro em Caridade. Volto pra lá daqui a alguns dias, inclusive. Portas abertas de novo”.

Museu da cabeça

Vários projetos circundam o monumento de Santo Antônio em Caridade. Uma das propostas é construir um museu reaproveitando partes da cabeça do santo e da casa onde ela está localizada – de propriedade da Prefeitura do município. Já um ponto turístico, o espaço reforçaria o elo do público com a fé, a História e a imaginação.

Legenda: Estátua sem a cabeça de Santo Antônio, em Caridade; registro de 2018
Foto: Alex Pimentel

Além disso, no ano passado a cidade foi contemplada com a construção de uma nova estátua em homenagem ao padroeiro. A implantação envolve um monumento de 36 metros de altura – apenas dois metros a menos que o Cristo Redentor – acompanhado de um edifício-base de dois pavimentos, contendo capela, loja de artigos religiosos, mezanino e terraço para os visitantes apreciarem a paisagem do alto do Serrote do Cágado, ponto mais alto de Caridade.

O projeto ainda inclui urbanização de uma área de aproximadamente 4,4 mil metros quadrados, com pátio externo, estacionamento, calçadão arborizado, escadas e rampas. As obras estão sob acompanhamento da Superintendência de Obras Públicas (SOP), executadas pela empresa MPI Construções Ltda. A previsão de conclusão é daqui a oito meses. Por sua vez, a abertura do museu onde está a cabeça do santo ainda está sem estimativa.

Legenda: Projeto do complexo religioso de Santo Antônio, divulgado pelo Governo do Estado do Ceará
Foto: Divulgação/Governo do Ceará

“Também existe a ideia de se criar um roteiro turístico, no qual as pessoas – a partir da conclusão da estátua e do complexo – possam conhecer alguns pontos específicos da cidade. Uma série de fatores nos beneficia bastante, e a população está se preparando para esse momento. Saindo de Fortaleza, Caridade será a primeira cidade a ter um complexo turístico religioso, seguindo por Canindé e concluindo com Juazeiro do Norte”, detalha Matheus Belo, coordenador de cultura do município.

História além-fronteiras

Fato é que a localidade há muito ultrapassou as próprias fronteiras devido ao inusitado caso da estátua de Santo Antônio. Trabalhos como o livro “A Cabeça do Santo” são prova disso. Escrita pela cearense Socorro Acioli, a obra já ganhou traduções para o inglês e o francês, e se inspira na curiosa situação do monumento para narrar a trajetória de Samuel.

Após perder a mãe, o rapaz faz a pé o caminho de Juazeiro do Norte até a pequena cidade de Candeia. Lá, ele encontra abrigo na cabeça oca e gigantesca de uma estátua inacabada de Santo Antônio, jazida separada do resto do corpo. Mais: Samuel consegue ouvir vozes femininas apenas quando está dentro da cabeça. Assustado, ele se dá conta de que aquilo são preces que as mulheres fazem ao santo falando de amor.

Legenda: Capa do livro escrito por Socorro Acioli, inspirado no monumento inacabado de Santo Antônio, em Caridade
Foto: Divulgação

O romance foi desenvolvido na oficina de Gabriel García Márquez (1927-2014) e é o primeiro trabalho literário adulto de Socorro Acioli – laureada com o Prêmio Jabuti pelo livro “Ela tem olhos de céu”, em 2013. Existe, inclusive, um projeto para transformar “A Cabeça do Santo” em filme. No ano de 2019, a cineasta Joana Guttman e a produtora Diane Peixoto estiveram em Caridade realizando um estudo visando a gravação do longa.

Motivo de devoção e misticismo, protagonizando causos, estudos e projetos, o Santo Antônio de Caridade segue incontornável. Conta-se, por exemplo, que se um casal se divorcia na cidade, a “culpada” é a estátua fragmentada do padroeiro

Para o artista Franzé D’Aurora, foi-se o tempo de referenciar o município como o lugar do santo sem cabeça. “É correto dizer que é a cidade da cabeça de Santo Antônio que faz as pessoas pensar. Hoje ela está em todas as partes do mundo, mais necessariamente no imaginário do intelectual, do popular, de quem passa, de quem vê. Ela chama para o mistério. Isso é que é importante. Esse é o diferencial e referencial do belo”.