Renato Russo, o punk que cantou a esperança de um Brasil melhor

Há exatos 25 anos, o líder da Legião Urbana saia de cena e deixava um legado musical que até hoje é farol ao coração da juventude (ou nem tão jovens)

Esta é uma imagem de Renato Russo
Legenda: Cantor e compositor gravou até quando a frágil saúde lhe permitiu
Foto: Reprodução

Renato Manfredini Júnior viveu apenas 36 anos. Em grande parte dessa existência, foi a música o signo máximo de expressão. Ainda no berço, por intermédio de uma tia, escutava Elvis para embalar o sono. Após a infância entre Rio de Janeiro e Estados Unidos, descobriu a então nova capital do Brasil. Em Brasília virou punk e nada mais foi o mesmo.  

"Punks de boutique. De fim de semana. Mas, a gente era", contou ao jornalista Zeca Camargo durante entrevista à MTV. Em outubro de 1996, a morte do cantor e compositor também encerrava o ciclo de um dos grupos mais prestigiados da “geração 80" do rock nacional. Renato Russo e Legião Urbana. Criador e criatura irmanados.    
 
 
A primeira banda que o carioca participou nunca chegou a existir. A “42th street band” era fruto da imaginação fértil do adolescente. Com os amigos ensaiava covers de Sex Pistols e Ramones. Porém, era preciso outra atitude. "Monte sua própria banda e fale o que você tem a dizer", conta o próprio em trecho de reportagem transmitida pela Rádio Câmara.

Faça suas canções

Assim, Renato herda o lema punk do “faça você mesmo”. Pouco importa a qualidade do som, contato que a mensagem seja entregue. Veio o projeto Aborto Elétrico com os irmãos Fê e Flávio Lemos (de onde saíram "Que País é Este", "Conexão Amazônica", “Fátima”, “Veraneio Vascaína”). Em seguida, a fase solo como “trovador solitário” cria "Geração Coca-Cola", “Faroeste Caboclo”, “Eu Sei” e “Eduardo e Mônica”.
 
Legenda: Apresentação da Aborto Elétrico
Foto: Reprodução/Site oficial Renato Russo
 
"O rock é uma forma legal de se trabalhar, pois, sendo uma arte bastarda, incorpora todos os tipos de música. Então é mais uma atitude e não exatamente música.  Você tem, sabe, um quarteto de cordas tocando 'Yesterday', como os Beatles fizeram, isso é rock. Ao mesmo tempo que eu posso pegar uma base de repente, como fazemos em 'Faroeste Cabloco'. A primeira parte da música toda é virtualmente um repente. Mas, não deixa de ser rock", conta o músico em trecho do documentário "Rock Brasília - Era de Ouro" (2011).
 
Com Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha (1961-2015) cravou a aura da Legião Urbana em oito trabalhos de estúdio. Do disco homônimo de estreia em 1985 até o póstumo “Uma Outra Estação” (1997), o grupo emplacou sucessos em rádios, novelas e visitou palcos pelo Brasil. Bem, em relação aos shows, vale dizer, a história marca alguns contratempos.  

O episódio mais simbólico ocorreu em junho de 1988. A apresentação no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, foi considerada desastrosa. Confusão no público, quebra quebra e Renato atacado em pleno palco. Resultado, nunca mais eles voltariam a realizar concertos (como Legião) na cidade que os projetou.
 
Capa de
Legenda: Capa de "Que País É Este?" (1987)
 
Em março daquele ano, a Legião tocou pela primeira vez em Fortaleza. Retornaram em 1990, com ambas apresentações no Ginásio Paulo Sarasate. Essa última, com direito ao ingresso mais caro daquela temporada.  
 
Diário do Nordeste 27/10/1990
Legenda: Diário do Nordeste 27/10/1990

Até o fim

Estabelecido no cenário musical brasileiro, Renato Russo traçou outros caminhos sonoros na última década carreira. Sem deixar os trabalhos com a Legião, gravou “The Stonewall Celebration Concert” (1994), álbum cantado em inglês que celebrou a Rebelião gay de Stonewall, ocorrida em 1969 em Nova Iorque.  
 
Parte da renda da obra foi doada à campanha “Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida”, idealizada por Herbert José de Souza (1935-1997), sociólogo brasileiro reconhecido na luta pelos direitos humanos. Com “Equilíbrio Distante” (1995), Renato abraçou temas italianos em homenagem às raízes familiares.  
 
Antes de partir, compôs e gravou até onde o frágil estado de saúde lhe permitiu. Renato Russo denunciou injustiças e violências. Cantou insatisfações juvenis. Abordou as dores e solidão. Misturou filosofias e evangelho. Do adolescente punk persistiu a urgência de lutar por liberdade. Ao seu modo, adentrou a relevância de impormos contra os desmandos. Nada mais urgente à conjuntura atual do Brasil.

 
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